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Internet gratuita para estudantes e professores apresenta instabilidade

Professores e alunos relatam problemas técnicos no acesso à internet gratuita liberada pela Secretaria de Educação nesta quarta-feira (16/9)

Vitória Silva*
postado em 17/09/2020 18:44 / atualizado em 17/09/2020 18:55
Com um dia no ar, internet gratuita liberada pela Secrataria de Educação sofre com instabilidades. Secretário afirma que é normal -  (crédito: Álvaro Henrique, Ascom/SEEDF/ Reprodução)
Com um dia no ar, internet gratuita liberada pela Secrataria de Educação sofre com instabilidades. Secretário afirma que é normal - (crédito: Álvaro Henrique, Ascom/SEEDF/ Reprodução)

Professores e alunos da rede pública de ensino relatam instabilidades no uso da internet gratuita liberada pela Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEEDF) na última quarta-feira (16/9). De acordo com os usuários, não é possível acessar a plataforma Google Sala de Aula com a conexão disponibilizada pela pasta com o aplicativo Escola em Casa DF. O secretário de Educação, Leandro Cruz, explicou que falhas são normais em sistemas novos.


O professor da disciplina de atividades na Escola Classe 431 de Samambaia, Antônio Firmino, foi um dos docentes que sofreram com a falta de estabilidade no sistema do governo. Antônio tem o celular cadastrado na operadora Claro e relata que não consegue abrir a página da plataforma. “Consta que você não tem acesso à internet para abrir o Google Sala de Aula”, detalha.

Antônio Cordeiro leciona na Escola Classe 431 de Samambia e afirma que não consegue ter acesso ao Google Sala de Aula
Antônio Cordeiro leciona na Escola Classe 431 de Samambia e afirma que não consegue ter acesso ao Google Sala de Aula (foto: Arquivo pessoal)

O secretário de Educação do Distrito Federal, Leandro Cruz, em entrevista ao Eu, Estudante, explicou que um dos motivos para a instabilidade é o sistema novo que ainda está passando por fase de adaptação, mas que é difícil explicar a real causa do problema. O secretário informou que posteriormente mais uma operadora será credenciada e que as falhas serão resolvidas. “É natural que no primeiro dia de qualquer sistema ocorram alguns erros.”, afirma. “É difícil falar o motivo da instabilidade porque tem que analisar caso a caso.”, pontua.


Material Impresso


E como ficam os que não têm equipamentos? A dona de casa Nayane Silva, 31 anos, tem dois filhos que estão no ensino fundamental: Rayane Silva, 12 anos, estuda no Centro de Ensino Fundamental 2 da Estrutural e Ramon Felipe da Silva, 8 anos, que estuda na Escola Classe 1 da Estrutural. A mãe relata que, embora eles tenham o cadastro no Escola em Casa DF, os estudantes ainda não têm o devido acesso à plataforma pois não há um tablet ou celular para atender os dois.

A mãe Nayane Silva, 31, tem dois filhos que cursam o ensino fundamental e conta que precisa buscar as atividades impressas, pois não tem dispositivo para acompanhar as aulas remotas
A mãe Nayane Silva, 31, tem dois filhos que cursam o ensino fundamental e conta que precisa buscar as atividades impressas, pois não tem dispositivo para acompanhar as aulas remotas (foto: Arquivo pessoal)

Sendo assim, eles estão recebendo o conteúdo impresso que a escola fornece. “É difícil porque eu tenho que ir à escola de cada um buscar e entregar os exercícios. Eu acredito que pela plataforma eles teriam chance de aprender bem mais, mas me faltam condições e eu não tenho como atender os dois.”, relata.


Para casos como esse, a Secretaria de Educação anunciou também que os responsáveis não precisarão mais ir até a escola buscar e entregar os exercícios. Em vez disso, as atividades serão entregues e recolhidas na casa de cada aluno.


De acordo com a pasta, as coordenações regionais de ensino foram autorizadas a utilizar recursos do Programa de Descentralização Financeira e Orçamentária (PDAF) para contratar empresas especializadas na prestação desse serviço. Caberá às regionais de ensino organizarem a logística junto às escolas, que serão as responsáveis pelo contato com as famílias.

 

Sindicato cobra igualdade


O Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro/DF) acredita que a medida aplicada pela pasta não irá sanar o problema de acesso e que ainda assim muitos alunos continuarão desconectados à plataforma. “O governo não pode comemorar como solução e vitória o credenciamento para fornecimento de internet por apenas duas operadoras, pois não atingirá nem a metade dos estudantes da rede pública de ensino do DF.

