Futebol

Sem presidente, sem técnico, sem rumo: os bastidores da luta pelo poder na CBF

Um ano depois da eliminação contra a Croácia na Copa do Mundo, entidade brasileira está sob intervenção, comandante da única esquadra pentacampeã é interino, e o time sofre nas Eliminatórias

Com a destituição temporária de Ednaldo Rodrigues, o presidente do STJD assumirá a caneta da CBF, provisoriamente, nesta segunda-feira -  (crédito: Thiago Ribeiro/CBF)
Com a destituição temporária de Ednaldo Rodrigues, o presidente do STJD assumirá a caneta da CBF, provisoriamente, nesta segunda-feira - (crédito: Thiago Ribeiro/CBF)
postado em 10/12/2023 06:00 / atualizado em 10/12/2023 19:13

Trezentos e sessenta e seis dias se passaram desde o empate no tempo regulamentar, na prorrogação e a derrota nos pênaltis por 4 x 2 para a Croácia, em 9 de dezembro de 2022, no Estádio Cidade da Educação, em Al-Rayyan, nas quartas de final da Copa do Mundo do Catar. Um ano depois, o projeto da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para a retomada do sonho do hexa lembra a letra da canção infantil A Casa, de Vinicius de Moraes. "Era uma casa, muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada (..)". Sem chão, sem parede, sem presidente, sem técnico e sem rumo "caminha" a inerte Seleção Brasileira rumo ao Canadá, México e Estados Unidos, em 2026.

A crise institucional é complexa. Deposto pelos desembargadores da 21ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro na quinta-feira por causa de supostas irregularidades nas eleições de 2022 da CBF, o presidente Ednaldo Rodrigues será substituído, nesta semana, durante 30 dias por um interventor. Ele será responsável por convocar um novo pleito. A missão foi delegada ao presidente do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), o brasiliense José Perdiz, de 60 anos. Cabe recurso.

O trono da entidade máxima do futebol brasileiro arrisca ter o sexto ocupante em 11 anos. José Maria Marin, Marco Polo Del Nero, Coronel Nunes, Rogério Caboclo e Ednaldo Rodrigues participaram da dança das cadeiras a partir da queda de Ricardo Teixeira.

O poderoso chefão renunciou em 12 de março de 2012. Acumulou 23 anos na presidência. Tomou posse em 1989. Assumiu no governo de José Sarney, passou pelas gestões de Fernando Collor de Melo, Itamar Franco, dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, outros dois de Luiz Inácio Lula da Silva e dois anos de Dilma Rousseff. A saída de Teixeira deu início ao maior período de instabilidade política da CBF. Um senta-levanta sem precedentes em uma cadeira amaldiçoada. O órgão se diz vítima de golpe articulado por Ricardo Teixeira e Marco Polo Del Nero em uma interminável batalha pelo poder.

Para entendê-la, precisamos voltar a 2018. Naquele ano, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) moveu uma ação contra a CBF. Entendia que o estatuto da entidade descumpria a Lei Pelé, cujo texto previa peso igualitário no colégio eleitoral entre as 27 federações, os 20 clubes da Série A e os 20 da B. Del Nero havia mudado. Atribuiu peso três às entidades estaduais (base de sustentação), dois aos times da primeira e um para os da segunda divisão. Enquanto a ação contrária a isso corria, Rogério Caboclo caiu sob acusação de assédio moral e sexual contra uma funcionária. Em 5 de outubro, o ex-dirigente foi inocentado pelo STJ.

Vice mais velho à época do escândalo, Ednaldo Rodrigues assumiu a CBF interinamente. Agiu rapidamente e negociou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o MPRJ. O pleito anterior, de Caboclo, tornou-se inválido. Ednaldo convocou outra eleição, concorreu e triunfou nas urnas por aclamação. Os vices Gustavo Feijó e Castellar Neto sentiram-se prejudicados. Perderam o mandato com Caboclo e acionaram a Justiça questionando o TAC. Para eles, Ednaldo fazia parte do pacote de vices, deveria ter saído e não tinha legitimidade para se candidatar e muito menos assumir em definitivo. Alegaram, ainda, que o juízo de 1º grau não tinha competência para homologar o acordo. O interino resistiu, herdou a caneta de Caboclo e a ação de Feijó e Castellar parecia adormecida.

