Por Victor Rogério — O Nordeste concentra o maior número de estudantes que alcançaram nota máxima na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2025. Embora o resultado oficial ainda não tenha sido divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), dados extraoficiais revelam que sete candidatos são do Nordeste, sendo dois de Pernambuco, dois da Bahia, uma de Alagoas e dois do Ceará. Historicamente, a região é conhecida por abrigar estudantes com alto desempenho na prova. Os números ainda não são definitivos. A previsão é de que o Inep divulgue o resultado oficial nos próximos dias. O Correio entrevistou quatro dos candidatos nota 1.000.
Carlos Eduardo, 21 anos
Em 2024, Carlos Eduardo, 21, natural do Ceará, conquistou o sonho de infância de cursar medicina. Residente em Fortaleza, fez o ensino médio na Escola Estadual de Educação Profissional Professor Plácido Aderaldo (EEEP).
A preparação começou em 2020, enquanto cursava o 1º ano do ensino médio, com materiais gratuitos na internet. Apesar do baixo desempenho no primeiro ano de Enem, Carlos não desistiu. No ano seguinte, em 2021, a nota na redação subiu de 460 para 940. "Meu professor de redação corrigia minhas redações, mas sempre estudava com material gratuito. Até então, eu não tinha um cursinho para corrigir uma redação."
Em 2022, no 3º ano do ensino médio, Carlos mostrava as habilidades de texto ao ser um dos vencedores de um concurso de redação promovido pelo governo estadual. A ocasião tornou Carlos uma referência na escola, fazendo com que os colegas pedissem para que ele abrisse uma mentoria da matéria. O estudante acatou a ideia e ajudou os amigos a tirarem mais de 900 pontos na redação. Além disso, fora a pressão psicológica para ser aprovado, Carlos também teve que conciliar os estudos com o estágio. Apesar de ter alcançado 960 pontos na redação, o desempenho geral não foi suficiente para passar em medicina. A conquista só viria na próxima edição da prova.
Mantendo o mesmo ritmo de 2023, o estudante conseguiu a vaga em medicina em 2024 e decidiu manter a mentoria de alunos, que seguiu crescendo. Mesmo tendo conquistado o objetivo, ele ainda desejava passar credibilidade aos alunos. ”Já em 2024, eu decidi fazer o Enem de novo para provar a todo mundo que estava comigo que o que eu explicava, de fato, era validado na prática”, afirma.
A nota mil, porém, só chegou em 2025. “Eu não estava muito confiante na nota 1.000. Mas quando eu abri o sitema e vi aquele resultado, foi uma felicidade muito grande”, compartilha.
Na mentoria, Carlos não se apega a estruturas prontas e ensina a construir uma argumentação baseada nos critérios da redação, além de estimular o pensamento crítico dos alunos. “Eu prezo por ensinar os alunos a saberem construir o texto baseado nos critérios de uma redação argumentativa. Sempre ressaltando a importância de ter um amplo conhecimento de mundo”, diz.
“Quando você expõe um argumento, é necessário se atentar a três pontos. É preciso explicar o porquê aquilo é um problema, como aquele fator causa o problema e quais impactos ele traz”, afirma.
Larissa Melo, 19 anos
Larissa Melo Ribeiro, 19, natural de Fortaleza (CE), aguarda o processo seletivo no Sisu para cursar medicina na Universidade Federal do Ceará (UFC). Como repertório cultural, a estudante mencionou a Lei Orçamentária Anual (LOA) e criticou o etarismo.
Segundo Larissa, o sonho de ser médica começou ainda na infância por meio de brincadeiras e foi reforçado quando, no ensino médio, participou de dinâmicas em uma universidade privada de Fortaleza.
"Quando criança, eu tinha uma maleta de preparativos médicos que eu usava nas minhas bonecas. Eu também fingia ser médica com as minhas irmãs. Então, sempre tive essa paixão. E quando eu visitei a Unifor (Universidade de Fortaleza), consegui fazer alguns testes de primeiros socorros e me senti bem atraída pela profissão", conta.
Durante a preparação, Larissa contou com a ajuda do cursinho preparatório do próprio colégio. As aulas iniciavam às 7h e terminavam às 12h. Pela tarde, reforçava o conteúdo relendo livros e resumos até a noite.
A meta dele incluía escrever, pelo menos, uma redação por semana e depois corrigi-la. "Eu sempre ia no laboratório de redação e buscava algum professor para corrigir minha redação. Assim, eu corrigia meus erros e conseguia aperfeiçoar cada vez mais", explica.
Para Larissa, o equilíbrio entre hobbies e estudos não pode ser negligenciado pelos vestibulandos. No decorrer do mês, ela alternava os fins de semana entre revisão e lazer. “Em alguns fins de semana, eu deixava de sair para fazer alguma revisão final. Não deixar de lado o lazer ajuda muito, principalmente, na questão emocional. Você tem que sair com pessoas que gosta e praticar atividade física ”, defende.
