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Comemoração de aluna aprovada na UFPA viraliza nas redes sociais

Repercussão ocorreu durante a quarta-feira (14), estudante também passou na Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA)

O registro feito pelo fotógrafo Thiago Gomes, do Jornal O Liberal, viralizou nas redes sociais, depois da divulgação da lista de aprovação da Universidade Federal do Pará (UFPA). Na periferia da capital paraense, outros calouros comemoraram também pelas ruas de Belém (PA) com suas famílias, assim como Katleen, a menina da foto.


“Fizeram as fotos, só que eu larguei o meu celular e continuei a festa. Foi uma festona aqui com todo mundo protegido. Foi muito incrível! Não sei nem o que falar”, conta Katleen Cardoso, 20 anos, aprovada no curso de direito na instituição e protagonista da foto.


A futura estudante da universidade paraense só foi ver a repercussão das imagens com a família por volta de 2h da manhã do dia seguinte. “O cara do [Jornal] O Liberal parou, pediu para fazer umas fotos e para fazer uma gravação rápida. Fez umas perguntas, bateu a foto e foi embora”, conta.

 

“De início, fiquei assustada, eu não estava preparada para as proporções que a foto ganhou, eu percebi até que a conta oficial de direito da faculdade começou a me seguir”, relata.

 

 

Preparação


A caloura de direito foi aprovada na sua terceira tentativa de ingresso na Universidade Federal do Pará (UFPA). Com a pandemia da covid-19 e as medidas restritivas, o cursinho que Katleen frequentava paralisou as aulas presenciais e migrou para as aulas on-line: “Depois que ele parou e ficou só on-line, eu não consegui mais manter o cursinho e aí decidi criar o meu método de estudo.”

 

Arquivo Pessoal - Aluna anotava conteúdos na parede do quarto

 

 

Katleen resolveu estudar todo conteúdo que foi passado durante o ensino médio, ela utilizou esse método porque estaria pronta para qualquer tema que aparecesse na prova. Além disso, a aluna desenvolveu uma rotina própria para aprender os assuntos: “Às vezes, eu estudava o dia todo, a madrugada toda, metade do dia e metade da madrugada para compensar”. Ela conta sobre suas anotações em tópicos que depois seriam colados na parede do quarto.

 

“Este ano, eu estava mais tranquila, porque eu já estava calejada e estava me preparando de uma forma tranquila e boa. Mesmo sem a orientação do professor, mas tendo toda a bagagem de orientações de antes”, analisa o motivo da aprovação.


Da periferia para o curso de direito


Katleen mora no bairro de Jurunas, que fica na periferia de Belém e estudou a vida toda em escola particular. O local, segundo a própria aluna relata, “é um bairro por ter alguns índices de criminalidade e pobreza.”. De acordo com os dados do último censo do IBGE, realizado em 2010, o local tem por volta de 65 mil habitantes e, entre esses, cerca de metade da população vive com uma faixa salarial que varia entre metade de um e dois salários mínimos.

 

“Por ser negra e vir de periferia já é incrível, porque a gente não vê [aqui] tantas pessoas comemorando.” Junto com a sua aprovação e, ao andar por algumas ruas do bairro, Katleen percebeu que na quarta-feira não haviam muitas casas perto da dela com celebrações.



“Antes, a gente andava e via várias casas com música de vestibular. Ontem, passei [com um amigo] por cinco/seis ruas e só vimos uma. Foi um choque, porque, caramba, um vestibular de uma faculdade pública, que todo mundo quer e só uma [casa], com a exceção da minha, [estava comemorando]”, expõe a estudante.

 

Por não ver outros alunos com identidade similar a dela em ambientes como a Universidade Federal do Pará, faz com que a estudante ressalte as suas origens. “Eu sou de um bairro de periferia, eu sou do Jurunas. Tenho orgulho de dizer que sou do Jurunas de Belém do Pará.”



Outro obstáculo que Katleen enfrentou foi a falta de vagas ofertadas somente para ações afirmativas. “Meus pais e os meus avós fizeram o possível para me pôr em uma escola particular. E, unicamente, por eu estar em uma escola particular, eu não tenho direito a participar das cotas”, alega.



