Eu, Estudante

Ensino Remoto

Pesquisa analisou papel da tecnologia no ensino durante a pandemia

Resultante da parceria entre a Descomplica e o Instituto Locomotiva, o estudo escutou pais e mães de alunos do ensino fundamental e do ensino médio, que seguiram com os estudos durante a pandemia

Uma pesquisa intitulada Lições da Pandemia: Motivos para reduzir as distâncias da Educação buscou entender o papel da tecnologia no processo de ensino durante a pandemia. Trata-se de um estudo resultante da parceria entre a Descomplica e o Instituto Locomotiva com o objetivo de mapear, por meio da escuta de pais e mães, como alunos do ensino fundamental II e do ensino médio seguiram com os estudos em meio à situação trazida pela pandemia. Nesse sentido, foi realizado um levantamento das dificuldades enfrentadas nos percursos e legado deixado pela experimentação do ensino a distância nas famílias participantes.

O levantamento é o primeiro de uma série de pesquisas sobre educação e empregabilidade que a parceria pretende divulgar no próximo ano. “Muitas pesquisas exploraram o dramático cenário da evasão escolar. Por isso, preferimos contribuir com um novo ângulo da questão, que estava sendo pouco discutida: o que fez um aluno, diante de tantas adversidades, manter-se estudando?”, explica a diretora de conhecimento e insights da Descomplica, Roberta Campos.

Para ela, a pandemia foi um processo de alfabetização digital forçada de todo o sistema escolar, que mudou o papel da tecnologia no processo de ensino. Por isso, a pesquisa foi norteada pelo interesse em entender essa situação de maneira a oferecer novas chaves de leitura para o problema da evasão e, sobretudo, para o papel da tecnologia no cenário que temos pela frente. “Como sociedade, temos um passivo de aprendizado a recuperar, que acentua as distâncias sociais do Brasil”, afirma.

O professor de sociologia da Secretaria de Educação, lotado no Centro de Ensino Médio 01 de Sobradinho e mestre em sociologia da violência pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Eduardo Pereira, alerta para a importância de se diferenciar o ensino a distância (EaD) do ensino remoto. De acordo com o professor, o EaD é um ensino pedagogicamente pensado para atingir determinados objetivos. “Diante de uma população em vulnerabilidade, que trabalha durante o dia e cursa ensino EaD à noite, se faz avaliações, métodos e projetos, orquestradamente pensados para nutrir tais realidades”. É diferente do ensino remoto que foi implementado no DF, no caso excepcional da pandemia de coronavírus, que teve por fim tentar não atrasar muito os anos seriados. A proposta expandida para o ensino público inteiro com um modo remoto de atividades, traz várias consequências, problemas e deixa ainda mais perceptível as desigualdades sociais.

Novo formato de aulas

Sobre as mudanças no modo de dar aulas e o impacto que elas podem gerar na educação do país, Roberta diz que de forma geral foi uma experiência difícil para os estudantes, professores e escolas. De acordo com os resultados, sete em cada 10 famílias atribuem nota 6 ou mais para o ensino remoto que os filhos receberam durante a pandemia. Apenas 21% atribuem notas 9 e 10 para a experiência. Os pais de alunos do setor público fazem uma avaliação menos favorável da experiência do remoto, e os pais mais jovens, por outro lado, enxergam a experiência de forma mais positiva.

O professor de sociologia na rede pública do DF, Eduardo Pereira, conta que, desde a volta do ensino presencial, está trabalhando dobrado porque as plataformas continuam mantidas. Dessa maneira, ele acredita que as tecnologias chegam, sim, para auxiliar nesse desenvolvimento pedagógico, mas, que é preciso pensar qual é a função social da escola nesses espaços. “Essas novas ferramentas podem auxiliar num projeto de desenvolvimento pedagógico que tenha um objetivo. É preciso discutir isso e entender quais são essas metas, esses propósitos que nos permitem pensar que as novas tecnologias podem vir a auxiliar esse novo projeto”, afirma.

