Desafios

Sem medalhas em Tóquio, vôlei de praia passa por crise no Brasil

Entre os gargalos para crescer está o calendário reduzido, que dificulta renovação. Países de menor tradição crescem com investimento e colhem frutos

Danilo Queiroz
postado em 16/08/2021 06:00
 (crédito: Daniel Leal Olivas/AFP)
(crédito: Daniel Leal Olivas/AFP)

A atuação do Brasil no vôlei de praia durante os Jogos Olímpicos de Tóquio-2020 ligou um sinal de alerta que vai muito além da decepção pela primeira participação sem medalhas do país em 25 anos. Membro da última dupla eliminada no Japão ao lado de Álvaro Filho, Alison Mamute usou os microfones da imprensa para pedir reflexão sobre a evolução da modalidade no país. Pontos apontados pelo jogador, como o calendário nacional com poucas etapas e de difícil ingresso, atuam como areia movediça e dificultam o crescimento do esporte e até mesmo o surgimento de novos talentos.

Na avaliação de Mamute, o vôlei de praia no Brasil está “parado”, enquanto outras nações crescem na base de investimento. “O Brasil ganhou ouro em 2016, e não mudou nada. O circuito seguiu o mesmo, mesmo número de etapas, só esperando Alison e Bruno, como era com Ricardo e Emanuel. Quando comecei, nos anos 1990, eram 24 etapas. O que eu quero dizer é para mudar o sistema. O mundo descobriu que o vôlei de praia é um esporte barato, que dá resultado e traz medalha. Temos que conversar e debater sobre isso. Até hoje não perguntaram a nossa opinião”, desabafou o atleta em entrevista ao SporTV.

O calendário é justamente um dos maiores gargalos. Principal competição nacional, o Circuito Brasileiro Open é disputado, atualmente, em apenas sete etapas. O torneio é composto pelas 14 primeiras equipes no ranking de duplas para a etapa, além de duas duplas convidadas pela CBV por meio de Wild Cards (convite) e oito times provenientes de um classificatório. Há, ainda, a disputa do SuperPraia, torneio com campeão, ranking de entradas e premiação à parte. A temporada tem duração média de nove meses, começando tradicionalmente no segundo semestre do ano.

A forma de entrada no torneio é, inclusive, um problema para a evolução da modalidade. Como algumas duplas dependem de apenas um jogo para ingressar, existe o risco iminente de eliminação relâmpago e, consequentemente, falta de retorno esportivo e financeiro. O modelo acaba sendo pouco atrativo, dificultando a renovação de jogadores. As equipes masculinas que foram a Tóquio, por exemplo, estão acima dos 30 anos: medalhistas de ouro na Rio-2016, Alison tem 35 e o brasiliense Bruno Schmidt, 34. Eles jogaram ao lado de Álvaro, 30, e Evandro, 31, respectivamente.

No Circuito Mundial, também existem barreiras. Com direito a quatro vagas, a CBV envia as três melhores duplas do Brasil direto para a chave principal da competição. Os demais brasileiros interessados no torneio precisam brigar pela vaga entre si, também em partida única. Para isso, é necessário jogar nos locais onde as etapas estão ocorrendo, muitas vezes, na Europa. Dessa forma, também ficam à mercê do risco de entrar na areia apenas uma vez e não alcançar o retorno esportivo. O alto custo impede, por exemplo, que duplas jovens do país se arrisquem na empreitada.

Nas redes sociais, o ex-jogador Nalbert, que é um dos nomes mais icônicos da modalidade no Brasil, fez um desabafo no mesmo sentido de Alison. “Vôlei de praia sem medalhas na Olimpíada pela primeira vez. O resultado ruim do vôlei de praia não é por acaso. Quem nos acompanha sabe que já estávamos avisando isto há tempos. Há de se ter humildade e rever todo o processo. Estamos ficando para trás…”, escreveu, em sua conta no Twitter, cobrando mais investimento para o esporte.