Na instituição, aqueles que estudaram em escola particular não podem usufruir de cotas raciais, somente aqueles estudantes que passaram o ensino médio em escolas públicas. Por isso, mesmo sendo negra, Katleen não pôde usufruir de nenhuma cota.

 

“Eu sou negra, mas eu não sou cotista. É uma coisa que me preocupa, porque eu não posso usufruir de uma coisa que eu acredito que é minha e eu fico muito chateada com isso”, conta.

 

Mesmo com as dificuldades, ela também acredita que “é que a gente tem que criar as nossas condições. A gente pode fazer o que quiser para conseguir vencer.”

Thiago Gomes/Oliberal - Katleen vem de uma família grande e unida

 

 

Katleen é uma das poucas pessoas da família que conseguiu ingressar no ensino superior. O pai é formado em engenharia mecânica e fez a graduação com o auxílio do FIES. “Quando minhas tias passaram [em uma faculdade pública], eu tinha 2/3 anos e agora eu tenho 20. Faz muito tempo que alguém não passava em vestibular aqui”, afirma.

 

O sonho do curso de direito


A aluna sempre sonhou com a graduação. “Desde sempre eu quis ser advogada, quis cursar direito, porque eu sempre fui louca por séries policiais e jurídicas. Eu via tudo e ia pesquisar, eu me impressionava e conversava com pessoas que faziam direito”, conta.

 

Segundo ela, no ensino médio houve um júri simulado, no qual ela participou, e ela lembra o quanto foi importante para ela: “Lembro que, na época, eu era a advogada de acusação e ganhei, fiquei muito feliz e, desde aquele dia, eu também soube que era o que eu queria. Então, eu tive que focar, porque não é fácil.”



A série favorita de Katleen é “CSI”, no entanto, é na série “How to get away a murder” (Como defender um assassino, na versão brasileira) que ela encontrou uma personagem inspiradora.

 

“Eu sou apaixonada pela Annalise Keating que é interpretada pela Viola Davis. Eu a acho incrível, assim, tem muita coisa maquiada [na série]. Apesar de ser um personagem, é muito importante pra mim, porque ela também é uma mulher negra e está numa classe cheia de alunos que ela vai educar e ela vai [ensiná-los] a lidar com todas as situações que irão encontrar a vida do direito”, explica.



A estudante também afirma que gosta muito de ler casos jurídicos e crimes conhecidos, além de pesquisar sobre o assunto:. “Eu já li [sobre o caso] de Nuremberg. Esse último que aconteceu do Henry eu li muito sobre, até porque, lembra muito do menino Bernardo e da Isabela Nardoni.”



Celebração em família


Quando a Universidade Federal do Pará (UFPA) informou nas redes sociais que o resultado do processo seletivo seria divulgado na manhã da última quarta-feira (14), Katleen avisou a mãe, porém pediu para que a família seguisse com a rotina no dia seguinte.



Quando ela recebeu o resultado, quem estava em casa era a avó. “Eu desci gritando, minha avó começou a chorar, eu também comecei a chorar. Liguei o mais rápido possível para a minha mãe e para o meu pai. E estava todo mundo chorando.”





A mãe de Katleen é vendedora na loja da tia, que é autônoma, o pai finalizou a faculdade há poucos anos e trabalha na cidade de Paragominas [PA]. “Foi muito difícil, porque tinha que intercalar as coisas da casa, pagar estudos e eu sempre estudei em escola particular. Eles sempre fizeram questão que eu fizesse particular e tinham certeza que era a melhor opção. Mas é um peso, ainda mais agora, que papai está [trabalhando] em outro local e ele tem que se sustentar lá”, conta.



Para ela, a aprovação é a forma de ela retribuir todo o esforço que eles empreenderam para que ela tivesse a oportunidade de estudar em escola particular.



Na manhã desta sexta-feira (16), foi divulgado o resultado do Sisu 2021, Katleen descobriu que também passou na Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA). Entretanto, foi para o curso de engenharia cartográfica e de agrimensura. Mas, mesmo assim, a festa da aprovação continua na casa da estudante.

 


*Estagiária sob a supervisão da subeditora Ana Luisa Araujo