Eduardo acredita que esse formato que une plataformas digitais a aulas presenciais vem para ficar, mas deixa claro que ajuda bastante, principalmente, quando se há acesso, e quando ele é universal, como foi proposto em lei no Congresso Nacional. No entanto, é preciso resolver conflitos e problemas sociais mais imediatos antes de pensar como reestruturar a educação no país, em Brasília especificamente.

A professora de português e literatura em duas escolas da rede particular do DF Analu Vargas acredita que o ensino híbrido deve continuar. “Essa inserção também foi positiva porque tudo que a gente aprendeu acabou também validando a nossa formação profissional, trazendo mais possibilidades para as práticas na sala de aula”, conta. E reforça que, embora a dificuldade tenha sido tamanha, o formato de aulas vai permanecer porque não tem como regredir.

Para Analu, o ensino remoto criou muitas vantagens para a educação, entre elas a praticidade e a possibilidade de atender o período de aprendizado para além das horas da sala de aula. “Mas o contexto que é colocado para as escolas de ensino básico se tornou um obstáculo por vários motivos porque foi um desafio para nós educadores que não estávamos acostumados a usar tecnologia”, reconta. Eram muitas coisas para aprender num curto espaço de tempo para conseguir aplicar, a necessidade de pensar como aplicar, como avaliar as atividades da forma não presencial de acordo com a professora.

A pesquisa aponta ainda que a maioria enxerga um papel complementar e positivo para o ensino digital, não substituindo a escola presencial, mas potencializando e complementando seu trabalho. Do total, 72% dos pais acham que ensino a distância será utilizado em cursos extracurriculares. Embora avaliem que a melhor forma para o aprendizado ocorrer seja o ensino presencial, as famílias querem novas possibilidades como o ensino não exclusivamente presencial. “Há a percepção de que o modelo híbrido funciona e, uma vez que desafios sejam reduzidos, certamente será capaz de trazer respostas mais positivas” afirma Roberta.

Anderson Espindola, 21 anos, estudante do 3º ano do ensino médio no CED Darcy Ribeiro do Paranoá, diz que prefere o modo presencial. “É bem melhor porque tem um professor ali falando com você e você pode tirar dúvidas com ele. É legal aprender na internet, ajuda bastante. Mas aquele profissional tirando sua dúvida realmente é bem melhor”. Mas considera a recepção do aprendizado importante nesse processo. “Cada um tem sua forma de aprender melhor. Tenho colegas que preferem fazer as atividades na plataforma e outros que preferem presencial”, relata.

Luiza Leão, 15 anos, é estudante do Colégio Digital e logo em março de 2020 iniciou as aulas remotas. A jovem declara que assim que começou o ensino remoto demorou a se adaptar, mas que com o passar do tempo se tornou comum e dependendo do dia até mais prático e que vê com bons olhos a união dos formatos de aula. “Com as aulas gravadas estava bem melhor para o estudo e entendimento das aulas”, diz Luiza.

Esgotamento

A sobrecarga e o esgotamento são relatos comuns de quem viveu a experiência. Analu conta que percebeu alteração no sono diante de tanto contato com a tela, luz, além de prejuízo para a saúde mental. A professora sentiu também muita hostilidade no período de adaptação pelo fato de lecionar redação, que exigia a necessidade de uma proposta diferenciada quanto à produção textual. Diz ter sentido indiferença até mesmo da comunidade escolar.

O excesso de avaliações é destaque na fala da adolescente Luiza. “Aumentou. A demanda de deveres e provas passou a ser maior e em um ritmo mais acelerado”, relata. Ela ainda completa dizendo que sentia que o seu aproveitamento era melhor no presencial. Apesar disso, reconhece que houve um empenho e envolvimento muito grande por parte dos professores, motivando os alunos e tentando colocá-los mais integrados às atividades.

O professor Eduardo relata ter vivenciado um aumento de carga horária dedicada ao trabalho. No remoto, lecionava no turno vespertino, mas acabava utilizando as manhãs para preparar as aulas que iriam todos os dias para a plataforma. Além disso, frequentou muitas reuniões como coordenações coletivas e por área para decidir as maneiras de lidar com os problemas que estavam surgindo na recepção das aulas por parte dos alunos. Segundo ele, não podia ser só uma gravação, ou só uma aula por vídeo, porque nem todos tem capacidade de internet ou mesmo de suporte tecnológico como um celular.