Evolução de novos rivais na modalidade

 (crédito: Martin Bernetti/AFP)
crédito: Martin Bernetti/AFP

Ao longo da história olímpica do vôlei de praia, iniciada em Atlanta-1996, dois países dispararam como os maiores medalhista. O Brasil ocupa o topo da lista, com 13 pódios, seguido dos Estados Unidos, com 11. Porém, nos Jogos de Tóquio-2020, os primeiros lugares foram dominados por nações com menor tradição na modalidade. No masculino, a Noruega ganhou o ouro; o Comitê Olímpico Russo, a prata e o Catar, o bronze. As conquistas foram as primeiras desses países. No feminino, as americanas ficaram no topo do pódio, seguidas de duplas da Austrália e da Suíça.

Nos dois naipes, a Letônia ficou em quarto. Nos masculino, o país foi algoz de duas duplas brasileiras: Alison/Álvaro, nas quartas, e Bruno Schmidt/Evandro, nas oitavas. “Estamos parados no tempo. Brasil e EUA não dominam mais”, alertou Mamute. Banhada pelo Mar Báltico, a nação do norte europeu está começando a construir um legado no esporte. O berço da modalidade por lá é Jurmala, localizada a cerca de 30km da capital Riga. Em julho, a cidade investiu 11,25 milhões de euros e iniciou a construção de um novo ginásio, parte do complexo da escola primária Aspazija, para a prática de esportes, incluindo o vôlei de praia. No país, a febre pelo esporte começou com o bronze conquistado em Londres-2012.

A Noruega também trabalhou para se firmar no cenário internacional e conquistar a primeira medalha em Tóquio-2020. O ápice veio, principalmente, no desempenho de Anders Mol e Christian Sorum. Antes de ganhar o ouro olímpico, eles conquistaram três dos quatro títulos de maior prestígio da temporada, em 2019. A dupla também deu o primeiro título europeu do país. “A mídia estava exagerando muito. Isso foi muito importante para o voleibol norueguês. Alguns anos atrás, tínhamos apenas o objetivo de talvez nos classificar para as Olimpíadas”, ressaltou Mol.

Banco centraliza investimento

No Brasil, o principal foco de investimento no vôlei de praia e de quadra está centralizado no Banco do Brasil. A instituição tem uma parceria de 30 anos com a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV). A entidade é responsável por dividir os valores entre as duas vertentes da modalidade. O apoio abrange patrocínio aos times masculino e feminino da Seleção Brasileira. Competições profissionais e de categorias de base também estão inclusas no acordo. Segundo a instituição, os oito atletas que representaram o país nos Jogos de Tóquio recebem patrocínio individual.

Ainda conforme o banco, entre 2017 e 2020 — período do ciclo olímpico para Tóquio —, houve um aumento de 20% no valor do contrato com a CBV. O patrocínio atual vigora até julho de 2025. Com isso, o investimento também abrangerá a preparação para a próxima edição dos Jogos Olímpicos, marcada para acontecer em Paris, em 2024. A instituição, porém, não detalhou o valor total aplicado no esporte no período.

“Por meio dessa parceria, conquistamos 23 medalhas olímpicas e centenas de títulos internacionais na quadra e na praia, em todas as categorias”, explicou o Banco do Brasil ao Correio, em nota. “Com o vôlei, geramos proximidade com públicos de interesse e conexão dos clientes com a marca. Isso porque acreditamos em resultados — e eles só são alcançados com investimentos de longo prazo. Esse apoio revelou para o mundo o talento e a técnica dos atletas brasileiros, e isso se transformou em um case de sucesso, sendo a parceria mais duradoura do esporte brasileiro, além da mais vitoriosa”, prosseguiu.


Medalhas

1996- Jaqueline/Sandra (ouro) e Mônica/Adriana (prata)
2000- Adriana/Shelda (prata), Zé Marco/Ricardo (prata) e Sandra/Adriana (bronze)
2004- Ricardo/Emanuel (ouro) e Adriana/Shelda (prata)
2008- Fabio/Márcio (prata) e Ricardo/Emanuel (bronze)
2012- Alison/Emanuel (prata) e Juliana/Larissa (bronze)
2016- Bruno/Alison (ouro) e Ágatha/Bárbara (prata)

Título na areia de Moscou

A seleção brasileira de futebol de areia conquistou a Copa Intercontinental Feminina. O último jogo aconteceu ontem, contra a Rússia, mas o time já havia sido campeão um dia antes, após uma combinação de resultados. O jogo protocolar de domingo acabou com vitória das russas por 4x1, mas não tirou a alegria das brasileiras, que levantaram a taça e deram a volta olímpica na arena de Moscou.

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