Eu, Estudante

Artigo

O que falta dizer sobre a educação na gestão Ibaneis-Celina

Ao fim do segundo mandato, a atual gestão tem poucos resultados para mostrar. Desempenho na oferta de matrículas em tempo integral e na aprendizagem dos alunos são alguns dos principais gargalos


Professor Doutor Henrique Fróes

Professor Doutor Júlio César Biddah

Integrantes do Observatório de Práticas Integradas e Políticas Curriculares do Distrito Federal (Opic-DF)

Em um cenário ideal, o ano eleitoral deveria ser pautado, prioritariamente, por uma avaliação objetiva do desempenho dos governantes atuais, distanciando-se da prática comum da imprensa de apenas confrontar promessas feitas com as realizadas. No caso do Distrito Federal, vivemos o final do segundo mandato da gestão Ibaneis Rocha — a última vez que tivemos uma continuidade dessas no Palácio do Buriti foi com Joaquim Roriz entre 1999 e 2006. Ao adentrarmos o oitavo ano desse ciclo político — agora sob o comando da vice-governadora Celina Leão, que, ao que tudo indica, será a candidata da continuidade em outubro — é imperativo questionar: qual é o saldo dessa gestão na Educação? O que foi alcançado de concreto nesse período?

Como toda realidade complexa, não há uma resposta unívoca para essa pergunta. Uma avaliação dessa pode (e deve) abranger diversos aspectos e utilizar diferentes indicadores. Aqui, iremos levar em conta o estudo Panorama de dados educacionais – Distrito Federal 2026, produzido pelo Todos pela Educação como parte da iniciativa Educação Já. O documento reúne os principais indicadores de qualidade da Educação Básica, a partir de três dimensões: acesso, trajetória e aprendizagem. Dito de outra forma, o estudo foca naquilo que é mais essencial: os resultados práticos alcançados em colocar os alunos na escola, mantê-los estudando no fluxo esperado e promovendo aprendizagens. Nesse recorte, ficam de fora outros aspectos fundamentais, como, por exemplo, os investimentos no setor, a valorização dos profissionais da educação e a avaliação das políticas públicas criadas e implementadas.

Tal delimitação não subestima a relevância desses fatores; ao contrário, estabelece que eles devem ser compreendidos como meios para um fim, e não como o objetivo final da política educacional. Ao priorizar o indicador de impacto direto na vida do estudante, deslocamos o debate da esfera dos orçamentos executados e da burocracia administrativa para a realidade concreta da sala de aula. É, em última análise, uma tentativa de confrontar o gestor público com a métrica mais honesta de sucesso: a garantia de que, após oito anos de gestão, o aluno brasiliense está, de fato, mais preparado para os desafios do futuro.

O retrato atual da Educação no DF nos revela que essa gestão foi incapaz de promover uma revolução pedagógica capaz de alçar o sistema a um patamar de excelência: o que observamos foi a manutenção de uma “zona de conforto” administrativa. O sistema funciona, mas não evolui; atende às demandas burocráticas básicas, mas falha em proporcionar o salto qualitativo que os estudantes da rede pública necessitam. Oito anos é um período longo o suficiente para que reformas estruturais fossem não apenas planejadas, mas consolidadas. Contudo, ao constatarmos a ausência de inovações disruptivas e a estagnação de indicadores críticos, percebemos que a marca desta gestão é a omissão de uma visão estratégica que, de fato, fosse capaz de transformar o cenário educacional do Distrito Federal.



Mais creches, pouco tempo integral

Comecemos pelos destaques: o primeiro indicador que chama a atenção no estudo é o do crescimento no acesso à creche. Se em 2019,primeiro ano da gestão Ibaneis-Celina, apenas 18% das crianças de 0a 3 anos estavam em uma creche (seja ela pública ou particular), esse percentual subiu para 29% em 2025. Nesse período, 28 novas creches públicas foram entregues pelo governo. Esse esforço, no entanto, não foi capaz de fazer o DF alcançar sequer a média nacional, que é de 39%, e muito longe dos seus “colegas” de classe nesse aspecto: São Paulo (54%), Santa Catarina (52%) e Rio Grande do Sul (43%). Há que se ressaltar o fato de que, no DF, 100%das matrículas em creches públicas são em tempo integral, o que coloca nosso quadradinho em primeiro lugar nesse quesito no ranking.

