Desafios

Alunos da 1ª turma do novo ensino médio superam barreiras da pandemia

Estudantes do técnico em eletrotécnica, formados em dezembro de 2020 pela rede Sesi/Senai, garantem vagas no mercado de trabalho e bom desempenho no Enem

Isabela Oliveira*
postado em 13/04/2021 00:01 / atualizado em 13/04/2021 08:24
 (crédito: Agência CNI/Divulgação)
(crédito: Agência CNI/Divulgação)

A primeira turma do novo ensino médio no Brasil conseguiu driblar as dificuldades da pandemia, alcançar boas notas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2020 e conquistar vagas no mercado de trabalho. O curso técnico em eletrotécnica integrado à grade curricular permitiu que os estudantes garantissem os próximos passos na carreira.


Ivo Cidrão, 18 anos, é um desses alunos. O jovem concluiu o ensino médio no Sesi Euzébio Mota de Alencar, em Fortaleza (CE), e foi contratado por uma distribuidora de ovos do Nordeste, na área de manutenção elétrica. Para ele, a contratação só foi possível devido à experiência no novo ensino médio.

Após a formatura, Ivo Cidrão conseguiu emprego em uma empresa na área elétrica
Após a formatura, Ivo Cidrão conseguiu emprego em uma empresa na área elétrica (foto: Agência CNI/Divulgação)

“O Sesi me tornou alguém apto para o mercado de trabalho. Assim que terminei o ensino médio, já consegui integrar no mercado e realmente trabalho na área elétrica que há três anos eu sonhava em ingressar”, compartilha o ex-bolsista.

Ivo deseja fazer faculdade de engenharia elétrica e, para isso, conta com o resultado obtido no Enem. As notas do jovem foram acima da média em todas as áreas do conhecimento, sendo 960 na redação. 

O jovem mora em Cascavel (CE) e teve que se deslocar todos os dias, percorrendo 62 km de distância para poder estudar na capital. “Depois desses três anos, eu consegui superar as dificuldades e sou um bom estudante”, comemora.


Primeira turma se formou em dezembro

Em dezembro de 2020, o Serviço Social da Indústria (Sesi), em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), formaram 198 estudantes da turma piloto. O curso de eletrotécnica foi definido por ser uma ocupação transversal, que atua em segmentos como manutenção, projeto e execução tanto elétrica quanto eletrônica.

Entre os alunos da primeira turma, que receberam bolsa para estudar no Sesi, 81,5% vieram de escolas públicas, 87% são da classe D e 13% são da classe C.

A rede de ensino ampliou o alcance do modelo e hoje são 23 estados (apenas RS, MG, SP e RJ ainda estão se adequando) com mais de 10,4 mil alunos. Além da eletrotécnica, existem outras 19 opções de cursos.

Para o diretor-superintendente do Sesi e diretor-geral do Senai, Rafael Lucchesi, a combinação entre as duas instituições permitiu uma atuação mais forte do novo ensino médio. Ele também destaca outros fatores para que o nível dos alunos fosse alto: o aprendizado por área de conhecimento e as aulas voltadas para resolução de problemas.

“O nosso ensino médio precisava de mudança e convergiu para o modelo mais difundido nos países desenvolvidos”, afirma. “Foi um avanço para a educação brasileira.”


Interdisciplinaridade foi fundamental durante a formação


Julia Guese, 18 anos, se formou no Centro Integrado Sesi Senai Civit, em Serra (ES), e pontua que muitos momentos do ensino médio foram desafiadores pela quantidade de trabalhos e o que era exigido pelos professores. Mas, segundo a estudante, a formação foi essencial para adquirir competências pessoais e profissionais.

“O mercado de trabalho exige que a gente seja organizado, atencioso e o novo ensino médio me proporcionou não só essas habilidades, mas muitas outras”, conta. “No final, tudo vale a pena, pelo seu crescimento e conhecimento próprio.”

Ainda no 3º ano, ela conseguiu fazer uns trabalhos na área de eletrotécnica para uma arquiteta e no Enem garantiu 900 pontos na redação. 


Novo ensino médio propõe ensino mais prático e autônomo


A reforma do ensino médio prevê uma série de mudanças, que começam com o aprendizado por área de conhecimento e não mais por disciplinas. Nos três anos, são até 1.800 horas dedicadas à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento normativo que garante as aprendizagens essenciais à formação para todos; e no mínimo 1.200 horas aos itinerários formativos, de escolha do aluno.

Tanto a BNCC quanto os itinerários são formados por quatro áreas do conhecimento: linguagens e suas tecnologias; matemática e suas tecnologias; ciências da natureza e suas tecnologias; e ciências humanas e sociais aplicadas – semelhante ao Enem.

Para o itinerário formativo, que o aluno escolhe para se aprofundar, há uma quinta opção: a Formação Técnica e Profissional (FTP). De acordo com a lei, as redes pública e particular têm até 2022 para começarem a implementar o novo ensino médio.


Curso técnico pode auxiliar na diminuição do desemprego

A inclusão da FTP no ensino médio como um dos itinerários formativos vem para reverter algumas estatísticas. Os jovens foram os mais atingidos pelo desemprego, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. Entre as pessoas de 18 a 24 anos de idade, a taxa de desocupação chegou a 29,8%, enquanto a média nacional foi de 13,9%.

Um levantamento de 2020 da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)
mostra que o Brasil tem apenas 11% dos alunos do ensino médio na educação profissional e tecnológica, enquanto a média de outros países pesquisados corresponde a 41%.

 
*Estagiária sob a supervisão da editora Ana Sá

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