Skate

Ouvido para as musas

Kelvin Hoefler conquista a medalha de prata no primeiro pódio brasileiro nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Atleta revela orientações da esposa e de colega da modalidade como trunfo para o bom resultado

Tóquio – Nos últimos Jogos, o costume era ligar a televisão para ver a primeira medalha do Brasil ser conquistada no judô, esporte olímpico mais vencedor do país, com 23 pódios. Em Tóquio, porém, os tatames foram substituídos pelas pistas; os ippons, por manobras executadas sob um forte calor de 36ºC. Nesse ambiente adverso para a prática esportiva, o paulista Kelvin Hoefler fez história ao garantir a prata no skate street na madrugada de ontem.

“Se não fosse o vento, a gente poderia ter levado o ouro. Infelizmente, errei duas manobras por conta disso. Mas essa medalha é um ganho para o skate do Brasil. É bem difícil a modalidade no país. E ela não é só minha, é de todos. É pesadona. Será que é de prata mesmo? (risos)”, comemorou o brasileiro de 28 anos.

Kelvin terminou com pontuação final de 36,15 e só ficou atrás do japonês Yuto Horigome, que fez 37,18. A medalha de bronze ficou com o estadunidense Jagger Eaton, com 35,35. Outros brasileiros na prova, Felipe Gustavo e Giovanni Vianna não avançaram para a final.

Hoefler nasceu e cresceu em Vicente de Carvalho, periferia de Guarujá, no litoral paulista. Aos nove anos, começou a praticar a modalidade na cozinha da própria casa. Quando viu que o filho levava jeito, o pai começou a ajudá-lo nos treinamentos. Na adolescência, passou a ganhar prêmios, como carro ou moto, pelo desempenho em competições.

A partir daí, foi ainda mais incentivado pelo pai, que era policial militar e traçou metas competitivas ao filho e começou a levá-lo diariamente para pistas de skate. Em 2014, Hoefler se mudou para Los Angeles, nos EUA, e começou a morar de aluguel na casa de Ana Paula Negrão, com quem se casaria.

Fora do Brasil, ganhou mais notoriedade e se tornou hexacampeão do mundo. E seguiu fazendo história: ontem, em Tóquio, conquistou a primeira medalha brasileira no Japão.

Conselhos

Quando caiu duas vezes seguidas na pista da Ariake Urban Sports Arena, Kelvin temeu que o excelente início na decisão do skate street fosse por água abaixo. Em meio à tensão, a estratégia para acalmar os nervos para as manobras finais e conquistar a medalha de prata passou pelos conselhos de duas mulheres.

Durante a prova, o brasileiro teve como companheira Ana Paula Negrão. Desta vez, o apoio foi virtual. Do outro lado do mundo, a mulher mandava energias ao skatista e o ajudou a se concentrar nas manobras que lhe garantiram o pódio na estreia da modalidade nos Jogos Olímpicos.

“Liguei para ela, a gente chorou junto. Liguei durante a competição o tempo todo. Ela é a minha técnica, minha coach, meu braço direito, esquerdo, perna, tudo... Ela me ajuda sempre e fala: ‘Kelvin, você é o melhor, você vai fazer uma manobra que sabe, descendo o corrimão. Você é o cara que mais sabe dar essa manobra’. Então, quando vou para a manobra, fico com isso na cabeça. Acredito que, sem ela, eu não teria acertado”, relatou o medalhista.

Mais perto estava Pâmela Rosa, skatista brasileira que também briga por medalha nos Jogos de Tóquio. “Ela sabe da técnica do skate. Sem ela comigo, eu não teria essa medalha. Essas duas pessoas me ajudaram extremamente”, contou Kelvin. “As mina ‘é’ f...! Elas sabem o que está acontecendo”, agradeceu.

As orientações técnicas das duas foram decisivas na mudança de estratégia do brasileiro durante a decisão. Kelvin entende que poderia ter levado o ouro não fosse o vento, que desestabilizou o skate na segunda e na terceira manobras. Em meio ao nervosismo e o medo de ficar fora do pódio, o skatista ouviu os conselhos, mudou o movimento executado e, na última tentativa, cravou 9,34 para conseguir a tão sonhada medalha.

“Elas falaram: ‘Kelvin, você precisa de uma vela naquele lugar’. Elas prestam atenção nos detalhes, sabe? Aí eu falo: ‘Ah, f...-se, que vela o quê? Que ‘mané’ água? F...-se o sol. Água? Para quê água? Regra? Para quê regra? Sou skatista’ (risos). Elas colocam a gente no ‘cabresto’ falando para passar a vela, tomar água”, contou. “Eu falei que estava muito vento. Elas falaram: ‘Troque a manobra, faça outra e passa a vela em tal lugar’. As duas me falaram isso. As duas são f...”.

