Eu, Estudante

Manifestação on-line reabre questionamentos sobre fraude no Enem 2026

Movimento Anula Enem reage a postagens de universitário investigado, trazendo à tona discussões sobre justiça, transparência e mudanças recentes na principal avaliação educacional do país

Uma postagem nas redes sociais na última sexta-feira (16) pelo movimento Anula Enem voltou a colocar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) no centro de debates sobre lisura, credibilidade e equidade no acesso ao ensino superior. O movimento publicou nota oficial contra as declarações feitas pelo estudante de medicina Edcley Teixeira, investigado pela Polícia Federal por suspeita de envolvimento em um possível vazamento de questões da prova de 2025.

O estudante, que se apresenta como primeiro colocado no curso de medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC) e vende monitorias pré-vestibular, publicou em seu perfil oficial no Instagram um story com a seguinte frase: “Protesto contra as notas da redação de quem não conhecia a IA Edcley Teixeira, hoje no Roblox — jogo online — às 19h”, acompanhada de emojis de risadas.

Em nota, o perfil do Anula Enem manifestou-se contra a fala do estudante e declarou encará-la como uma forma de deboche contra o movimento, que, segundo o grupo, “serve de voz para milhares de estudantes brasileiros”. “Ironizar ou debochar não é um argumento ou resposta”, destacou o perfil.

O que dizem as partes

Procurado pelo Correio, Edcley afirmou que recebeu as críticas “com ceticismo técnico” e declarou que o movimento carece de legitimidade ao, segundo ele, desconhecer aspectos da estrutura e da modernização do Enem. Para o estudante, o grupo teria recorrido à divulgação de informações falsas diante da falta de provas materiais de irregularidades.

Edcley afirmou ainda que o que o movimento interpretou como ironia em suas postagens trata-se, segundo ele, de uma tentativa de “ilustrar a completa falta de base factual das acusações”, alegando que a situação se assemelha a uma dinâmica infantil.

A fundadora do movimento, Letícia Araújo, pontuou que a forma como Edcley se expressou, que ela classifica como desprezo, representa uma afronta e uma falta de empatia de alguém que sonha em se tornar médico. Segundo ela, a luta do movimento não deve ser tratada com deboche e tem como objetivo buscar justiça para os candidatos do Enem. De acordo com Letícia, a anulação de três questões prejudicou a nota de muitos participantes.

Polêmica

Em novembro de 2025, teve início uma discussão nas redes sociais após uma live realizada por Edcley Teixeira em seu canal, no dia 11 do mesmo mês. Na transmissão, questões foram apresentadas previamente e, no segundo dia do Enem 2025, itens com grande similaridade apareceram nas provas de Ciências da Natureza e Matemática.

Após denúncias, três questões da prova foram anuladas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), e um inquérito foi instaurado pela Polícia Federal para investigar um possível vazamento. A apuração segue em andamento. O presidente do Inep, Manuel Palácios, nega que tenha havido vazamento.

Em entrevista à TV Educativa do Ceará, no dia 18 de novembro, o ministro da Educação, Camilo Santana, afirmou que a anulação das três questões foi necessária como medida de precaução para manter a lisura do exame. Segundo ele, a decisão não prejudicou os candidatos, uma vez que os outros 87 itens da prova e a redação permaneceram válidos.

O que diz o investigado

Reprodução/ Anula Enem - Edcley Teixeira, estudante de medicina

Edcley afirma que em nenhum momento houve vazamento de questões por parte dele. Segundo o estudante, o Prêmio Capes Talento Universitário, promovido pelo Ministério da Educação (MEC), não informou a origem do material utilizado, e ele não tinha conhecimento de que as questões poderiam fazer parte do Banco Nacional de Itens. Ele argumenta ainda que, em nenhuma fase do prêmio, houve indicação de que o conteúdo era sigiloso, e que as similaridades observadas não passaram de coincidências.

