PRODÍGIO

Menina de 8 anos da Baixada Fluminense entra para sociedade de alto QI

Com uma das maiores pontuações do país, Nicolle de Paula, de 8 anos, entrou para a Mensa, mais famosa e antiga associação de pessoas com quociente de inteligência elevado

Diogo Albuquerque*
postado em 26/07/2022 15:09 / atualizado em 28/07/2022 14:16
Aos 8 anos, Nicolle é uma das pessoas com pontuação mais elevada do país -  (crédito: Arquivo pessoal)
Aos 8 anos, Nicolle é uma das pessoas com pontuação mais elevada do país - (crédito: Arquivo pessoal)

Com altas habilidades, a menina Nicolle de Paula Peixoto, de apenas 8 anos, entrou para Mensa, sociedade internacionalmente reconhecida que reúne pessoas de alto QI. Para ingressar na associação, Nicolle precisou fazer um teste, o WISC IV, que atestou pontuação 144, classificando-a como superdotada. A mãe, Jéssica Peixoto, 32, conta que Nicolle precisou passar por outras 12 avaliações. “É uma felicidade saber que a minha filha pode ajudar a construir uma sociedade ainda mais forte, missão que, ao mesmo tempo, desafiadora”, disse.

Jéssica conta que Nicolle tem um gênio forte, é muito independente e exige muito de si. “Ela se cobra demais, não aceita erros. Por isso, precisamos mostrar a ela que errar é normal”, conta a mãe. Nicolle diz que seu sonho é ser médica e que pensa muito no futuro, mas também gosta de brincar. “Gosto muito dos dois, mas estudar é o principal pra mim, porque vai me ajudar a ser uma boa médica no futuro”, afirma a menina. Ela conta que sempre ajuda os amigos que têm dificuldade e que sua matéria preferida é matemática. Influenciada pelo pai, Renato Peixoto, 43, ela toca flauta, teclado e pratica ginástica artística.

Muito curiosa e dedicada aos estudos, Nicolle está sempre empenhada em aprender algo novo. A mãe conta que dede pequena Nicolle se destacava entre os colegas na escola. Com 4 anos, sabia ler e fazer contas e aos 5 já estava alfabetizada. Apesar de fazer parte da Mensa, a estudante sofreu com uma série de problemas que dificultaram o desenvolvimento de suas altas habilidades. Os pais descobriram que a filha tinha o dom somente no ano passado, quando Nicolle estudava em uma escola do bairro. “Ela terminava as tarefas com muita rapidez e dizia sempre que queria ajudar os professores. Decidimos, então, colocá-la em um colégio mais avançado”, diz Jéssica.

Jéssica fez inscrição da filha para o concurso público do Colégio Federal Pedro II, que oferece ensino mais avançado. Após uma seleção de 150 candidatos entre 2.500 inscritos, foi contemplada. Com 7 anos, Nicolle estava cursando a 2º série do ensino fundamental mas, pelas regras do edital, precisou voltar para o 1º ano, o que a deixou bastante frustrada. “Ela não queria mais ir à escola e voltava chorando, pois já sabia todos os conteúdos”, conta Jéssica, que entrou em contato com a pró-reitoria da instituição, solicitando a mudança da série da filha, mas o pedido foi indeferido pela escola.

  • Nicolle ao lado da família Arquivo pessoal
  • Aos 8 anos, Nicolle é uma das pessoas com pontuação mais elevada do país Arquivo pessoal
  • Sempre curiosa, Nicolle conta que sonha em ser médica Arquivo pessoal

A mãe buscou, então, um teste de QI que atestasse a inteligência elevada de Nicolle para que ela pudesse retornar à série que já estava. “Apesar de a escola contar com estrutura para realizar o teste, precisei pagar tudo do meu bolso”, disse Jéssica. A avaliação apresentou resultado positivo para altas habilidades e superdotação, atingindo percentual de 99,8%. Para os pais, a aprovação da filha nesse teste representa a descoberta de novas perspectivas de mundo. Tanto que foi preciso recorrer a acompanhamento psicológico e psicopedagogo para lidar com o dom da filha.

Os pais de Nicolle relatam, ainda, que as escolas e instituições não possuem preparo para acolher, estimular e potencializar crianças com essas habilidades, além de existir poucos profissionais capacitados. “Ficamos com os pés e mãos atados. Esse mundo é ainda muito fechado e, sem apoio, esse potencial pode se perder”, diz Jéssica.

Os pais afirmam que apesar da condição financeira da família ser razoável, não conseguem arcar com um colégio de ponta para a filha. Moradores da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro há dez anos, a mãe de Nicolle é supervisora de vendas e o pai, policial militar reformado.

Falta de inclusão

Tio de Nicolle, o PhD em neurociências, mestre em psicologia e biólogo, Fabiano de Abreu acompa todo o processo de Nicolle. O especialista faz parte de outras três sociedades de alto QI, além da Mensa internacional, e trabalha com consultoria de pessoas com altas habilidades. Ele afirma que há lacunas a serem preenchidas na inclusão para superdotados na sociedade, assim como de cultura para lidar com essas pessoas no Brasil. “É preciso procurar o lugar certo, que tenha uma boa preparação e ofereça um auxílio para essas crianças”, diz. Abreu explica que a mente de pessoas com alto QI precisa sempre ser incentivada para que a aprendizagem não se torne desinteressante.

No caso de Nicolle, Abreu aconselhou a mãe a inscrever a filha na Mensa, após ter recomendado o teste de QI. Ele conta que fazer parte da Mensa é enriquecedor para crianças que possuem altas habilidades, além de ser um mérito para Nicolle, já que ela é uma das poucas meninas negras a fazer parte de uma sociedade majoritariamente composta por crianças brancas. “Fazer parte da Mensa não é uma questão de vaidade, como muitos pais pensam. Essa sociedade é importante, pois coloca a criança em contato com outras pessoas como ela, fomentando sempre o conhecimento”, defende.

Dr. Fabiano de Abreu: "Falta de inclusão para superdotados e de uma cultura para lidar com essas pessoas no Brasil"
Dr. Fabiano de Abreu: "Falta de inclusão para superdotados e de uma cultura para lidar com essas pessoas no Brasil" (foto: Arquivo pessoal)

O especialista destaca que existem sinais que os pais podem observar para reconhecer filhos superdotados. “O comportamento, a inteligência acima da média e a curiosidade aguçada são características comuns”, explica. Abreu tranquiliza os pais que se enquadram nesse processo. Observa que eles não precisam se preocupar, mas sim fazer testes para que não haja necessidade de arcar com custos em uma educação especializada. “Isso está longe de ser uma doença ou um transtorno. Fazer o teste de QI, além de garantir a certeza sobre as altas habilidades, é uma forma de economizar e de se formar antes do tempo”, diz. Por último, afirma que, num futuro próximo, os testes de QI serão realizados com amostra genética.

*Estagiário sob a supervisão de Jáder Rezende

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