Wellington Ribeiro, 19 anos
Aos 19 anos, Wellington Ribeiro faz parte do seleto grupo de estudantes que alcançaram nota máxima na redação do Enem 2025. O pernambucano, natural de Barreiras (PE), ganhou visibilidade após citar repertórios culturais que vão de Clarice Lispector a pensadores de renome, evitando "modelos prontos" e "repertórios coringa". Atualmente, espera pelo resultado do Sisu (Sistema de Seleção Unificada) para conquistar uma vaga em direito na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
A trajetória com o Enem começou em 2022, no 1º ano do ensino médio, como treineiro. Desde então, o jovem participou de todas as edições do exame. Em 2024, já no 3º ano do ensino médio, Wellington atingiu nota 920, pontuação considerada alta. A nota 1.000, porém, só veio em 2025, após quatro anos de preparação. Segundo ele, o alto desempenho na prova, bem como o desejo de cursar direito, é fruto da paixão pela literatura.
"Desde criança, eu tenho paixão pela escrita e pela leitura. E o curso de direito aproveita muito bem essas duas coisas", conta.
No texto, Wellington rejeita os chamados "modelos prontos" de redação. De acordo com o estudante, fórmulas decoradas não estimulam o senso crítico dos alunos. Por isso, em vez de repertórios genéricos, o pernambucano usou da criatividade e fez menção ao conto Feliz aniversário, de Clarice Lispector; e ao sociólogo Ruy Braga, para tratar do envelhecimento na sociedade brasileira. No Enem, repertórios socioculturais são pilares essenciais para garantir um bom desempenho.
“Citei o conto Feliz aniversário, da Clarice Lispector, que fala da vulnerabilidade vivenciada pelos idoso, principalmente em datas comemorativas, como aniversário, Natal e fim de ano. Depois, puxei para o âmbito histórico, falando da Lei dos Saxagenários e da marginalização de idosos escravizados no período colonial. Também falei sobre Ruy Braga, que é um sociólogo brasileiro conhecido por propor um sistema político assistencial à população mais vulnerável, como a população envelhecida”, esclarece.
Wellington destacou a leitura de livros e noticiários como pontos fundamentais para o estudante que deseja se sair bem na prova dissertativa-argumentativa do Enem. A rotina de estudos incluía redigir duas redações por semana, que eram corrigidas pelos professores do cursinho. Ele também ressaltou o preparo mental como fator importante.
"Ao ler noticiários, dá pra perceber a linha argumentativa dos jornalistas. Acho que isso cria um senso crítico no leitor. Além disso, o candidato tem que ter a capacidade de administrar o tempo de escrita, porque a prova é muito grande", aconselha.
"O mental é importante, ainda mais quando a gente não tem certeza do nosso futuro. Um mau resultado no simulado pode acabar desestabilizando o estudante de vestibular. Por isso, acho que o equilíbrio emocional é relevante", conta
Rodrigo Forte, 22 anos
Rodrigo Forte, 22 anos, é professor de redação e está no último semestre de letras vernáculas, pela Universidade Federal da Bahia (Ufba). Logo na primeira participação na prova, em 2021, no 3º do ensino médio, Rodrigo se destacou ao receber 920 pontos na redação. Apaixonado pela escrita, o baiano não se contentava apenas com o que era ensinado em sala de aula.
"Muitas vezes, eu ia além do que o colégio me ensinava porque eu gostava bastante da área. Eu pesquisava muito, lia toda a cartilha e o manual de corretor, que era disponibilizado na época. Fazia um estudo muito aprofundado", conta.
Foi durante a preparação para o Enem que ele descobriu a vocação. Após concluir o ensino médio, em 2021, Rodrigo começou a cursar letras vernáculas na Ufba e fundou um curso preparatório focado na redação do Enem.
"Eu gostava daquela área e queria trabalhar com ela, então, minha rotina de estudos era produzir redação toda semana e estudar de forma bem aprofundada", afirma
Ao total, foram quatro anos estudando técnicas de redação e aprimorando os conhecimentos. "Eu estudava, entendia as técnicas e as competências e ficava apaixonado e sabia que queria trabalhar com aquilo em algum momento", conta
Apesar da alta pontuação, Rodrigo diz que não seguiu um planejamento de estudos como os alunos. Ele atribuiu o bom desempenho à rotina de professor. "Enquanto dou aula, eu explico as funções dos textos, as técnicas e as estruturas. Fiz várias aulas, inclusive, em que escrevia textos ao vivo. Então, meu treinamento veio disso", conta.
Para o professor, o estudante de redação precisa unir prática e teoria, sendo imprescindível a presença de um profissional da área para guiar o aluno e apontar pontos de melhoria. "Alguns alunos sabem que tem que ter três partes do texto, quatro parágrafos, mas fazem com base no que eles pensam na hora, e não com base em uma técnica. O que impede, principalmente, os estudantes de alcançarem boas notas é a falta de técnica na hora de escrever", critica.
“Existe uma cultura muito grande de negligência da redação. Muitos acreditam que basta chegar à prova, fazer um texto bem modelado, um texto bem genérico que vai conseguir 900 pontos para cima. Mas vimos que não foi isso que ocorreu neste ano. Então, a gente precisa de um texto mais aprofundado, mais complexo, o que alguns estudantes negligenciam", observa.
Rodrigo finalizou criticando os chamados "modelos prontos", sob a justificativa de que esses métodos não estimulam a capacidade argumentativa dos estudantes. "Um estudante que passa o ensino médio inteiro usando modelos prontos, quando chega à universidade, não consegue escrever um artigo, não consegue escrever um ensaio, porque perdeu aquela habilidade criativa e original. Então, além de ser prejudicial para o próprio vestibular, que tem penalizado cada vez mais esse uso, é prejudicial também para a capacidade intelectual, argumenta.
*Estagiário sob a supervisão de Ana Sá
