Lembranças de 1994

Atacante brasiliense sonha com protagonismo na Copa

Trinta e dois anos após Ronaldo acompanhar o tetra do banco de reservas nos Estados Unidos, Endrick busca evitar roteiro semelhante

Nova Jersey — Ronaldo tinha 17 anos quando foi convocado por Carlos Alberto Parreira para a Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, antes de se transformar no Fenômeno. Não entrou em campo sequer uma vez durante a campanha de cinco vitórias e dois empates. Há relatos de que o jovem encantava nos treinamentos e colocava os titulares em dificuldades, mas havia um dilema: para aproveitá-lo, o treinador precisaria abrir mão do equilíbrio e escalá-lo ao lado de Bebeto e Romário. Parreira acreditava que o tetra não viria com aquele esquema. Outros reservas foram utilizados, como Muller, Viola e Paulo Sérgio. Trinta e dois anos depois, no mesmo país e sob a missão de encerrar outro jejum de 24 anos sem título mundial, o Brasil volta a discutir se vale a pena esperar, desta vez, Endrick.

Dois anos mais velho do que Ronaldo em 1994, o atacante nascido em Taguatinga e criado em Valparaíso de Goiás passou os 90 minutos mais acréscimos da estreia contra Marrocos no banco de reservas. O conterrâneo Igor Thiago não correspondeu como titular e aumentou a pressão popular pela entrada do prodígio.

Endrick oferece diferentes possibilidades ao ataque brasileiro. É mais imprevisível, ataca os espaços nas costas das defesas e obriga os zagueiros a correrem para trás, alargando o campo. Também se destaca pela agressividade sem a bola e pela potência nas finalizações. Assim como Ronaldo nos treinamentos da Copa de 1994, tem chamado atenção no dia a dia da Seleção. Golaços são frequentes, assim como a intensidade física demonstrada nas atividades.

“É uma joia rara do futebol brasileiro. É um jogador de potência, de poder de decisão, estrela. Queremos tê-lo perto. Ontem, ele deu um chute no Nannetti (goleiro da base do Flamengo que auxilia os treinos da Seleção) e quase tirou o moleque do treino. É tudo que queremos. Queremos que ele tenha o maior protagonismo”, destacou Danilo na entrevista coletiva de quarta-feira.

A estreia em Copas do Mundo pode vir, hoje, contra o Haiti, embora a tendência seja de utilização apenas no segundo tempo. Carlo Ancelotti deve retomar o sistema 4-4-2, ou a variação para o 4-2-4, com Matheus Cunha ocupando a função de referência ofensiva. Nos treinamentos da semana, porém, o treinador italiano testou Endrick justamente como alternativa a Matheus Cunha. Não por acaso. Em uma Copa do Mundo que tem premiado equipes mais eficientes nas transições do que na posse de bola, atacantes com perfil vertical voltam a ganhar valor.

É falsa a ideia de que Ancelotti não aprecia o futebol do jovem. O primeiro técnico do atacante brasiliense na Europa, no Real Madrid, tem demonstrado carinho e cautela no processo de desenvolvimento do boleiro. A comissão técnica enxerga enorme potencial de crescimento e trabalha aspectos específicos do jogo, como a concentração durante as partidas e uma participação mais ativa na construção das jogadas, sem limitar o atacante apenas ao papel de finalizador. Acima de tudo, há o cuidado para que o talento de 19 anos não seja lançado em campo sempre com a obrigação de resolver os problemas da equipe.

“Eu pensava que Endrick era mais um jogador de área, um camisa 9. Mas agora ele está jogando aberto e muito bem aberto. É um jogador jovem, com muita qualidade. Faz parte do futuro da Seleção Brasileira. Ele, Rayan, Estêvão... são jogadores que vão ser protagonistas da Seleção no futuro”, exaltou Ancelotti.

O Distrito Federal volta a ter representantes em uma Copa do Mundo pela primeira vez desde Lúcio e Kaká, na África do Sul, em 2010. Falta o gol. A última vez que um jogador nascido em Brasília balançou as redes em Mundiais foi há 20 anos, quando Kaká marcou na vitória por 1 x 0 sobre a Croácia, na estreia do Brasil na Copa da Alemanha, no Estádio Olímpico de Berlim. Endrick pode encerrar a espera nesta sexta-feira (19/6).

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