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Maria Helena Guimarães: Educação é política mais importante para mudar o Brasil

Presidente da Associação Brasileira de Avaliação Educacional (Abave) reforça que crescimento da produtividade e da economia do país dependem diretamente de educação de qualidade

À frente do Conselho Nacional de Educação (CNE) durante os dois anos de pandemia, a socióloga e professora Maria Helena Guimarães de Castro acompanhou de perto os desafios da educação brasileira durante o período. Gestora experiente, presidiu o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) no governo Fernando Henrique e alerta para a importância de se promover mudanças nas avaliações do ensino no país, além de acelerar a entrega dos resultados para embasar a formatação das políticas públicas para a área. Nesta entrevista ao Correio, a atual presidente da Associação Brasileira de Avaliação Educacional (Abave) fala sobre os principais desafios da educação no país e reforça: "Enquanto os governantes não considerarem a educação tão importante quanto a economia, não vai dar certo, e a economia vai para trás". Confira os principais trechos a seguir.

A senhora assumiu o Conselho Nacional de Educação em plena pandemia. Que impacto a crise sanitária causou na educação brasileira nesses últimos dois anos?

O principal impacto foi o fechamento das escolas numa situação em que nenhuma, nem escola pública, nem escolas particulares, estavam preparadas para enfrentar um fechamento tão prolongado quanto foi aqui no Brasil e em vários outros países. Algumas tiveram melhores condições de fazer atividades remotas, outras tiveram mais dificuldade. Isso tanto vale para escola pública quanto para escola particular. Ambas tiveram dificuldades em se reorganizar e definir estratégias para chegar até o aluno. A volta às aulas também foi bem difícil, porque cada estado e município seguiu uma regra. As situações foram muito desiguais.

Quais foram as principais ações do CNE no acompanhamento desse processo?

O Conselho Nacional, durante todo esse período, em 2020 e em 2021, definiu normativos e regras que foram muito importantes para os conselhos de educação -- os estaduais, o distrital e os municipais -- para que os conselhos estabelecessem o reordenamento do calendário escolar, a definição de estratégias de acolhimento para os alunos no retorno às aulas presenciais, e a importância das avaliações diagnósticas no retorno à presencialidade, uma vez que nós já sabemos que os alunos aprenderam menos do que aprendiam presencialmente. E também os aprendizados foram muito desiguais, muito heterogêneos. Alguns alunos tiveram mais facilidade, outros menos, isso faz com que cada escola precise organizar uma avaliação diagnóstica do aluno, reorganizar pequenos grupos para recomposição das aprendizagens, com prioridade grande para os alunos que estão nos anos iniciais, porque são as crianças menores, dos anos iniciais, as que têm mais dificuldade em desenvolver, justamente na etapa da alfabetização, tanto em leitura, escrita, língua portuguesa matemática. Também orientou em relação ao currículo, à flexibilização curricular, ao contínuo curricular, e à importância de não reter os alunos, para que eles pudessem progredir sem ser punidos por um evento em que eles não tinham o que que fazer.

A pandemia trouxe à tona a discussão sobre o ensino híbrido, que é diferente de um ensino remoto emergencial, como ocorreu na pandemia. Como a senhora vê a evolução desse formato? É um movimento natural que foi acelerado pela pandemia?

Na minha visão, o uso das tecnologias, de plataformas digitais, inteligência artificial, o uso de dados pelos professores para melhorar o aprendizado dos alunos; o ensino e aprendizagem híbrida, tudo misturado, uma parte presencial, outra parte não presencial; o acesso a plataformas adaptativas pelos alunos, a laboratórios virtuais, realidade aumentada; tudo isso está se popularizando cada vez mais na educação em todo o mundo. Aqui no Brasil nós temos uma desigualdade do ponto de vista da infraestrutura das escolas muito grande, mesmo entre as escolas particulares. O hibridismo integra a noção que existe hoje de blended learning, aprendizagem híbrida ou ensino e aprendizagem híbridos, que é na verdade uma integração cada vez maior entre as pedagogias mais tradicionais com pedagogias ativas e com pedagogias mais inovadoras, que valorizem os experimentos, a criatividade e o ensino por projetos. Eu acredito nesse conceito de hibridismo, no sentido não de ter uma parte das aulas presenciais a outra parte não presencial, mas complementando as atividades presenciais, ou seja, os estudantes podem estar na escola num período e no outro período ter várias atividades não presenciais e com mediação pedagógica.

Essa hoje é uma forma até de proteger o aluno…

Exatamente. Hoje até eu recebi um convite para participar de uma live, uma webinar da OCDE, e é exatamente sobre isso. A pergunta central é como desenvolver nas crianças, como enriquecer a educação das crianças, o seu bem-estar, por meio de atividades que mostrem a elas os riscos de todas as redes sociais, de todas as mídias, que estão cada vez mais presentes na vida de todo mundo, assim como a desinformação, as fake news, o bullying cibernético, conteúdos que são agressivos e violentos. Trabalhar isso para crianças é fundamental e é o que a OCDE está chamando de media literacy.

A senhora já elencou alguns dos desafios da educação brasileira hoje, falou de alfabetização, da pandemia, de mídias. Mas qual, na sua avaliação, é o maior desafio para a educação no Brasil nos próximos anos?

