Fuga sobre trilhos

Passageiro do comboio que tirou jogadores brasileiros do Shakhtar Donetsk e do Dínamo da sitiada Kiev, Marcelo Müller, sobrinho de um morador do Distrito Federal, conta ao Correio como foram os últimos dias de angústia no bunker de um hotel

Marcos Paulo Lima
postado em 27/02/2022 00:01
 (crédito: Reprodução/Rede Sociais)
(crédito: Reprodução/Rede Sociais)

Em uma Ucrânia em paz, fazer check-in no Opera Hotel, em Kiev, recomendaria pedido imediato de senha wi-fi para ostentação nas redes sociais. Localizado no coração da cidade, no cruzamento dos distritos comerciais, culturais e históricos, a uma curta distância a pé dos cartões postais da capital do país do Leste Europeu, como o Opera House e as catedrais de Santa Sofia e de São Volodymyr, o endereço fica em uma zona tranquila para passeios e compras. Mas é tempo de guerra.

Ontem, a Khmelnytskogo Street, cenário de chegadas e partidas de hóspedes, virou rota de fuga para jogadores, familiares e estafe de 14 atletas brasileiros do Shakhtar Donetsk e do Dínamo de Kiev. Enclausurados desde a última quinta-feira no auditório Sinfonia — um salão do hotel que funcionava como bunker em meio à invasão russa —, eles bateram em retirada. Carros particulares identificados com a bandeira do Brasil, em uma ação coordenada pelo Palácio do Itamaraty, partiram em comboio rumo a uma estação de trem. De lá, iniciaram viagem para a Romênia.

Um dos passageiros da fuga sobre trilhos é o agente de jogadores de futebol Marcelo Müller, sobrinho de Carlos Müller, tio residente em Brasília. "Eu estava na Ucrânia desde a noite do dia 22. "Acompanho o Vinicius Tobias (ex-lateral do Inter negociado com o Shakhtar Donetsk). Até o dia 24, estava tudo tranquilo, sem carros militares e nada na rua", conta Marcelo por telefone ao Correio.

O cenário mudou radicalmente. Tropas russas invadiram Kiev. O medo virou pânico. "Caminhávamos até a esquina do hotel e víamos ruas vazias. Quando passavam carros, eram em alta velocidade", testemunha. Com o avanço da ação bélica da legião de Vladimir Putin, os brasileiros enclausurados no Opera Hotel começaram a ficar sem mantimentos e artigos de primeira necessidade.

Os ataques estrondosos e os cenários de destruição estavam cada vez mais perto. "Ouvíamos. Tudo acontecia num raio de 1,5km a 5km de onde estávamos", relata Marcelo Müller.

Impasse

A evacuação do hotel começou a ser negociada pela embaixada do Brasil, em Kiev. "Queriam que a gente caminhasse 2km com crianças e idosos para chegar numa estação sem saber se conseguiríamos pegar o trem", conta o agente. Houve resistência, principalmente, porque o governo de Portugal enviou carros para a retirada dos lusitanos de Kiev. Um deles, o técnico Paulo Fonseca. Pressionados, os jogadores decidiram partir em carros particulares depois da certeza de que dois trens esperavam pelos brasileiros inscritos, com passagem gratuita.

Marcelo Müller partiu com o cliente Vinicius Tobias, Ingrid Tobias, companheira do jogador, os demais integrantes do estafe da cria do Inter, e outros 13 atletas do Shakhtar e do Dínamo no comboio rumo a Chernivtsi, no Oeste da Ucrânia. De lá, pegariam outro trem para a Romênia.

Ontem, jogadores do Dnipro, como Bill, deixaram o país e estão retornando ao Brasil via Romênia. Mas há outros dramas. O lateral Juninho Reis, a mulher e um filho pequeno caminhavam na região de Lviv em busca de escape.

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