“A gente trabalhou demais tanto no remoto, quanto na volta presencial. Trabalhamos com quatro modalidades de ensino, o presencial com a plataforma, o presencial com atividade impressa, só atividade impressa ou só o plataforma”, menciona Eduardo. É um trabalho intensivo do serviço de orientação pedagógica, do pessoal do apoio da escola, coordenadores e professores sempre tentando minimizar a perda pedagógica.

Acesso à tecnologia

Um estudo realizado pelo Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e Itaú Social revelou que 6 milhões de estudantes, desde a pré-escola à pós-graduação, se afastaram do ensino por falta de acesso à internet e, desse universo, 5,8 milhões são alunos de instituições públicas. De acordo com relatório do Banco Mundial, entre as famílias de classes D e E, 11% abandonaram os estudos, enquanto 7% da classe A e 8% da classe B evadiram.

A maioria dos participantes da pesquisa, Lições da Pandemia, declararam um uso amplo de outras soluções como whatsapp para se comunicar com colegas e professores, Google para pesquisas escolares e Youtube para aulas. E quanto mais as famílias eram de classes D e E, mais se ampliava o uso dessas ferramentas. “Mas, sabemos que os alunos de escolas públicas declararam ter mais dificuldade de acesso à internet e pior infraestrutura, dificultando o rendimento escolar”, alerta Roberta.

Como já era esperado, as classes C, D e E são mais afetadas por dificuldades infra-estruturais (internet, aparelhos, espaço adequado de estudo). Por outro lado, o estudo apontou que no que se refere às dificuldades de ordem emocional e relativas à motivação as mesmas são equivalentes em todas as classes. 72,3% das famílias de classes D e E declaram ter dificuldades de acesso a equipamentos e 82,5% das mesmas disseram ter dificuldades técnicas.

Assim como boa parte dos estudantes da educação básica no Brasil, Luiza nunca tinha tido contato com as plataformas utilizadas para as aulas remotas, Microsoft Teams e Google meet. Para estudar, a jovem utilizava principalmente o smartphone que, às vezes, precisava dividir com o irmão, que também está em idade escolar. “Durante as provas, precisava compartilhar para que ele conseguisse realizar atividades também”, diz.

Sobre o ensino público, o professor Eduardo conta que não houve aqui no DF apoio de estrutura tanto para o professor, no caso de computadores etc., quanto para os próprios alunos. Ele relata a existência de uma realidade no ensino em Brasília na qual boa parte desses alunos moram na área rural, não têm acesso à internet e quando têm, não é um pacote de dados que permite a visualização de vídeos, de videoaulas, a participação em meets ou em gravações nas plataformas. O sociólogo acredita que muitos avanços dessas tecnologias junto ao processo educacional podem auxiliar a gerar novas pedagogias ou novas formas de se dar aula e de se aprender. Mas é taxativo ao dizer que elas nunca podem ser isoladas ou individualmente pensadas, precisam estar dentro de um projeto de escola e de uma função social.

O estudante Anderson relata que enquanto as aulas eram somente à distância teve dificuldades. “Acho que tanto pra mim quanto para os outros, foi bem difícil aprender de fato utilizando só a plataforma”. Assim como Luiza, ele nunca tinha utilizado o Google Meet e o principal meio de estudos era o celular, mas mesmo assim estava desmotivado por não gostar de fazer atividade no celular. O rapaz acrescenta que há pouco tempo conseguiu adquirir um notebook e melhorou bastante o próprio desempenho.

Qualidade do ensino

De acordo com a pesquisa, algumas famílias chegam a reconhecer em seus filhos um certo ganho de competências com a experiência pedagógica digital. 51% das famílias concordam que o ensino à distância ajudou no desenvolvimento da autonomia do filho. Sobre a avaliação da qualidade do ensino, destaca-se alguns pontos. A percepção de qualidade foi mudando ao longo do tempo, com a curva de aprendizagem dos estudantes, escolas e professores. Os avanços também foram também percebidos sobre os professores e escolas desde o início das aulas à distância até agora, 47% acham que os professores melhoraram a forma de dar aulas e 51% nota que a escola parece mais empenhada no ensino virtual.

