Futebol local

Denúncia de balaio de gato põe Taguatinga sob suspeita no Candangão Sub-20

Legião e Grêmio Valparaíso acusam inconsistências em documentações do meia-atacante Douglas Matheus no torneio de juniores do DF. Documentos obtidos pelo Correio apontam que ele estaria disputando o torneio com idade acima do estipulado no regulamento

Victor Parrini*
postado em 24/06/2022 20:39
Camisa 10 do Taguatinga, o meia-atacante Douglas Matheus está no centro da polêmica no Candangão Sub-20 -  (crédito: Divulgação)
Camisa 10 do Taguatinga, o meia-atacante Douglas Matheus está no centro da polêmica no Candangão Sub-20 - (crédito: Divulgação)

Os gatos do futebol parecem continuar soltos pelos gramados de Brasília. Enquanto a bola rola neste fim de semana pela última rodada da primeira fase do Campeonato Candango sub-20 — torneio que garante vaga à Copa São Paulo de Futebol Júnior — o Tribunal de Justiça Desportiva do Distrito Federal (TJD-DF) recebe relatos de uma possível falsificação na documentação do jogador Douglas Matheus Silva Santos, do Taguatinga. O Correio Braziliense teve acesso aos documentos do atleta e à Notícia de Infração feita pelas diretorias de Legião e Grêmio Valparaíso (Greval) perante à corte esportiva.

O regulamento do torneio de base local, organizado pela Federação de Futebol do Distrito Federal (FFDF), prevê que somente atletas nascidos a partir de 2002 têm condições de jogo, limitando-se, de fato, à categoria sub-20. No entanto, as diretorias de Legião e Greval identificaram uma possível inconsistência na documentação de Douglas Matheus Silva Santos. Ele disputou cinco partidas da competição pelo Taguatinga.

Douglas Matheus foi regularizado no Boletim Informativo Diário (BID) da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e inscrito para o Candangão Sub-20 como nascido em 17 de janeiro de 2002 e registrado no cartório da Vila Cascatinha, no 2º Distrito do município de Petrópolis, no Rio de Janeiro. No entanto, as diretorias de Legião e Greval foram informadas de que o jogador teria nascido em ano anterior ao indicado, com idade superior aos 20 anos. Portanto, atua de forma irregular na competição de base local.

Diante de uma possível fraude ideológica, os dois clubes reclamantes obtiveram cópia dos documentos de Douglas Matheus no sistema Gestão Web da CBF e acionaram o Cartório do 2º Distrito de Petrópolis. Na conversa obtida pelo Correio, a própria serventia alerta para a autenticidade dos documentos. Em resposta documental, garantem não terem expedido a certidão de nascimento do atleta do Taguatinga.

A partir da comunicação feita pelo Cartório do 2º Distrito de Petrópolis, Legião e Greval concluíram que Douglas Matheus, de fato, não foi registrado da serventia indicada no documento, além de que as demais informações da certidão de nascimento e da carteira de identidade dele são falsas.

“O Legião e o Greval conferiram a documentação de todos os atletas que possuem documentos no sistema. Isso é um trabalho de rotina que os clubes fazem. Assim, verificaram que há uma divergência na documentação desse atleta do Taguatinga”, relata ao Correio o advogado Wendel Lopes.

A denúncia dos clubes é sustentada no artigo 234 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, que proíbe a prática de alteração de documentos. “Falsificar, no todo ou em parte, documento público ou particular, omitir declaração que nele deveria constar, inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que deveria ser escrita, para o fim de usá-lo perante a Justiça Desportiva ou entidade desportiva”, diz trecho do regulamento. A pena pelo descumprimento pode resultar em suspensão de 180 a 720 dias, multa de R$ 100 a R$ 100.000, além de eliminação em caso de reincidência.

Para Lopes, o próprio sistema da CBF dá margem para fraudes documentais. "O sistema da CBF (Gestão Web) aparenta ter uma falha. Assim, é possível inserir os documentos e depois excluir do sistema. Atualmente, o campeonato conta com 33 jogadores sem qualquer documentação que comprove a idade”, explica o advogado.

Nas quatro linhas...

Douglas Matheus tem sido peça importante para a campanha de vice-liderança do Taguatinga no Candangão Sub-20 até o momento. Ele disputou cinco das sete partidas da Águia e marcou quatro gols. A última rodada da primeira fase começa com ele na quarta posição na artilharia. Com Douglas em campo, a equipe conquistou 16 dos 18 pontos. O bom desempenho, porém, fica ofuscado pelas supostas falsificações nos documentos.

Diante desse cenário, Legião e Greval solicitaram 28 de pontos do Taguatinga. A punição derrubaria a equipe da vice-liderança do Grupo B para a lanterna da chave. Os dois reclamantes pedem celeridade para o oferecimento da denúncia, a aplicação da pena e a possibilidade de exclusão do concorrente infrator no torneio. Para as diretorias de Legião e Greval, as provas anexadas à notícia enviada ao TJD-DF são suficientes e demonstram de forma cabal a infração praticada pelo jogador e pelo Taguatinga.

Uma fonte ouvida pelo Correio aponta as vantagens. Segundo ele, na categoria sub-20, há uma diferença de maturação muscular muito grande entre um atleta de primeiro ano, nascido em 2004, e um de último ano, registrado em 2002. Douglas teria 23. A impressão é de que, além do jogador em questão, outros do elenco do Taguatinga sejam gatos e o clube, reincidente. Em 2021, o time escapou porque o regulamento previa que esse tipo de denúncia deveria ser feito em, no máximo, 48 horas. O limite foi retirado nesta temporada.

Gato velho

Essa não é a primeira vez que o Taguatinga é citado no TJD-DF por supostos “gatos”. Após as semifinais do Candangão Sub-20 de 2021, o mesmo Legião identificou uma possível irregularidade na documentação do jogador Tomaz Alves Reis, que também teria alterado os dados para competir abaixo de sua idade e desrespeitando o regulamento do torneio.

À época, somente jogadores nascidos até 2001 poderiam participar. Segundo o Legião, Tomaz Alvez Reis teria nascido em 1998 e adulterado a data de nascimento dele na certidão para 14 de janeiro de 2002. Porém, a Procuradoria do TJD-DF não enxergou irregularidades e decidiu arquivar o caso na semana seguinte.

O Correio tentou contato com o presidente do Taguatinga, Edmilson Marçal. Ele recebeu, mas não respondeu as mensagens até a publicação dessa matéria. O espaço segue aberto para a manifestação do dirigente.

Embora a Notícia de Infração tenha sido enviada ao TJD-DF, o diretor de Competições da Federação de Futebol do Distrito Federal, Márcio Coutinho, disse não estar sabendo do caso de possível falsificação ideológica do jogador do Taguatinga.

*Estagiário sob a supervisão de Marcos Paulo Lima

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