Eu, Estudante

Estudantes de Brasília participam, no Rio de Janeiro, da Jornada de Foguetes

Projeto faz parte da etapa nacional da Olimpíada Brasileira de Foguetes (Obafog); equipe brasiliense construiu o próprio foguete e a base de lançamento, utilizando garrafas PET, canos de PVC, fita adesiva e papelão

 

*Ana Bispo Calisto

Um foguete feito de garrafa PET pode parecer inofensivo, mas, lançado a 300 metros de distância, exige cuidado, conhecimento e responsabilidade. Por isso, os estudantes da Escola SEB Brasília precisam usar jaleco, sapatos fechados e seguir regras de segurança antes de colocar o protótipo no ar. Nesta semana, alunos do ensino médio estão em Barra do Piraí, no Rio de Janeiro, para participar da 91ª Jornada de Foguetes, etapa nacional da Olimpíada Brasileira de Foguetes (OBAFOG). 

A equipe conquistou a vaga depois de alcançar 300 metros na etapa local da competição, realizada em maio, quando também recebeu a medalha de prata. Para chegar ao resultado, os estudantes construíram o próprio foguete e a base de lançamento, utilizando materiais como garrafas PET, canos de PVC, fita adesiva e papelão. No nível disputado pelo grupo, o lançamento é impulsionado pela reação entre vinagre e bicarbonato de sódio.

Antes de colocar o protótipo em funcionamento, os estudantes precisaram pesquisar os princípios envolvidos no lançamento e realizar testes. A experiência permitiu que eles explorassem uma área da física que ainda não conheciam.  Para Valentina Nantra, 17 anos, a relação com a física já vinha mudando. No ensino fundamental, conta que não gostava da disciplina. A aproximação aconteceu durante uma prova de recuperação, quando resolveu um questionário de estudo dirigido e acertou todas as questões. “Gabaritei e pensei: sou boa nisso”, lembra. Hoje, a estudante pretende transformar o interesse em profissão. “Eu quero me formar em física”, diz.

 Competição com colaboração

A ida para a etapa nacional também ampliou a visão dos estudantes sobre as próprias possibilidades. Antes de chegar ao evento,  imaginavam  encontrar um ambiente marcado por tensão. A experiência, porém, apresentou uma dinâmica diferente. “Eu achava que era um ambiente mais competitivo, mas as pessoas são extremamente amáveis”, conta Ana Carolina Soares, 17 anos, que se surpreendeu com a disposição das equipes para compartilhar conhecimento. “Todo mundo explica, ajuda, eles dão dicas, falam coisas que deram errado”, relata. Estudantes encontraram equipes que trabalham há anos com foguetes e até grupos que contam com patrocínio dos próprios estados. Algumas utilizam plataformas específicas para realizar cálculos relacionados aos lançamentos. Em comparação, os alunos de Brasília perceberam que ainda trabalham com métodos mais simples. “E a gente utilizando métodos medievais”, brinca Valentina.

Estrutura e acesso à ciência

A participação na competição também colocou em evidência as diferenças de estrutura entre as equipes. Os estudantes contam que a maioria dos grupos presentes no evento vieram de colégios públicos e que algumas equipes recebem apoio dos governos estaduais.

No caso do SEB Brasília, o projeto foi desenvolvido com o apoio da escola, mas os estudantes também tiveram custos assumidos pelas próprias famílias. Segundo os alunos, os pais desembolsaram cerca de R$ 3 mil em um único mês para viabilizar a viagem e a participação no evento. “Nós somos gratos aos nossos pais que custearam tudo. A escola que deixou o professor fazer esse projeto e nos deu apoio, parece algo simples, mas aparentemente é uma exceção”, afirmam.

Para os estudantes, a experiência levanta uma discussão sobre o investimento em ciência e educação. Eles defendem que o Distrito Federal poderia ampliar o apoio a iniciativas desse tipo e apontam que existe potencial entre os alunos, mas que a falta de investimento pode limitar a participação em competições científicas.

Ciência feita em equipe

O projeto também aproximou os integrantes. Embora cada estudante tenha assumido responsabilidades durante o processo, eles contam que todos participaram de diferentes etapas da construção. “Todo mundo fez muito de tudo”, resume Valentina.

Para o grupo, a convivência durante os testes e a preparação para a competição fortaleceram a relação entre os colegas. O projeto, segundo eles, contribuiu para a integração da turma e criou uma rede de apoio entre os estudantes.

Além dos conhecimentos técnicos, os alunos apontam mudanças em aspectos como responsabilidade, pontualidade e controle emocional. 

Próximos lançamentos

Depois da experiência na etapa nacional, o grupo pensa nos próximos desafios. O professor de física Diego Veríssimo, que conduz os alunos, explica que a intenção é continuar aperfeiçoando os projetos e aumentar a presença da equipe em competições. “A meta é melhorar mais o alcance e se mostrar cada vez mais presente em nível nacional”, afirma.

Em Barra do Piraí, os estudantes participaram de lançamentos, oficinas de divulgação científica, atividades de astronomia, apresentações em planetário e palestras. Para eles, entretanto, a principal descoberta da viagem não está apenas nos cálculos ou na distância alcançada pelos foguetes. Ao conhecer equipes de diferentes regiões do país e compartilhar experiências com outros estudantes, Valentina resume o aprendizado que pretende levar de volta para Brasília: “Ciência tem que se fazer em conjunto.”


*Estagiária sob a supervisão de Ana Sá