RACISMO

Como a rede de apoio a Vinicius Junior favorece a indústria do futebol

Engajamento de entidades e marcas vai além da repulsa ao preconceito sofrido pelo ativista. Craque virou peça-chave até para candidatura conjunta de Espanha, Portugal e Marrocos a sede da Copa de 2030

Marcos Paulo Lima
postado em 26/05/2023 06:00
 (crédito: Valdo Virgo/CB/DA PRESS)
(crédito: Valdo Virgo/CB/DA PRESS)

A rede de apoio a Vinicius Junior depois dos atos racistas contra o atacante de 22 anos, no último domingo, no Estádio Mestalla, na derrota do Real Madrid para o Valencia por 1 x 0 pela antepenúltima rodada do Campeonato Espanhol, tem doses de amor e solidariedade sinceros, mas também coloca em campo um jogo de interesses midiáticos e financeiros vinculado à imagem do brasileiro.

Daí a pressa nos posicionamentos de entidades como a Fifa, CBF, Federação Espanhola, LaLiga; e de marcas globais como a Nike e a Puma — rivais na disputa por negócios com o craque —, no posicionamento favorável ao ativista. O engajamento nas redes sociais aumentou a pressão sobre a Espanha. O país é parceiro de Portugal e Marrocos na candidatura a anfitriã da edição centenária da Copa do Mundo, em 2030. Aos poucos, a postura de figurões da nação ibérica mudou diante do risco de perdas e danos.

CBF

A entidade foi uma das primeiras a se posicionar. A Seleção Brasileira vive uma troca de guarda no protagonismo. Vinicius Junior saiu maior da Copa de 2022. Ameaça o protagonismo de Neymar. O camisa 10 reina soberano como referência desde a estreia no time principal, em 10 agosto de 2010. Lá se vão quase 13 anos. Em ascensão, o protagonista do Real Madrid na temporada 2022/2023 caminha para trocar o papel de coadjuvante pelo de ator principal no ciclo rumo ao Mundial de 2026, no Canadá, EUA e México. Até a Casa Branca se manifestou favorável a Vini. O porta-voz do Departamento de Estado, Matthew Miller, classificou as cenas como "terríveis".

As provas de que a Seleção começa a orbitar em torno de Vinicius Junior foram dadas pela CBF. Uma delas, a consulta ao jogador sobre uma campanha contra o racismo, em parceria com a Espanha, no amistoso contra Guiné, em 17 de junho, no Camp Nou, em Barcelona. O atacante acenou positivamente. A negociação para a partida era anterior ao episódio. A ideia do ato contra o racismo surgiu depois.

Nos bastidores, o presidente da CBF Ednaldo Rodrigues teria aproveitado o pulso firme do técnico Carlo Ancelotti em defesa de Vini para elogiá-lo por telefone. O italiano é o preferido do dirigente para assumir a Seleção. Ednaldo Rodrigues intensificou a campanha contra o racismo no Brasileirão (leia página 20).

Real Madrid

O Real Madrid tem um sonho de consumo: Mbappé. Enquanto não consegue tirar o francês do PSG, o clube merengue trata Vinicius Junior como diamante. Nas redes sociais, o jogador ameaçou, em último caso, deixar o Espanhol se os atos racistas persistirem. O contra-ataque imediato do clube é a lembrança de que a multa rescisória custa R$ 5,3 bilhões. Na sequência, a midiática aparição do presidente Florentino Pérez com Vini na sala da diretoria prometendo defendê-lo até o fim viralizou. A mobilização dos jogadores na partida contra o Rayo Vallecano incrementaram a ação.

LaLiga

A paz de Vinicius Junior interessa. O torneio deixou de ser o mais badalado desde o fim da rivalidade entre Cristiano Ronaldo e Lionel Messi dentro de campo; e de Pep Guardiola e José Mourinho fora dele. A Premier League virou padrão de excelência. Nem mesmo três eleitos melhores do mundo no Espanhol — Lewandowski, Benzema e Modric — é capaz de rivalizar com o poder do Campeonato Inglês. O recuo do presidente Javier Tebas depois de medir forças com Vinicius Junior no Twitter também tem a ver com negócios. "Queremos defender o Vinicius. Gosto do Vinicius", disse ao portal GE.

Prêmios

Fifa The Best e a Bola de Ouro da revista France Football devem ter Vinicius Junior cada vez mais presente na lista dos indicados — e até finalistas. Com as saídas gradativas de cena de Cristiano Ronaldo, Messi, Modric, Lewandwowki e Benzema, Vinicius Junior passa a dividir protagonismo com astros como Erling Haaland e Kylian Mbappé.

Marcas

A imagem de Vini interessa a fornecedores de material esportivo. O jogador entrou em litígio com a Nike antes da Copa. Estava insatisfeito com o tratamento recebido pela empresa estadunidense da qual era parceiro desde os 13 anos. O contrato iria até 2028. Em fevereiro, enfrentou o Valencia usando calçado todo preto. Ele tem sondagens, mas ainda não assinou com nova grife.

Uma das interessadas é a alemã Puma. Patrocinadora de LaLiga, a grife apoiou o brasileiro. "Não toleramos o racismo, condenamos a discriminação de qualquer forma e nos solidarizamos com Vinicius Junior", disse a marca, consultada pela agência inglesa Reuters. Disposta a ter o garoto-propaganda de volta após a conclusão da temporada, a Nike teria se reaproximado do estafe do atacante e aproveitou para tuitar: "Nós estamos com Vini Jr.". Uma frase em uma imagem reforçava a solidariedade: "Pare de olhar para o outro lado".

Candidatura à Copa

Os ataques a Vinicius Junior obrigaram a Espanha a dar uma guinada no combate ao racismo para não se queimar com Portugal e Marrocos. O trio é candidato a receber a Copa do Mundo de 2030. Os atos raciais viralizaram. Pressionaram o comitê da candidatura, a Federação Espanhola e LaLiga. Perder o evento pode significar bilhões jogados fora. Daí a guinada da Espanha na cruzada contra o racismo do dia para a noite depois do firme recado do presidente da Fifa aos 211 países associados.

GIANNI INFANTINO

"Total solidariedade a Vinicius. Não há lugar para o racismo no futebol ou na sociedade e a Fifa apoia todos os jogadores que se encontram em tal situação. Claramente, é mais fácil falar do que fazer, mas precisamos fazer e precisamos dar apoio a isso com base na educação", convocou o presidente Gianni Infantino depois de lembrar as medidas a serem tomadas em uma partida com denúncia de racismo.

"Primeiro, você para o jogo e o anuncia. Em segundo lugar, os jogadores saem de campo e o alto-falante anuncia que, se os ataques continuarem, o jogo será suspenso. O jogo recomeça e, em terceiro lugar, se os ataques continuarem, a partida vai parar e os três pontos vão para o adversário. Estas são as regras que devem ser implementadas em todos os países e em todas as ligas", reforçou o dirigente.

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