OLIMPÍADAS

Barrados no baile

Para prevenir infecções pelo novo coronavírus, Comitê Organizador veta público estrangeiro nos Jogos de Tóquio. Medida frustra torcedores brasileiros, que aguardam ressarcimento dos ingressos

Correio Braziliense
postado em 04/04/2021 22:57
 (crédito: Arquivo pessoal)
(crédito: Arquivo pessoal)

Giscard Stephanou, de 46 anos, estava animado para ir à segunda Olimpíada. Ele ficou frustrado com o veto do Comitê Organizador dos Jogos de Tóquio-2020 em relação à entrada de torcedores do exterior como forma de conter a disseminação da covid-19 no Japão. No entanto, entendeu a decisão do Comitê Olímpico Internacional (COI).

“Tendo em vista essa questão sanitária, acho que foi uma decisão correta. A maior parte das pessoas estaria exposta e poderia aumentar o número de casos pelo mundo”, disse o servidor público, morador de Brasília. “Por outro lado, é um sentimento de frustração por deixar de ir ao maior espetáculo esportivo do planeta. O espírito olímpico acontece muito por conta do ambiente, que envolve não só os atletas, mas a torcida”.

Torcedor fanático do Grêmio e fã de esportes, Giscard esteve nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, e marcou presença em diversos eventos esportivos no Brasil e no exterior. Foi à Copa do Mundo do Brasil, em 2014, ao Mundial da Rússia, em 2018, viu a Seleção Brasileira vencer a Copa das Confederações em 2013 e a Copa América em 2019, e foi espectador in loco de jogos de tênis, vôlei e corridas de Fórmula 1. Agora, esperava ansioso pelos Jogos de Tóquio, mas só poderá ver pela televisão.

“É um evento grandioso, sensacional. Foi o fato de estar no Rio, em 2016, que inspirou a ideia de estar em Tóquio, Paris, e o que mais vier”, pontuou. O torcedor gastou cerca de R$ 13,5 mil em 35 ingressos para ele e a esposa de 11 modalidades diferentes: a final do futebol masculino, tênis, basquete, vôlei, vôlei de praia, surfe, canoagem, “para assistir ao Isaquias Queiroz”, judô, ginástica, atletismo e vela “para ver o Robert Scheidt e a Martine Grael”. No total, entre hotel, passagens aéreas e entradas, desembolsou quase R$ 30 mil. “Planejei tudo desde 2018 e comprei os ingressos em 2019, quando começou a ser vendido”, contou.

Giscard receberá o reembolso do hotel que reservou, terá algum prejuízo com as passagens e ainda não sabe se vai reaver todo o valor gasto com os ingressos. A Match Hospitality, responsável pela comercialização da entrada, ainda não definiu como será o processo. A empresa reteve 20% da taxa de conveniência dos torcedores que foram reembolsados, em 2020, após o anúncio de que a Olimpíada havia sido adiada para este ano. Segundo os organizadores, torcedores estrangeiros compraram cerca de 600 mil ingressos.

“Se eu não conseguir o reembolso integral com a Match, pretendo ir à Justiça, porque o evento não foi cancelado, fomos barrados de assistir não por nossa culpa, mas pela decisão dos organizadores, do COI”, salientou Giscard. Este é o mesmo pensamento de Tiago Medeiros, 35 anos, que pagou quase R$ 15 mil por 30 ingressos para assistir a 13 modalidades com a esposa. “Acho que não podemos ficar com esse prejuízo, porque não fomos nós que causamos a proibição do público”, ressalta o locutor de rádio, também de Brasília. “Acredito que o COI deve se responsabilizar e determinar que as empresas contratadas para venda de ingressos devolvam todo o dinheiro pago pelos torcedores”, reforçou.

Diante da gravidade da pandemia do coronavírus, ele também compreende o veredicto do Comitê Organizador. “Como vários países ainda estão em situação sanitária grave, seria muito arriscado para a população local receber milhares de turistas. Por isso, mesmo perdendo a viagem, não fiquei chateado, porque sei que esta proibição é para proteger a saúde da população japonesa”, opinou.

Planejamento

O adiamento dos Jogos Olímpicos para este ano foi benéfico para Bruno Datan Grachet, de 31 anos, ao possibilitar que ele se planejasse para ir ao megaevento. Contudo, a pandemia não deu trégua e os planos foram frustrados. “Surgiu uma segunda chance para eu conseguir realizar esse desejo de ver a Olimpíada e, com um tempo maior, acabei encontrando oportunidades melhores para me organizar. A esperança era que, até julho de 2021, as coisas estivessem mais resolvidas”, comentou o videomaker, de São Carlos, interior de São Paulo, ciente de que o veto a torcedores estrangeiros foi uma decisão razoável.

Ele despendeu cerca de R$ 4 mil em ingressos. “Mas a segurança e a saúde das pessoas têm de ser o foco principal de todos nesse momento”.

No entanto, é mais um que cogita acionar a Justiça, caso não receba o reembolso integral. “Afinal, 20% é uma grande parte do valor e não acho justo que tenhamos esse prejuízo, sendo que fomos proibidos de participar do evento”.

Apenas 500 voluntários poderão entrar

 (crédito: Philip  Fong/AFP)
crédito: Philip Fong/AFP

A presença de voluntários estrangeiros em Tóquio também não será permitida durante os Jogos Olímpicos de Tóquio-2020. “Lamento muito, mas decidimos que não há alternativa senão descartar o plano”, resumiu Toshiro Muto, o diretor-executivo do Comitê Organizador. No entanto, existe a possibilidade de os organizadores abrirem uma exceção e permitirem a entrada de 500 trabalhadores, com habilidade específicas, como a fluência em determinados idiomas. Eles chegariam ao Japão sob regras especiais.

Os 500 voluntários seriam selecionados em meio a um grupo de 2 mil candidatos que moram fora do Japão. Inicialmente, os organizadores planejavam empregar 80 mil voluntários, sendo que 10% do total seria formado por pessoas do exterior, enquanto o governo japonês tinha a ideia de adicionar outros 30 mil, na maioria de fora.

O Comitê Organizador informou que divulgará o número total de voluntários apenas perto do início dos Jogos e afirmou que as sessões de treinamento com os trabalhadores terão início neste mês, sendo que alguns farão as atividades à distância, virtualmente.

No entanto, “devido à natureza dos treinamentos, muitos voluntários terão de comparecer aos locais onde realizarão as atividades, contudo, nesses casos, planejamos tomar medidas rigorosas contra doenças infecciosas, como garantir distância física e uso de máscaras”, disse a organização. “Já delineamos as regras básicas de conduta para os voluntários em relação à covid-19 e continuaremos a estudar medidas necessárias”, completou.

O próximo passo dos organizadores será decidir quantos espectadores locais poderão assistir às provas. Foi sugerido inicialmente que a definição ocorreria nos próximos dias, mas o presidente do COI, o alemão Thomas Bach, afirmou que a decisão possivelmente será adiada para uma data próxima ao dia de abertura, em 23 de julho.

Como parte de medidas para conter a pandemia, o Japão mantém fronteiras fechadas para a chegada de visitantes desde dezembro e só permite o acesso ao país de cidadãos japoneses ou residentes estrangeiros.

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