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Movimento Estudantil

Nova cara do movimento estudantil, presidenta da UNE pauta a frente ampla

A primeira mulher negra e nortista a presidir a entidade, Bruna Brelaz, acredita que com diálogo e tom moderado, unirá forças de diversos setores nas mobilizações pró-impeachment

Eleita em julho deste ano, Bruna Brelaz, 26 anos, é a nova presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE). Natural da capital amazonense Manaus, a jovem é a primeira mulher negra e estudante da região Norte a ocupar o cargo na entidade. Atualmente, residindo na cidade de São Paulo, Bruna que é estudante do curso de direito na Faculdade Autônoma de Direito de São Paulo (Fadisp), assume a gestão da UNE em um dos momentos mais delicados da história do país. O Brasil passa, ao mesmo tempo, por crises sanitária, social, econômica e institucional.

Em meio ao período mais desafiador da sua geração, a estudante mostra a que veio e toma a frente na luta por diferentes demandas que ultrapassam a agenda tradicional de pautas relacionadas à educação. A principal delas é a mobilização pelo impeachment do presidente da República, movimento que já dura algum tempo e que Bruna pretende dar continuidade. “Nós entendemos que o grande número de mortes por covid-19, que se alastram pelo Brasil, advém também de uma irresponsabilidade do governo, assim como o aumento da fome, do desemprego e dos ataques à educação”, afirma.

A jovem observa no campo político reflexões, que partem não só da UNE, mas de diversos movimentos Brasil adentro e isso inclui partidos políticos, de que urge a necessidade de mobilizações pelo Fora Bolsonaro. “Mesmo numa pandemia, colocamos a nossa coragem acima disso e fomos às ruas, de forma muito responsável, para cumprir essa agenda de manifestações até aqui”, explica a presidenta. As mobilizações foram impulsionadas pelo movimento negro que saiu às ruas em 13 de maio, em diversas partes do país, para protestar contra a chacina ocorrida na favela do Jacarezinho no Rio de Janeiro.

Desde então, há mobilizações mensalmente, a primeira ocorrida em 29 de maio deste ano. Até agosto, tais atos, embora tivessem volume de pessoas, não ultrapassava a bolha da esquerda. O ponto de virada veio em 7 de setembro influenciado pelas ‘manifestações pró-governo’, que contaram com declarações efusivas do presidente. “Bolsonaro por si próprio conseguiu provar e colocar para alguns setores que de fato não tem nenhum tipo de confiabilidade, principalmente sobre o respeito pela democracia e as instituições”, declara Bruna.

Frente ampla

Para Bruna, um golpe não foi instaurado naquele momento porque a mobilização, apesar de grande, não foi suficiente para conferir esse poder a Bolsonaro e comemora a articulação das instituições, em pleno funcionamento, para barrar qualquer ameaça à democracia. A partir de então, a UNE e diversos movimentos partidários e apartidários passaram também a construir uma articulação pela frente ampla sabendo que o impeachment de Bolsonaro não se fará somente com o campo de oposição. “Nós precisamos de forças das quais nós mesmos divergimos para poder articular o impeachment”, afirma categoricamente. Unidos por um objetivo comum, Bruna passou a dialogar com outras figuras que estão nesse processo.

O ato de 12 de setembro, convocado pelo Movimento Brasil Livre (MBL), Vem pra rua, e outros setores de organização da direita brasileira, contou com a presença da presidenta da UNE, que teve inclusive espaço de fala no palanque. “O próprio MBL nos procurou para dizer o seguinte: nós queremos recuar da pauta, Nem Lula e Nem Bolsonaro para concentrar o nosso ato em defesa da democracia e pelo Fora Bolsonaro”, explica. Bruna relata ainda que compareceu à manifestação, de forma diplomática, para cumprir o papel de falar com esses setores e sinalizar abertura para a construção dessa frente. Com essa postura, a presidenta quer que as movimentações sejam cada vez maiores de modo que gerem pressão sobre o Congresso Nacional, pelo impeachment de Bolsonaro.

A estudante vê como positiva a participação no ato de 12 de setembro porque para além da participação das figuras que compunham aqueles movimentos, tinham pessoas independentes, pessoas que não tinham vínculo com nenhum movimento e que não aprovam a atual gestão governamental. “Eu, como presidente da UNE, não poderia me negar a falar com essas figuras porque a UNE representa todos os estudantes, tanto os que querem se organizar, quanto os que não querem se organizar. Bruna toma como missão não só a união de setores, mas também dialogar com essas pessoas que estão em dúvida, pessoas que não vão votar em Ciro ou Lula, mas querem ser Fora Bolsonaro", diz.

À frente da União Nacional dos Estudantes, a jovem não toma decisões unilateralmente e leva adiante os anseios decididos pela maioria no Congresso da UNE. A idealização da frente, por exemplo, é defendida pela maioria na entidade, que se dispõe ainda a apoiar mesmo que não necessariamente seja de esquerda, mas que tenha a esquerda como protagonista.

Há pouco tempo como presidente da entidade, Bruna Brelaz já se reuniu com Ciro Gomes (PDT) e, também, com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. De acordo com a jovem, os dois reafirmaram a importância de defender a democracia, o Brasil, de se fazer uma frente ampla, cada um com os seus conceitos, mas concordando com as movimentações propostas. A ideia é continuar os encontros com mais lideranças que possam ajudá-la nos objetivos da entidade. “Esse é o papel da UNE que, em 84 anos de existência, sempre buscou defender a democracia. Precisamos construir esse caminho, nós não podemos nos desresponsabilizar”, afirma. Ela conta ainda que comprimentou o ex-presidente Lula em alguns eventos e que ambos buscam compatibilidade de agenda para conversar com calma.