Além disso, 68% dos respondentes declaram que foi muito difícil no início, mas que foram se adaptando com o tempo. Foi observado alguns avanços entre os professores e escolas desde o início das aulas à distância até a realização da pesquisa. A experiência digital fez com que fossem notadas vantagens específicas no ensino remoto, especialmente para classes mais baixas, pois permite que se economize tanto dinheiro, quanto tempo com o transporte.

O professor Eduardo lamenta a evasão escolar: “Tivemos muitas dificuldades, teve muito aluno que abandonou a escola e que não conseguiu de fato e os que não abandonaram, estão tendo muitas dificuldades na realização das atividades”. E relata ainda que, os professores, estão tendo muitas dificuldades na formulação de materiais específicos que compreendam a diversidade de formas de aprender. Esse é o cenário remoto geral, de acordo com o professor, quando não é pensado com metodologias específicas, como no ensino a distância.

Ele também alerta para a perda de perspectiva da função social da escola nessa construção da identidade de quem é o aluno do ensino público de Brasília. Para Eduardo, sem essa perspectiva, aparecem vários problemas e consequências para lidar nos próximos anos. Tanto em formação de conhecimento, não só na questão acadêmica, mas também na formação cidadã, nas relações sociais.

Analu explica que os desafios foram muito variáveis, principalmente, em saber se o aprendizado do aluno foi efetivo, se houve assimilação do conteúdo e se as dúvidas foram sanadas. Houve dificuldade em manter conexão com os alunos porque ter aula em casa é uma distração, então comprometeu-se o aprendizado. Além disso, ela cita uma pressão vinda também das famílias que já estavam bastante descontentes com a situação desde o início e, de fato, desacreditavam do sistema de ensino remoto. “Eles estavam assistindo as aulas interferindo nas práticas porque na perspectiva deles os erros pesaram muito mais do que os acertos no processo de adaptação”, relembra.

Oficialmente, a professora de literatura e português não presenciou evasão escolar porque trabalha na rede particular, mas sentiu o abandono, em termos de negligenciar, pela desmotivação dos estudantes em relação ao sistema. “Eu avalio que o ensino ficou comprometido, embora houvesse um esforço absurdo das instituições, dos profissionais, mas todo o sistema não ajudava nesse sentido e os sintomas da questão da saúde emocional abala também a adaptação às aulas não presenciais”, pontua Analu.

No período remoto, a estudante Luiza menciona ter adquirido mais autonomia no que se refere aos estudos. “Automaticamente tive que criar mais responsabilidade porque caso não houvesse esse cuidado, eu não teria conseguido”. Dentre as dificuldades nas aulas remotas, a jovem cita o fato de não ver pessoalmente as explicações dos professores, o aumento da quantidade de deveres de casa e a falta que sentia da companhia dos colegas.

A pesquisa também aponta que familiares reconheceram que as soluções do ensino remoto ajudaram na aprendizagem do filho no período da pandemia. 91% gostaram de ter um canal de comunicação direto com os professores, via WhatsApp ou outras plataformas, 88% aprovaram o envio digital e correção de atividades, para que o aluno possa verificar seu desempenho. A praticidade de assistir às aulas gravadas a qualquer momento agradou a 86% dos respondentes.

Os resultados obtidos pela pesquisa serão disponibilizados gratuitamente pela Descomplica para atores institucionais que possam ter interesse no material, e, também, para a sociedade de forma geral. O estudo será base para o plano de comunicação da marca, que tem a evasão escolar como pior inimigo. A Descomplica pretende ainda abrir o acesso ao seu conteúdo para todos os estudantes no Brasil, neste ano que tem o menor número de inscritos no Enem desde 2005.

*Sob a supervisão da subeditora Ana Luisa Araujo