Danilo transforma entrevista coletiva em sessão de terapia

Lateral abre o jogo sobre maturidade, identidade da Seleção, escolhas de Ancelotti e o papel de Endrick, reforçando por que foi o primeiro nome confirmado pelo treinador para a Copa

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Victor Parrini — Enviado especial
17/06/2026 17:24 - Atualizado em 17/06/2026 18:07
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Danilo, lateral da Seleção Brasileira de futebol -  (crédito: CBF/Divulgação)
Danilo, lateral da Seleção Brasileira de futebol - (crédito: CBF/Divulgação)

Nova Jersey (EUA) — Em tempos de jogadores mais ariscos diante dos microfones do que dos adversários em campo, Danilo deu uma aula de entrevista e justificou por que foi o primeiro dos 26 convocados confirmados por Carlo Ancelotti para a caça ao hexa, antes mesmo da lista oficial. Escolhido para falar na antevéspera da partida contra o Haiti, na sexta-feira (19/6), às 21h30, na Filadélfia, o lateral transformou a coletiva de 35 minutos em uma espécie de sessão de terapia. Com a lucidez de quem funciona como extensão do treinador dentro do gramado, expôs virtudes, fragilidades e desafios de uma Seleção que tenta reconstruir identidade após conviver com quatro técnicos em três anos e meio.

Danilo não vende ilusões ao calejado torcedor brasileiro. Não se escora nas cinco estrelas bordadas no escudo nem acredita que o caminho até o hexa será pavimentado por goleadas. Na visão do defensor, a Seleção ainda está distante do estágio alcançado por potências como Argentina, França e Espanha. O momento exige entendimento das próprias características, adaptação às circunstâncias dos jogos e menos apego a ideias pré-concebidas. Para ele, a tentativa de atuar com linhas altas na estreia contra Marrocos expôs uma equipe que ainda busca equilíbrio.

A Seleção completou ontem 21 dias de concentração rumo ao hexa, desde a apresentação na Granja Comary antes da viagem aos Estados Unidos. Trata-se do maior período de convivência de Carlo Ancelotti com o grupo desde que assumiu o projeto da Copa do Mundo, em 2025. Tempo suficiente para iniciar uma espécie de detox tático. Acostumados a diferentes filosofias, sistemas de marcação e modelos de jogo nos clubes, os atletas tentam assimilar uma identidade comum sob o comando do italiano.

“São três semanas de trabalho. Isso faz com que a gente abandone as convicções dos nossos clubes e entre na filosofia que queremos na Seleção. Cada um trabalha de uma forma no seu clube, pressiona de um jeito, marca do outro. Quando junta tudo isso, não é muito fácil chegar a um produto final que tenha coerência”, explicou Danilo.

A escalação de Carlo Ancelotti para a estreia contra Marrocos também entrou na pauta. As presenças de Igor Thiago e Ibañez entre os titulares surpreenderam, porque contrariaram boa parte dos ensaios realizados pelo treinador durante as semanas anteriores. As definições foram comunicadas ao grupo poucas horas antes de a bola rolar, mas Danilo tratou de relativizar a repercussão.

“Todo time tem um núcleo duro, de seis a oito jogadores que atuam sempre, e outros que entram na rotação de acordo com a estratégia. A estratégia muda conforme o adversário. O que aconteceu no último jogo (Marrocos) ganhou uma importância exagerada, o que é natural. Hoje temos um time 80% definido para sexta-feira, mas ainda há três ou quatro posições em aberto, seja por questão tática ou até por uma preferência do treinador. Algumas escolhas simplesmente pertencem ao técnico”, explicou.

Para sustentar o argumento, Danilo recorreu aos tempos de Manchester City. Segundo ele, a forma como cada jogador lida com a informação da escalação varia de acordo com a personalidade. “Se o treinador me disser que vou jogar hoje, amanhã ou uma hora antes da partida, minha preparação será a mesma. Posso falar isso por todos? Não. Alguns precisam saber antes. O Guardiola já me avisou que eu seria zagueiro 10 minutos antes de um jogo começar. Cada atleta interpreta essas situações de maneira diferente”, contou.

Danilo também tentou reduzir a temperatura do debate em torno de Endrick. O atacante de 19 anos não saiu do banco de reservas na estreia, mesmo após marcar o gol da vitória sobre o Egito no último amistoso antes da Copa do Mundo. Para o lateral, parte da repercussão foi alimentada por interpretações distintas de declarações dadas anteriormente por Casemiro sobre o papel do jovem dentro do grupo.

“Esse é outro tema que acabamos fantasiando demais. Cabe a nós nos comunicarmos da melhor maneira possível. O Endrick é uma joia rara do futebol brasileiro, um jogador de potência, decisão e estrela. Queremos que ele esteja perto da gente e tenha cada vez mais protagonismo. Tudo o que acontece hoje não é para mim, para o Casemiro ou para o Neymar. Talvez seja a nossa última Copa, mas a Seleção vai continuar com essa geração. O que pudermos fazer para que ele se sinta importante, faremos. No último jogo, ele não entrou por decisão do Mister”, ponderou.

Outros tópicos com Danilo

Ser líder ou vice do grupo é indiferente?

“Diferença faz, porque quando você está em uma fase com três adversários, você quer ganhar deles e ser o melhor. Esse é o nosso objetivo. Tem questões de logística, viagens curtas. Essa é uma opinião minha, mas acho que é do grupo inteiro. Se tiver que passar em grupo, mas ter um final feliz, que seja. Melhor a conexão entre a gente, evoluir. E aí, os adversários e logística ficam em segundo plano.”

O status da Seleção

“As outras seleções melhoraram muito. A maneira de formar jogadores e formar equipes evoluiu de uma maneira que todos ficaram iguais, seja em seleções ou clubes. A diferença entre ganhar, empatar e perder é curta. O Brasil sempre estará na primeira fileira. É muita gente com qualidade nascendo todos os dias. Temos muita gente boa. O Brasil não mudou de patamar. Isso não foi construído por mim; tem uma galera atrás que precisa ser respeitada. Temos que honrar isso. Temos que ter espírito de sacrifício para colocar mais uma estrela no peito.”

Ainda consegue jogar como lateral?

“Desde o tempo de Manchester City, sempre digo que, se você precisar de um lateral que faça o corredor e dê profundidade de todo o tempo, eu não serviria. Mas, se precisar de um jogador que vá entender os momentos e encurtar as distâncias, eu sirvo e bastante. Mas não pela idade e meu hipotético momento físico, que tiraram não sei de onde. Sempre fui esse jogador. Eu me arrisquei no ataque uma vez ou outra, como nos velhos tempos.”

A importância de Neymar em campo

“Falo muitas vezes com Guillermo Varela, meu companheiro no Flamengo, e falamos dos adversários que enfrentamos. Chegamos à conclusão de que, se tem um jogador como Neymar atuando na sua ponta, há muito mais atenção e se pede sempre ajuda. Isso é Neymar. Se ele está em campo, alguém da nossa equipe está sozinho. Só de ele estar em campo, pode desequilibrar tudo do adversário.”