De acordo com Edcley, não houve intenção de obter vantagem financeira, alegando que a divulgação do material foi pública e direcionada a candidatos do próprio prêmio da Capes, e não a estudantes do ensino médio. “Eu apenas analisei um material existente. A coincidência de haver similaridades na prova do Enem não é culpa minha. Meu ganho vem das minhas aulas, não da venda de informações privilegiadas que eu sequer possuía”, afirmou.

O estudante enfatizou ainda o respeito e a confiança que diz ter no Enem e nas instituições responsáveis pela aplicação do exame. Para ele, a isonomia do processo é sólida e deve ser defendida contra narrativas que considera oportunistas. “O que prejudica a credibilidade e a saúde mental dos estudantes são ataques baseados em opiniões sem embasamento técnico”, disse, em referência ao movimento Anula Enem.

Implicações

Divulgação/ Guilherme Mota - Advogado Criminalista Guilherme Mota

Segundo o advogado criminalista Guilherme Mota, sócio do escritório Guilherme Mota Advogados, caso seja comprovada fraude, o impacto é imediato. “O Enem é estruturado sobre critérios de isonomia e confiabilidade”, afirma. Em termos práticos, um eventual vazamento pode levar à anulação de provas e à punição dos envolvidos. O advogado destaca que há precedentes históricos de episódios semelhantes com repercussão nacional, afetando milhões de candidatos.

Do ponto de vista penal, o caso pode se enquadrar no crime de fraude em certame de interesse público, previsto no artigo 311-A do Código Penal, cuja pena é de um a quatro anos de reclusão, além de multa. A punição pode alcançar tanto quem divulga quanto quem facilita ou permite o acesso indevido a conteúdo sigiloso.

Em relação às investigações, Guilherme explica que elas são conduzidas prioritariamente pela Polícia Federal e envolvem medidas como rastreamento digital, análise de metadados, perícia em dispositivos eletrônicos, oitiva de candidatos, fiscais e aplicadores, além da verificação da cadeia de acesso aos cadernos de prova.

Questionado sobre a possibilidade de vantagem econômica, o advogado Alisson Ferraz Oliveira afirma que a comprovação de lucro com o vazamento pode agravar a situação penal, levando ao enquadramento em outros crimes, como corrupção, lavagem de dinheiro ou associação criminosa.

Estratégias de defesa

O advogado Guilherme Mota também comenta as possibilidades de defesa em casos dessa natureza. Segundo ele, a estratégia costuma se concentrar na contestação dos elementos estruturais do tipo penal, especialmente na existência efetiva de sigilo — requisito indispensável para a configuração do crime.

Outro ponto é a tentativa de afastar o dolo específico, ou seja, demonstrar que não houve intenção de fraudar o exame ou obter vantagem. Também é comum o questionamento da cadeia de custódia das provas digitais, da autoria do vazamento e da legalidade das diligências investigativas.

As mudanças

Algumas mudanças foram aprovadas para as próximas edições do Enem, entre elas o maior rigor na correção das redações e a possibilidade de utilização de notas dos três anos anteriores ao ano de inscrição do candidato. As alterações geraram polêmica após a aplicação da prova.

Em entrevista ao Correio, em 28 de outubro de 2025, o coordenador pedagógico do pré-vestibular Bernoulli, Vinicius Figueiredo, afirmou que o uso de notas anteriores amplia as oportunidades para quem presta o Enem há mais tempo, mas também aumenta a competitividade.

Em suas redes sociais, o professor Rafael Duarte, mestre e doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirmou que o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) deste ano será “o mais injusto de toda a história do vestibular brasileiro”, em razão das mudanças recentes.

Segundo ele, a possibilidade de “colecionadores de aprovação” amplia a imprevisibilidade nos cursos mais concorridos, além de aumentar a competitividade, já que candidatos com notas altas de anos anteriores não precisam refazer a prova, apenas reaplicar resultados.

De acordo com o perfil do Anula Enem, a mobilização do grupo busca justamente enfrentar as possíveis injustiças e incoerências do processo. Entre as principais reivindicações estão a responsabilização por eventuais vazamentos, maior lisura, renovação do banco de questões, reformulação dos pré-testes e adoção de protocolos mais rígidos de rastreabilidade e auditoria.