O Correio apurou bastidores da reviravolta. Quando supostamente tramou a queda de Caboclo, Del Nero não tinha Ednaldo como plano A. Os ungidos eram os vices Feijó e Castellar. Descontentes, ambos se tornaram aliados de primeira hora de Del Nero e Teixeira. Empoderado, Ednaldo começou a fazer uma faxina do que havia sobrado das gestões anteriores. As mudanças, principalmente de ordem financeira e jurídica, como contratos assinados em administrações anteriores com benefícios a ex-presidentes, passaram a incomodar os coronéis da bola. Uma fonte conta à reportagem que o controverso sistema de governo dos antecessores vivia de alguns desses acordos. Del Nero havia perdido o controle remoto da CBF.

Paralelamente, Ednaldo descumpria acordos em cargos estratégicos favoráveis a personagens vinculados a Teixeira. Andrés Sanchez, por exemplo, era especulado como diretor de seleções, mas não foi nomeado. Coincidentemente, na véspera da deposição, o ex-presidente do Corinthians e ex-coordenador de seleções de Teixeira na CBF, Andrés Sanches, e Ronaldo Fenômeno, se encontraram com Ednaldo no camarote da CBF, no Mineirão, antes do empate entre Palmeiras e Cruzeiro pela última rodada do Brasileirão.

Ednaldo também se isolou dos vices, centralizou o poder, expôs fragilidades e alimentou raposas velhas. Agiu com insegurança, indecisão e desrespeito à camisa verde-amarela na escolha do técnico da Seleção. Um ano depois do fim da Era Tite, o país não sabe quem comandará o Brasil na Copa de 2026. O ciclo iniciou com dois interinos. Ramón Menezes em três amistosos; e Fernando Diniz nos seis jogos das Eliminatórias. Em tese, o treinador compartilhado com o Fluminense comandará o Brasil, em março, contra Espanha e Inglaterra na Europa. Ednaldo jura que o italiano Carlo Ancelotti assumirá na Copa América. O Real Madrid acena com possibilidade de renovação. A treta na CBF enfraquece qualquer garantia.

Vulnerável diante da série de três derrotas consecutivas no fim do ano para Uruguai, Colômbia e Argentina; e de apenas três vitórias contra Guiné, Bolívia e Peru em nove jogos no ano, Ednaldo viu as flechas dos caciques voltarem-se contra ele. A Ação adormecida despertou. Ricardo Teixeira vazou áudios cobrando a saída do atual presidente. Banido do futebol. Del Nero fez manifestações públicas sobre a gestão. Houve invasão de dados nas redes da entidade. Documentos sigilosos teriam sido acessados, adulterados e distribuídos em profusão na forma de dossiês à imprensa em forma de denúncias. O Correio apurou que uma empresa foi contratada para massificar o serviço.

A arquitetura da destruição inclui Brasília. Fontes relatam ao Correio lobby pesado pela abertura de CPI do Futebol no Congresso Nacional turbinada rebeldes vinculados a figurões da Casa. Ednaldo foi convidado a depor na CPI das Apostas e das Pirâmides Financeiras e se esquivou. Falaria dos preparativos do Brasil para a Copa do Mundo Feminina na Comissão de Esporte da Câmara dos Deputados e recuou. O senador Romário (PL-RJ) acusou Teixeira e Del Nero de tramarem golpe. Acuado, Ednaldo recuou a escritórios de advocacia famosos vinculados a um ministros do STF.

O caos envergonha. A CBF teve quatro presidentes nos seis anos e meio da Era Tite na Seleção Brasileira. O interino Fernando Diniz caminha para o segundo patrão em sete meses. À deriva, não enviou presidente nem técnico a Miami no sorteio da Copa América. Os representantes no evento foram o vice Francisco Noveletto e o cartola da Federação do Amapá, Roberto Góes.

 

  • Sexto colocado na seletiva continental atrás da Venezuela, o Brasil só derrotou Guiné, Peru e Bolívia em nove partidas disputadas neste ano
    Sexto colocado na seletiva continental atrás da Venezuela, o Brasil só derrotou Guiné, Peru e Bolívia em nove partidas disputadas neste ano Foto: Thiago Ribeiro/CBF
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