Victor Rogério*
A divulgação das notas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) 2025, na última sexta-feira(16/1), gerou polêmica entre estudantes e professores que criticam o método de correção da prova de redação. A discussão surgiu após alunos acostumados a receberem notas altas notarem queda desproporcional na pontuação nesta última edição do exame. Segundo os participantes, os corretores teriam adotado novos critérios para corrigir os textos e que a mudança não foi devidamente comunicada aos vestibulandos.
Nas redes sociais, professores e alunos acreditam que a suposta mudança teria como objetivo desencorajar o uso de “fórmulas prontas” e “repertórios de bolso”, métodos que oferecem estruturas prontas e referências culturais sem ligação direta com a temática da redação. Alguns professores afirmaram, ainda, que a mudança foi feita "em cima da hora", o que teria comprometido o desempenho dos participantes que não tiveram tempo de se adaptar às novas exigências.
VISÃO DOS ESTUDANTES
Ainda que nenhuma mudança oficial tenha sido anunciada, diversos estudantes relataram uma queda fora do padrão na pontuação, mesmo sem utilizar receitas prontas. Uma delas é a vestibulanda Renata de Freitas Fernandes, de 23 anos, que há quatro anos tenta alcançar uma vaga em medicina pelo SISU (Sistema de Seleção Unificada). Ela percebeu uma contradição na sua nota, já que no cursinho, uma semana antes do Enem, escreveu uma redação cujo tema era o mesmo da prova oficial e o desempenho foi alto.
"Escrevi o mesmo tema da redação uma semana antes da prova. Foi sobre os impactos do envelhecimento populacional na sociedade brasileira. Enviei para o meu cursinho de redação e o txto foi avaliada por uma corretora, com os critérios do Enem. Tirei 960”, conta Renata.
"Eu estudei durante o ano baseado nesse padrão de escrita, com todos os critérios e competências. Então, não faz sentido eu ser penalizada se eu coloquei tudo que precisava ser colocado”, afirma. Além disso, a estudante criticou a medida que possibilita que estudantes que realizaram outras edições do Enem concorram a uma vaga pelo SISU neste ano. De acordo com ela, a ação fere a isonomia na seleção pública, já que estudantes que participaram de outras provas teriam vantagem pelo fato de não terem sido prejudicados com uma mudança abrupta nos critérios da redação. O princípio da isonomia garante tratamento igualitário a todos os participantes de processos seletivos. "Isso fere a isonomia do processo, porque cada prova é uma prova, cada ano é uma temática diferente. A gente não tem como fazer uma prova hoje e concorrer com uma pessoa que fez há 3anos. Isso faz com que as pessoas se desestimulem a entrar no ensino superior no Brasil”, finaliza.
NÃO HOUVE MUDANÇAS
Ao Correio, o Inep confirmou que os estudantes são orientados, na Cartilha do Estudante, divulgada no início de todo ano, a não utilizarem estruturas prontas e repertórios genéricos, mas negou qualquer mudança oficial nos critérios de correção na redação do Enem 2025. “Não houve nenhuma mudança nos critérios de correção, assim como não houve nenhuma mudança na composição nas bancas de correção. Todos os critérios foram estritamente aqueles que estão na cartilha do participante em 2025”, afirma Hilda Linhares, diretora de Avaliação da Educação Básica (DAEB) do INEP.
OPINIÃO DE PROFESSORES
De acordo com a professora de redação do Colégio Anglo, Daniela Toffoli houve uma queda considerável nas redações que atingiram nota mil nos últimos três anos. "Quando comparamos as edições do Enem de 2023 e 2024, vemos que, em 2024, apenas 12 redações atingiram nota mil em todo o Brasil. Já em 2023, foram 60 redações com nota máxima. Além disso, a média geral da redação subiu, de 645 (em 2023) para 660 (em 2024)", evidenciando um maior rigor avaliativo em 2025. Segundo Toffoli, além de uma menor tolerância a “modelos prontos” e “repertórios genéricos”, houve também uma exigência maior em relação à autoria do texto e à estratégia utilizada pelo estudante. “Atualmente, espera-se que o participante escreva com autoria, desenvolvendo um ponto de vista próprio e argumentos consistentes, em vez de apenas preencher uma estrutura com informações desconexas. Hoje, espera-se um nível muito consistente em organização e profundidade de argumentos”, conclui.
Já a professora de redação Hagda Vasconcelos, do Colégio Galois, reconheceu a importância de uma maior rigidez sob fórmulas prontas, mas defendeu uma maior capacitação dos treinadores para evitar “injustiças” na hora de corrigir a redação dos participantes e observou que o endurecimento das regras deve ocorrer de forma gradual. “É importante essa rigidez, porque a gente se deparava com textos muito engessados que por anos alcançaram notas máximas sem que o aluno tivesse um ponto de vista crítico”, observa.“Como reconhecer se há no texto uma estrutura decorada? A banca disponibilizou para oscorretores alguns modelos prontos para que eles reconhecessem, mas os próprios candidatos têm os seus jeitos de escrever. Em 30 linhas é complicado ser ser tão criativo. Então, acho que a falha é nessa mudança muito abrupta”, conclui.
Estagiário sob a supervisão de Ana Sá
