Por Bernardo Caporalli*
No extremo norte da Noruega e acima do círculo polar ártico, o Bodø/Glimt transforma o clima extremo da cidade-sede em uma “emboscada” para os gigantes europeus da Champions League.
O clima de Bodø é subártico com forte influência marítima. Isso significa invernos longos, frios e ventosos, e verões curtos, frescos e relativamente úmidos. No inverno, que se estende aproximadamente de novembro a abril, Bodø apresenta temperaturas que variam em geral entre -4°C e 0°C, com fevereiro sendo o mês mais frio. A estação é marcada por ventos intensos, especialmente entre outubro e março, devido à exposição da cidade ao Mar da Noruega.
Diferença entre o clima de Bodø para o da Europa Continental
A meteorologista Andrea Ramos, com formação acadêmica pela UFPA, USP e UNB, acredita que a principal diferença reside na baixa amplitude térmica anual combinada com alta umidade e vento. “No restante da Europa continental, os clubes estão acostumados a invernos secos ou estáveis. Mesmo em cidades frias como Munique ou Varsóvia, o frio é seco. Em Bodø, o frio é marítimo e úmido, o que torna a sensação térmica muito mais penetrante", disse.
Para a especialista, o frio não é o único fator de vantagem do Bodø/Glimt. Ela também cita outros fatores essenciais para o “fator casa” da equipe norueguesa. Um deles é a presença de vento costeiro. “A maioria dos grandes estádios europeus é protegida ou localizada em áreas menos expostas. O Aspmyra Stadion é um laboratório de vento constante”, explicou.
Além disso, o Fenômeno do Fotoperíodo é extremo e imprevisível na região. O fenômeno corresponde à duração diária da exposição à luz solar que as plantas recebem, crucial para regular seu crescimento e floração“Os clubes europeus jogam em horários padronizados com ciclos de luz previsíveis.
A experiência de Bodø, com suas auroras boreais no inverno e luz solar perpétua no verão, cria uma ‘desorientação geográfica’ nos rivais.”, “Jogar sob o Sol da Meia-Noite ou na penumbra da Noite Polar afeta o ritmo circadiano”, completou a meteorologista.
Outra importante vantagem em casa do Bodø/Glimt é o campo sintético. Andrea justifica que a necessidade de jogar em um gramado sintético se dá por conta da neve abundante e os ciclos de degelo/congelamento, que exigem que a grama seja sintética e com aquecimento interno. “A velocidade da bola e o 'pique' no sintético molhado são muito superiores ao gramado natural, favorecendo o jogo de transição rápida do Bodø/Glimt e desgastando fisicamente os adversários não habituados.”
Estratégia
O Bodø/Glimt avançou para as oitavas de final da Champions League mesmo após perder por 2 a 1 para a Internazionale, em Milão. A classificação veio graças à vitória de 3 a 1 no jogo de ida, em Bodø, no dia 18 de fevereiro. Na ocasião, a região enfrentava um dos períodos mais frios e instáveis, com temperaturas entre -3°C e -1°C, e sensação térmica de até -10°C.
Na fase seguinte da Champions League, nas oitavas de final, o Bodø/Glimt venceu o Sporting, de Portugal, por 3 a 0. A partida foi realizada em 11 de março, no período que costuma acumular o maior volume de neve (até 228mm) em Bodø.
No jogo da volta, precisando de uma vitória por quatro gols ou mais para avançar, o Sporting conseguiu a virada e derrotou os noruegueses por 5 a 0, em Portugal.
Os exemplos recentes contra Internazionale e Sporting mostram que a vantagem do Bodø/Glimt em casa não é absoluta, mas tem forte influência no desempenho das equipes visitantes. A equipe norueguesa, apesar de eliminada, fez história e mostrou que é capaz de surpreender até os adversários mais competentes e tradicionais da Europa.
*Estagiário sob supervisão de Paulo Leite