Eu sempre vejo como o maior desafio da educação brasileira a preparação, a formação dos professores. Porque o Brasil desenvolveu uma nova proposta curricular que é a BNCC, e os estados e municípios reelaboraram os seus currículos. Agora, a BNCC traz uma nova concepção de currículo, uma nova concepção do ponto de vista epistemiológico. É um currículo com base em competências e competência é mobilização: mobilização de conhecimentos, de habilidades, de atitudes, de valores, de habilidades tanto cognitivas quanto socioemocionais. Estou falando de educação infantil até o ensino médio. Os professores, para implementarem a BNCC com essa nova abordagem, que é uma abordagem muito atual, muito próxima dos documentos mais recentes, dos melhores centros de pesquisa do mundo na área de currículo e de avaliação, precisam ter formação. E formação continuada, porque eles não foram preparados na faculdade para uma mudança tão grande de currículo como agora. além disso, é preciso ter melhores carreiras, valorizar os professores. Essa é uma prioridade que o Brasil precisa enfrentar. E não tem enfrentado como deveria nos últimos anos. Porque não é só salário. Salário é uma parte, mas só isso não resolve.

Qual o impacto das avaliações nacionais nesse contexto?

Esse currículo novo só vai avançar se as avaliações nacionais forem aperfeiçoadas de acordo com as novas diretrizes curriculares. Precisa ter informação, ter dado para melhorar o aprendizado do aluno dentro da escola, e as avaliações externas têm um impacto muito grande nas redes escolares. Será preciso melhorar o Saeb, o Ideb, mudar o Enem. Porque o Enem, o Saeb estão ancorados ainda numa conceituação anterior e mais tradicional de currículo, e agora a avaliação vai ter que acompanhar esse processo de mudança. Se você olhar o Pisa, por exemplo, ele já avalia criatividade, pensamento criativo, pensamento computacional. Nós não fazemos nada disso, nem no Saeb, nem no Enem. Além disso, se nós olharmos, por exemplo, as tendências internacionais de avaliação, as avaliações já usam plataformas adaptativas para avaliar seus alunos, usam tecnologias de forma cada vez mais intensa. Então, a tecnologia é importante não só para os professores fazerem avaliação diagnóstica, formativa para acompanhar o desenvolvimento dos alunos, mas também para as avaliações externas, para subsidiarem as decisões dos sistemas de ensino, dos gestores escolares.

Disso depende também o desenvolvimento econômico do país?

Eu acredito que a educação é a política pública mais importante para mudar a cara do Brasil, diminuir a desigualdades sociais e econômicas, fazer com que o Brasil seja um país mais equânime, mais justo e, principalmente, um país que vai garantir um desenvolvimento adequado para todos os cidadãos. E, para isso, você precisa ter um sistema educacional de qualidade para todos os brasileiros. E eu acho que o Brasil vai ter que investir pesadamente nisso, senão nós vamos ficar para trás. Vamos ficar para trás do ponto de vista da produtividade. Já temos uma das piores produtividades dos países em desenvolvimento. O Brasil não tem uma boa produtividade ao mesmo tempo em que é a 10ª economia do mundo. Qualquer país que tenha uma economia menos diversificada e menos importante que o Brasil tem uma produtividade maior. Olha a produtividade nos Estados Unidos, na Alemanha, no Japão comparada com a produtividade aqui no Brasil. Então, para nós crescermos, para a economia crescer, termos mais bem-estar e melhorar a qualidade de vida para todos e diminuir as desigualdades, é preciso uma educação de mais qualidade, e uma educação de mais qualidade depende de investimentos fortes primeiro em professor, formação Inicial e continuada, melhoria das carreiras; melhoria da gestão das escolas; uso abundante das evidências nas políticas educacionais, com avaliações mais atualizadas, e não aquela avaliação que nós até agora temos, que leva um ano para divulgar resultados. Enfim, acho que tem muita coisa para ser feita e eu espero que, daqui para a frente, a gente continue avançando, uma vez que agora voltamos à normalidade depois da pandemia.

Outro outro tema que emerge muito, principalmente quando se fala de escolas particulares, mas que inevitavelmente chega à rede pública também, é educação 5.0. É uma realidade distante no Brasil?

Não é distante pelo seguinte: a economia 5.0, a indústria 5.0, já está chegando e se concretizando nas economias mais avançadas e desenvolvidas do mundo. O Brasil vai caminhar para isso. O agronegócio, por exemplo, no Brasil é altamente desenvolvido do ponto de vista tecnológico. Com certeza vai adotar o 5.0, assim como o sistema financeiro e o bancário. Nós temos já vários ramos de atividades econômicas que se desenvolveram e que estão se desenvolvendo. Então eu creio que a escola precisa mudar. Algumas estão fazendo isso de forma mais acelerada. Acredito que isso vai acabar criando uma necessidade que chegará à escola pública também. Não é possível que os governos do Brasil não priorizem a educação como política pública e estratégica para o futuro do nosso país. Esse que é o ponto. Enquanto os governantes não considerarem a educação tão importante quanto a economia, não vai dar certo, e a economia vai para trás.

Quais orientações e dicas daria a pais que estão escolhendo a escola para os filhos? O que é mais importante?

Acho que tem um componente que é muito forte hoje no desenvolvimento dos estudantes, e que eu cada vez mais reforço: é o desenvolvimento das habilidades socioemocionais e garantir o bem-estar. Isso ficou muito claro na pandemia. Muitas crianças e adolescentes com problemas de saúde mental. Não adianta nada ter uma boa nota e ser um aluno que não se comunica, que não tem sociabilidade, que tem medo de tudo, que não respeita o outro, que não sabe argumentar, que não é capaz de estabelecer uma relação com empatia, se colocando no lugar do outro. Se o aluno não desenvolver as habilidades socioemocionais e seu caráter, terá dificuldade de aprender e não será um cidadão pleno.