"É um crime que compensa"

Consultor de integridade do COB e da FPF critica passividade do Brasil no combate à manipulação de resultados. Ele explica ao Correio por que as máfias se proliferam e já contaminam até modalidades olímpicas e digitais

Marcos Paulo Lima
postado em 18/05/2022 00:01
 (crédito:  Arquivo Pessoal)
(crédito: Arquivo Pessoal)

O futebol brasileiro vive uma explosão no número de casos de manipulação de resultados. O número saltou de seis, em 2016, para 88 em 2021. Nove deles no Candangate — o escândalo denunciado pelo Correio no ano passado no Campeonato do Distrito Federal. O país é o epicentro das fraudes no esporte mais popular do mundo, mas outras modalidades estão contaminadas. É o que conta ao Correio Paulo Schmitt, consultor de Integridade do Comitê Olimpico do Brasil (COB) na prevenção e combate à manipulação de competições e Presidente do Comitê de Integridade da Federação Paulista de Futebol (FPF). Schmitt critica a passividade dos clubes e federação ao governo, o comportamento suspeito alimentado por atletas e alerta que as casas de apostas são as maiores interessadas em extirpar aos maus apostadores. "Elas pagam mais se o jogo não for limpo". Em março, o problema foi tema da palestra dele no Congresso Olímpico Brasileiro realizado em Salvador.

O futebol brasileiro teve 88 jogos manipulados em 2021. O país é, hoje, o epicentro?

As informações do relatório da SportRadar, empresa que faz análise global sobre manipulação de resultados no mundo e atua no Brasil, dá conta exatamente desse número. E os dados de 2022 não são tão promissores assim. Estão indo numa mesma linha de explosão de casos. É muito preocupante.

Como combater na raiz?

Essa é a nossa árdua missão não somente no COB, mas nas organizações de futebol. O processo educacional. A gente tem que conseguir chegar no atleta no início de carreira e levar essa informação para quando ele tiver contato com esse tema, sentir um movimento estranho, possa ajudar a denunciar para autoridades. Do contrário, o processo é o inverso. O monitoramento vai indicar o jogo já manipulado. A gente precisa chegar antes.

Os esportes olímpicos são alvo?

A gente percebe que o alvo não é somente o futebol. Como o futebol está se protegendo cada vez mais, e tendo mais investimento em integridade, existe uma migração natural para outras modalidades. A gente verificou que 15 esportes têm sido alvo de manipulação também.

Perdeu-se o controle?

Hoje, tudo é objeto de aposta. Tudo que é objeto de aposta acaba sendo fruto da criminalidade para obtenção de lucro. Basquete, vôlei, tênis, tênis de mesa, esportes eletrônicos, enfim, várias modalidades.

A falta de regulamentação deixa esse mercado frouxo?

A regulamentação vai chegar um pouco tarde. As pessoas apostam fora do Brasil. Como o jogo é on-line, você aposta em uma operadora que está oferecendo lá na Ásia. De 600 casas, 400 estão na Ásia, por exemplo.

Em que pé está a legislação?

Há uma regulamentação em curso. Passou na Câmara dos Deputados e foi para o Senado. No governo (Michel) Temer também tinha passado uma lei que ainda não foi regulamentada. Todas essas normas de cassino, jogo do bicho, jogos on-line, isso tudo vai ter algum tipo de regulação no Brasil, agora ou para frente, mas vai acontecer.

Discute-se liberação. E integridade?

É preciso proteger o esporte. Eu não vi em nenhuma das leis aprovadas até agora a parte de obrigações ligadas a integridade. Tenho batalhado para incluir isso, por emenda ou o que for. É preciso, realmente, ter esse outro lado, não somente regular o jogo, mas a proteção que o jogo vai gerar ao esporte. Do contrário, nós teremos cada vez mais jogos manipulados no Brasil. Você ficará na legalidade, mas com a criminalidade reinando solta sem a proteção da integridade.

Quais são as formas de punição?

