FUTURO DA SELEÇÃO
Além do talento: Rayan e Endrick se destacam por papéis táticos
Dupla sub-20 da Seleção ganha elogios e pontos com Ancelotti pelo comprometimento sem a bola
FUTURO DA SELEÇÃO
Dupla sub-20 da Seleção ganha elogios e pontos com Ancelotti pelo comprometimento sem a bola

Nova Jersey — Carlo Ancelotti decidiu antecipar o futuro da Seleção Brasileira. Tem confiado minutos preciosos a Rayan e Endrick, os dois jogadores sub-20 entre os 26 convocados para a Copa do Mundo. É uma ousadia rara. Desde 1966, quando Vicente Feola apostou no então garoto Tostão no Mundial da Inglaterra, o Brasil não depositava tanta confiança em atacantes tão jovens. Nem mesmo Dunga, em 2010, teve coragem de levar Neymar e Paulo Henrique Ganso, protagonistas do Santos. A confiança, porém, veio acompanhada de uma exigência. Antes dos gols, Rayan e Endrick precisaram aprender a colocar o talento a serviço da equipe.
O caso de Rayan é o mais emblemático. No Vasco e, agora, no Bournemouth, o atacante construiu a reputação pela velocidade, pelos dribles e pela capacidade de acelerar transições. Na Seleção, porém, Ancelotti encontrou outra utilidade para o jovem justamente quando perdeu Raphinha por lesão. Revelado em São Januário, Rayan virou um ponta solidário. Mais do que atacar, passou a proteger o corredor direito e oferecer cobertura constante a Danilo. Contra o Japão, foi justamente essa característica que apareceu no lance decisivo da classificação. Depois da pressão exercida por Endrick, roubou a bola no campo de ataque e iniciou a jogada concluída por Gabriel Martinelli nos acréscimos.
A estreia como titular, diante da Escócia, explica por que segue prestigiado. Foram cinco desarmes, número inferior apenas aos de Casemiro (6) e Gabriel Magalhães (8). O desempenho materializa uma das principais ideias de Carlo Ancelotti. Para o italiano, talento, sozinho, não sustenta uma candidatura ao título mundial.
"O talento marca a diferença, porque nunca vi equipe que não tem talento ganhar. Temos que construir uma estrutura de jogo na qual o talento esteja a serviço da equipe. Quero jogadores que queiram ganhar a Copa do Mundo. Essa também é a diferença entre um grande jogador e um líder. O líder coloca o talento a serviço da equipe", resumiu o treinador. Rayan entendeu rapidamente o recado.
Endrick percorreu caminho semelhante. Conhecido pela capacidade de decidir jogos com gols, descobriu que, na Seleção, um atacante também pode ser determinante sem balançar as redes. Contra o Japão, foi dele a pressão sobre a saída de bola que forçou o erro adversário e permitiu a recuperação de Rayan. Na sequência, Bruno Guimarães encontrou Gabriel Martinelli para marcar o gol da classificação. Uma jogada que não aparece na ficha técnica do camisa 19, mas sintetiza exatamente o tipo de protagonismo valorizado por Carlo Ancelotti.
A lesão de Lucas Paquetá abre caminho para um novo capítulo. Endrick desponta como um dos principais candidatos à vaga no domingo e pode ganhar a primeira oportunidade como titular em um mata-mata de Copa. Ancelotti deixou claro que enxerga no atacante características diferentes das do meia. "Precisamos colocar mais força na área. Endrick oferece essa presença. Fez um jogo muito bom porque foi intenso e perigoso", justificou após a classificação sobre o Japão.
Caso opte pelo jovem, o desenho tático retorna ao 4-2-4 com quatro atacantes. Se optar pelo meio mais equilibrado, Danilo Santos deve herdar a vaga de Paquetá para fazer o 4-3-3. Ederson e Fabinho não estão descartados.