Enquanto a oferta de vagas em creches, uma política de alta visibilidade e inegável apelo social, parece ter consumido todo o fôlego da gestão, as etapas subsequentes não tiveram o mesmo investimento. Podemos constatar isso ao olharmos para a oferta de matrículas em tempo integral: nesse quesito, estamos não só abaixo da média nacional quanto dos nossos colegas do Centro-Oeste, como mostra o quadro abaixo.

Matrículas em tempo integral em relação ao total de matrículas na rede pública

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Etapa

DF

Centro-Oeste

Brasil

Anos Iniciais

10%

12%

21%

Anos Finais

7%

13%

24%

Ensino Médio

5%

14%

25%

 

O mesmo padrão se repete quando olhamos para a questão da aprendizagem que, como se sabe, é o grande gargalo da educação brasileira: até conseguimos colocar nossas crianças e jovens na escola, mas eles costumam sair de lá sem aprender muita coisa. No caso, o DF vai bem em uma etapa (os Anos Inicias do Ensino Fundamental) e decepciona nas outras. Nessa primeira etapa, 44% dos alunos apresentam um nível de aprendizagem considerado adequado em Língua Portuguesa e Matemática (contra 37% da média nacional). Mas a tendência não se mantém: nos Anos Finais, apenas 11% aprendem o esperado (contra 13% da média nacional) e, no Ensino Médio, esse índice cai para 4% (contra 5% do restante do país).

Tragédia educacional

Aliás, vale lembrar que na última edição do Ideb (2023) para essa etapa, o DF obteve uma nota inferior à registrada em 2019 (3,7 contra 4). O Índice do Desenvolvimento da Educação Básica mede não só o desempenho dos alunos em Língua Portuguesa e Matemática, bem como o fluxo escolar dos estudantes (taxas de aprovação/reprovação e abandono). Assim, quando se trata do Ensino Médio, tudo indica que o DF está avançando... para trás! Oxalá os dados do Ideb de 2025 — que serão divulgados nos próximos meses — tragam indícios mais animadores do estado de coisas no Ensino Médio distrital e de que nós tenhamos, ao menos, recuperado os prejuízos educacionais provocados pela pandemia daCovid-19.

No restante dos índices, o DF costuma ficar ali na média medíocre na qual permanecemos deitados eternamente em berço esplêndido em meio à verdadeira tragédia que é a Educação brasileira. Outros estados, ao menos, conseguem apresentar alguns avanços: o Ceará ,por exemplo, já oferece educação em tempo integral para 50% dos alunos dos Anos Iniciais, 75% dos Anos Finais e 57% do Ensino Médio, além de conseguir alfabetizar 84% das crianças até o 2º ano (no DF, esse índice é de 65%). Nossos vizinhos goianos, por outro lado, se destacam por estarem sempre entre os melhores desempenhos nas últimas edições do Ideb do Ensino Médio. Paraenses, paranaenses, capixabas e piauienses também tem mostrado serviço em melhorar seus índices educacionais.

Responsabilidade eleitoral

Esse desempenho pífio da Educação no Distrito Federal deve ser cobrado, de forma intransigente, de todos aqueles que sustentaram o atual Governo e que, em outubro, pedirão votos em nome da continuidade. Contudo, imersos no ruído dos escândalos financeiros, no peso de acusações de corrupção e no teatro da polarização ideológica, dificilmente veremos o estado periclitante da nossa rede de ensino ocupar o lugar central que merece no debate eleitoral.

O cenário é previsível: haverá uma profusão de promessas genéricas, planos pomposos de construção de novas escolas, reajustes salariais e investimentos superficiais. No entanto, o silêncio reinará sobre a correção de rota necessária para enfrentar os gargalos estruturais. O problema central é brutalmente simples, mas convenientemente ignorado: nossos estudantes passam pouco tempo na escola e, durante esse período, aprendem muito menos do que deveriam.

Em última análise, a decisão de outubro não será apenas sobrenomes ou partidos; será sobre se aceitamos, como sociedade, que o futuro das nossas crianças continue sendo pautado por uma mediocridade que, por força do hábito, passamos a chamar de “normalidade”. Ou exigimos um projeto que coloque, finalmente, a aprendizagem real no centro da agenda, ou continuaremos reféns de uma educação que desperdiça os talentos de toda uma geração.