Esses casos são levados a tribunais desportivos e a autoridades policiais e judiciárias. Uma não exclui a outra. Ocorrem investigações e punições paralelas. Na parte criminal, as penas previstas são de dois a seis anos de detenção e reclusão para quem estiver envolvido. Na esportiva, há punições desde multas até banimento e eliminação. Mas é um processo investigativo.

Enquanto a manipulação aumenta em vários estados, São Paulo está na contramão.

Em São Paulo, a gente conseguiu conter a partir de determinados casos identificados e clubes punidos. O nosso patamar, que era alto em 2015, 2016, quando a gente começou com o programa que a Federação Paulista de Futebol, ou seja, inaugurou esse processo, caiu para sete casos. É preciso identificar, controlar e punir.

Como funcionou o processo na Federação Paulista de Futebol?

A FPF tem um programa sólido de integridade. Iniciou em 2015/2016 e o presidente Reinaldo (Carneiro Bastos) deu carta branca para a implementação. O tema é prioritário. Criamos um Comitê de Integridade multidisciplinar. As partidas são monitoradas, a legislação interna é bastante rígida para tolerância zero às manipulações, fraude e violência. Há um canal de denúncias e os casos são amplamente investigados tendo protocolos eficazes de controle, fiscalização, punição, mas, sobretudo, educação. As atividades educacionais são rotineiras. A temática é objeto de uma cartilha específica e abordada em todos os comitês técnicos, pré-temporada dos árbitros e reuniões periódicas.

As máfias atuam de maneira nômade. Pulam de estado em estado onde o controle é
frágil. Essa também é a percepção de vocês?

Daí a importância de entidades como COB e a própria CBF. Elas têm capilaridade para baixo. Do contrário, os trabalhos vão acontecendo individualmente. É o que falei. O cara sai de São Paulo e vai para o Nordeste, Sudeste… Eles vão onde há menos chance de visibilidade.

Por que parece quase impossível extirpar as máfias?

É um crime que compensa. Quando você compara esse crime de manipulação de resultados, que movimenta muito, mas muito dinheiro, mesmo, com o de tráfico de drogas, que também movimenta muito dinheiro, o tráfico de drogas tem risco de morte. Esse crime (de manipulação de resultados) não tem. O risco é menor. Estão investindo muito em lavagem de dinheiro nesse tipo de crime.

As apostas eram voltadas para o futebol masculino, mas o feminino também virou alvo de apostas?

Tem casos identificados no futebol feminino, sim.

O assédio aos atletas, principalmente os que recebem salários baixos, é outro problema?

Há um outro risco, que é o atleta fazendo propaganda do jogo de aposta. Isso é realmente muito preocupante. Todas as normas proíbem os atletas de apostar. O artigo 55 do Regulamento Geral de Competições da CBF proíbe apostas. Não somente estão apostando como estão fazendo propaganda da casa de apostas. Não que a aposta seja ilegal, não é. Inclusive, a casa de apostas é uma importante patrocinadora de muitas modalidades por aí. Elas têm interesse de que o jogo seja limpo. As casas de apostas pagam mais se o jogo não for limpo. Os atletas precisam se conscientizar disso também.

Dos 20 clubes da Série A, 18 exibem alguma casa de aposta no uniforme. Até que ponto isso é um risco à integridade da competição?

O cenário normativo de não regulamentação das apostas no Brasil é sempre um risco. Não se trata da casa de aposta como patrocinadora especificamente, mas de apostas ilegais, suspeitas ou irregulares. Esse tipo de patrocínio tem que ser avaliado com ressalvas e muito bem regulado.

Qual deveria ser o papel dos atletas?

Um dos fatores de risco que todas as autoridades do Brasil e do exterior nesse assunto falam é que o atleta não pode apostar. Quando ele aposta, geralmente faz no seu próprio esporte e estimula o seu entorno a apostar. Isso gera desconfiança. Pode não estar acontecendo nada, mas gera uma desconfiança.

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