Determinada, a jovem é taxativa ao dizer que a demanda pelo impeachment de Bolsonaro possui uma lista consistente de motivos. “O povo brasileiro está passando fome, existem quase 600 mil mortos por covid-19, as pessoas estão desistindo de entrar e permanecer no ensino superior, a universidade está sendo desmontada”, afirma.

A busca pelo diálogo

Na gestão de Bruna, o apelo é para que as lideranças deixem o debate eleitoral de lado por enquanto e se unam para que os movimentos possam ser feitos sem nenhum tipo de rusga e constrangimento. A presidenta da UNE cita o exemplo do 12 de setembro que reuniu João Doria, Ciro Gomes, Simone Tebet, Mandetta, Joice Hasselmann, e diversos campos políticos em prol de uma articulação comum.

Ela considera os movimentos importantes e pretende conversar com pessoas do meio artístico, pessoas que são novas na política, pessoas que ainda não se posicionaram, entre outras. “Se existem outros setores inclusive que foram de alguma em algum momento do campo do de Bolsonaro, nós queremos convencê-los a estar do nosso lado por essa causa. Por mais que seja dura, a frente ampla precisa ser construída”, idealiza Bruna.

A atitude é utilizada também para atrair estudantes universitários que ainda estão confusos. Para tanto, a União Nacional dos Estudantes se dispõe a ir para a rua, para a universidade, para o transporte público e encontrar pessoas que não vão votar no Bolsonaro mas também não vão votar no Lula nem no Ciro. “Nós precisamos conversar, nós precisamos entender porque o Brasil colocou Bolsonaro na presidência da República, temos muitas tarefas pela frente e essa é uma delas”.

Desafios

Para os protestos marcados para 2 de outubro, ela conta que a adesão dos partidos melhorou depois do 7 de setembro. Existem críticas à atuação de Bruna por parte de alguns movimentos e partidos de esquerda, dentro da campanha Fora Bolsonaro, mas ela conta que depois dos eventos em favor do presidente, as reuniões foram muito produtivas pois há muita disposição em tocar o debate pela frente ampla. “Só alguns setores mais estreitos que têm uma maior dificuldade e continuam fazendo críticas abertas às nossas movimentações. Mas isso é de forma minoritária dentro da campanha”.

Bruna diz ter a impressão de que as pessoas que a criticam confundem o conceito de frente ampla com a aliança programática eleitoral e ideológica. “Numa democracia é possível se candidatar ou apoiar um projeto que tenha uma linha, que defenda o que você concorda. Já a frente ampla é para articular algum tipo de movimento com um objetivo em comum”, explica. Para ela, trata-se de uma questão matemática onde para atingir o objetivo, quanto mais pessoas, melhor.

Fora do espectro diplomático das lideranças, a presidente relata preocupada sofrer constantes ataques nas redes sociais e revela que uma parte das agressões verbais vêm de alas próximas e são de cunho misógino e machista, e reforça que figuras como as deputadas Tábata Amaral (PSB) e Isa Penna (PSOL) passam por situações similares. Ela fala emocionada sobre os ataques que mulheres em posições de poder têm sofrido. “Questionam a nossa capacidade intelectual, a nossa capacidade física, o nosso corpo, a nossa liderança e todo um processo que é muito duro de se conquistar”.

Exigindo uma mudança de postura de seus críticos, a estudante diz que não aceitará ser desrespeitada ou ameaçada. “Eu sou a primeira mulher negra do Norte do Brasil eleita a presidenta da UNE. Chegar até aqui não foi fácil. Machismo a gente precisa denunciar e eu nunca farei combate à misoginia de forma seletiva”. Ela afirma que a cultura do machismo arraigada nas diversas vertentes sociais e políticas formam base para que o povo brasileiro vote em pessoas como o atual chefe de Estado.

Perspectivas

Animada pelas manifestações de 2 de outubro, ela acredita que será um momento importante. “Construímos um caminho para que lideranças que não foram nos atos, participem. Tenho insistido para que outros setores e pessoas que possam articular institucionalmente comparaeçam”. O objetivo é levar artistas, intelectuais, pessoas que mobilizem a sociedade e que possam ajudar a fortalecer a campanha. Para isso, a entidade tem analisado novos formatos porque as manifestações em modelos de festivais.

Depois do ato do próximo sábado (2), a ideia é continuar a construir as agendas. Podendo ser diversas agendas de festivais pelo impeachment para mobilizar os jovens. “A nossa cara não estava nos movimentos de 7 de setembro. Então, esses jovens que ainda não foram precisam estar mobilizados”, rebate. Sem salas de aulas presenciais, a presidente da UNE vê dificuldade em mobilizar os estudantes e reconhece que é importante dar voz para a categoria nesse processo. “Estamos criando mecanismos para que essas pessoas consigam participar”, afirma. A proposta da UNE é buscar ativamente pela juventude e convidá-la a somar com o movimento.

Para Bruna, as movimentações frequentes se assemelham a outras existentes na história do país, como o “Tsunami da Educação” ocorrido em 2019 contra os cortes na educação e os “Caras Pintadas” importantes para o impeachment de Fernando Collor. Porém, dessa vez as pautas são a defesa da democracia e o impeachment do presidente. As manifestações são organizadas por diversos movimentos e participam pessoas de todas as idades, mas existe uma predominância de jovens. “Podemos ser, sim, os novos Caras Pintadas e estaremos na linha de frente da derrubada do presidente da República”, finaliza.

*Sob a supervisão da subeditora Ana Luisa Araujo