O brasileiro terminou as duas voltas na primeira posição. Nas manobras, passou por problemas ao cair duas vezes seguidas. Foi quando mudou o movimento e conseguiu uma nota altíssima na última tentativa, pulou da terceira para a segunda colocação e faturou a prata.


“Se não fosse o vento, a gente poderia ter levado o ouro. Infelizmente, errei duas manobras por conta disso. Mas essa medalha é um ganho para o skate do Brasil. É bem difícil a modalidade no país. E ela não é só minha, é de todos”
Kelvin Hoefler, skatista brasileiro


Primeiras medalhas do Brasil desde 2000

Tóquio-2020: Kelvin Hoefler (prata no skate)
Rio-2016: Felipe Wu (prata no tiro esportivo)
Londres-2012: Felipe Kitadai (bronze no judô)
Pequim-2008: Ketleyn Quadros (bronze no judô)
Atenas-2004: Leandro Guilheiro (bronze no judô)
Sydney-2000: natação (bronze no revezamento 4x100m livre)

 


Um bronze inspirado por CR7

Há dois meses, Daniel Cargnin, incrédulo, lidava com a decepção de ficar fora do Campeonato Mundial de Judô, devido infeção pelo novo coronavírus. Recuperado, o gaúcho de 23 anos viveu, no início da manhã de ontem, a maior glória da carreira: conquistar uma medalha olímpica. Ele derrotou o israelense Baruch Shmailov no lendário Nippon Budokan e ficou com o bronze na Olimpíada de Tóquio.

O templo do judô mundial foi construído para receber as lutas da primeira edição de Olimpíada disputada na capital japonesa, em 1964. Naquele ano, a modalidade estreava no programa olímpico. Passadas mais de cinco décadas, o Budokan se transformou no centro espiritual e esportivo das artes marciais no país. Era o cenário ideal para o surpreendente Daniel — que não estava entre os favoritos ao pódio — brilhar.

“Estou muito feliz. Preparei-me muito. Só eu, meus amigos e minha família sabemos o quanto eu sofri quando foi adiado. Sempre tive um sonho de subir ao pódio em Tóquio. Estou muito feliz com isso, com o processo que eu tive, meus amigos, todo mundo me ajudou muito. Sem eles, sem o apoio, teria sido muito difícil”, disse.

No caminho até a medalha, o brasileiro derrotou o moldávio Denis Vieru, o egípcio Mohamed Abdelmawgoud e o italiano Manuel Lombardo, número 1 do ranking na categoria até 66kg. Na semifinal, perdeu para o japonês Hifumi Abe e admitiu que viveu instantes de abalo emocional. A recuperação do foco veio inspirada num grande esportista de outra modalidade.

“Naquele momento, eu não sabia o que estava acontecendo direito. Cheguei à área de aquecimento, não sabia o que sentir. Na disputa de terceiro lugar, vai do céu ao inferno muito rápido. Ou fica com o bronze ou sai como quinto. Eu assisti a um videozinho do Cristiano Ronaldo, em que ele fala assim: ‘se tu não acreditar, pode não ser, mas se tu não acreditar, quem vai?’. Eu não estava focando no presente. Olhei para os meus pés, fiquei imaginando o sentimento de ganhar ou perder, mas eu estava ali. O vídeo me ajudou a ficar mais tranquilo”, relatou.

E deu certo. Na decisão do bronze, venceu o israelense com um wazari. Foi a segunda medalha conquistada pelo Brasil ontem. Mais cedo, o paulista Kelvin Hoefler faturou a prata no skate street, no Ariake Urban Sports Park.

Nascido em Porto Alegre e criado em Canoas, o gaúcho começou no judô aos sete anos. Durante a infância, porém, Dani dividia os tatames com os gramados. Ele era lateral-direito em uma escolinha de futebol do Grêmio.

Quando percebeu que não conseguiria conciliar as duas paixões, escolheu a maior delas. No judô, foi bicampeão do Campeonato Pan-Americano e conquistou a medalha de prata no Pan de Lima, no Peru, em 2019.

Ele é fã de um judoca histórico do Brasil: o também gaúcho João Derly, bicampeão mundial. Daniel não pôde participar da edição 2021 do torneio, na Hungria, em maio, por ter testado positivo para covid-19. Apenas dois meses depois, conseguiu a consagração olímpica. (JVM)