A promessa do governo, e é essa que deve ser cumprida, foi a de disponibilizar internet gratuita para todos os estudantes e professores da rede pública de ensino. Cadê a igualdade de condições para o acesso à escola que é um direito constitucional?”, questiona o diretor do sindicato, Samuel Fernandes.


A professora da Escola Classe 431 de Samambaia, Fabricia Cordeiro, leciona a disciplina Atividades para o primeiro ano do ensino fundamental e relata que muitos pais de alunos enfrentam instabilidade e falta de acesso pelo fato de habitarem em áreas rurais, onde o sinal das operadoras credenciadas não alcançam, e ainda afirma que essa não é uma medida inclusiva. “Não vai incluir todos os alunos, pois é um serviço que está disponível apenas para celular.”, diz. “Na região onde trabalho e os meus alunos moram não há cobertura de sinal pela Tim.”, completa.

A professora Fabrícia Cordeiro não tentou acesso a plataforma, mas relata que seus alunos sofrem com a conectividade
A professora Fabrícia Cordeiro não tentou acesso a plataforma, mas relata que seus alunos sofrem com a conectividade (foto: Arquivo pessoal)


O professor Antônio Firmino compartilha a mesma opinião que Fabrícia, e afirma: “Ainda assim a aula remota é excludente, pois nem todos os alunos possuem um aparelho. A maioria usa celulares que não servem para acessar a essas páginas de internet. Telefones antigos mesmo, que só recebem e fazem ligação.”


O diretor do sindicato relata ainda que nem a medida de entrega de atividade impressa é inclusiva o suficiente, e cobra do Governo do Distrito Federal investimento adequado para que todos os alunos recebam as atividades on-line. “O governo deveria investir na compra dos equipamentos eletrônicos para os 120 mil alunos que estão excluídos, e na disponibilização da internet gratuita para 100% da rede pública de ensino, e, assim, acabar de vez com a entrega do material impresso! Sem investimentos, não teremos avanços na educação!”, pontua.

Como ter acesso?

A internet gratuita custeada pelo governo está disponível, até o momento, apenas para as operadoras Claro e Tim. Os estudantes e professores têm acesso à plataforma Google Sala de Aula (onde as aulas remotas estão acontecendo) por meio de celular e tablet com o aplicativo Escola em Casa DF, que está disponível gratuitamente para download em aparelhos Android e iOS.

Quem não usa nenhuma das operadoras credenciadas e tem o Cartão Material Escolar, pode usufruir do crédito do programa e adquirir um chip em qualquer papelaria cadastrada.

Veja abaixo como acessar a plataforma:

  • Passo 1: até então, usuários devem ter um chip de uma das operadoras cadastradas (Tim ou Claro) para acessar a internet gratuita. Certifique-se com a operadora se o dispositivo está ativo, pois há cadastros que são automaticamente desativados por inatividade, como no caso de pré-pagos sem recarga frequente.
  • Passo 2: Com a rede móvel da operadora, acesse o aplicativo Escola em Casa DF. Cada aluno acessa a plataforma com um código enviado após cadastro. A Secretaria de Educação garante que a navegação não gerará custo aos usuários.

Falta de acesso

Um estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), revela que, no Brasil, cerca de seis milhões de estudantes, desde a pré-escola até a pós-graduação, não têm acesso à internet banda larga ou 3G/4G em casa e, consequentemente, não conseguem participar do ensino remoto. Desses, 5,8 milhões são alunos de instituições públicas de ensino.

Além disso, a pesquisa do Grupo de Estudos e Pesquisas Interdisciplinares em Currículo e Sociedade (GEICS) da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) mostra que mais da metade dos alunos do ensino superior (54%) nunca tiveram contato com as aulas remotas durante a quarentena.

*Estagiária sob supervisão de Ana Sá

  • A mãe Nayane Silva, 31, tem dois filhos que cursam o ensino fundamental e conta que precisa buscar as atividades impressas, pois não tem dispositivo para acompanhar as aulas remotas
    A mãe Nayane Silva, 31, tem dois filhos que cursam o ensino fundamental e conta que precisa buscar as atividades impressas, pois não tem dispositivo para acompanhar as aulas remotas Foto: Arquivo pessoal
  • Antônio Cordeiro leciona na Escola Classe 431 de Samambia e afirma que não consegue ter acesso ao Google Sala de Aula
    Antônio Cordeiro leciona na Escola Classe 431 de Samambia e afirma que não consegue ter acesso ao Google Sala de Aula Foto: Arquivo pessoal
  • A professora Fabrícia Cordeiro não tentou acesso a plataforma, mas relata que seus alunos sofrem com a conectividade
    A professora Fabrícia Cordeiro não tentou acesso a plataforma, mas relata que seus alunos sofrem com a conectividade Foto: Arquivo pessoal
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