Por Francisco Borges
A fragilidade científica das universidades brasileiras não decorre da falta de mérito acadêmico. Ao contrário, o país forma bons pesquisadores, produz conhecimento relevante e mantém ilhas de excelência reconhecidas internacionalmente. O problema é que se trata de uma arquitetura institucional marcada por incertezas, descontinuidades e ausência de visão de longo prazo.
Há, no entanto, uma exceção que merece destaque e, mais do que isso, replicação: o Estado de São Paulo. Ali, a ciência deixou de ser tratada como política circunstancial e passou a ocupar o lugar de política de Estado.
O modelo paulista se sustenta em uma estrutura mais bem articulada, baseada em financiamento estável, automático e protegido. As universidades estaduais operam com previsibilidade orçamentária e autonomia de gestão, o que permite planejamento estratégico consistente e continuidade de projetos científicos.
Esse arranjo produz efeitos estruturais claros e mensuráveis: previsibilidade real de recursos, não sujeita a contingenciamentos discricionários; autonomia administrativa que viabiliza decisões de longo prazo; e capacidade contínua de investimento em pesquisa, infraestrutura e formação de talentos.
O mesmo princípio se aplica à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), cujo orçamento está vinculado a um percentual constitucional da receita estadual. O resultado é um fluxo de financiamento estável e blindado, que sustenta a produção científica com consistência e qualidade.
Em termos simples, São Paulo resolveu um dos maiores dilemas da ciência brasileira e transformou o financiamento em política permanente. Não por acaso, lidera com folga os rankings acadêmicos nacionais, concentrando instituições como USP, UNICAMP e UNESP entre as melhores do país.
Enquanto isso, o restante do Brasil opera sob uma lógica oposta e estruturalmente frágil. Universidades e centros de pesquisa convivem com orçamentos sujeitos a cortes recorrentes, dependem de decisões anuais do Executivo e enfrentam baixa previsibilidade para planejamento. A consequência imediata se reflete em projetos interrompidos, equipes desmobilizadas e perda de capacidade competitiva.
O resultado não poderia ser diferente. O país apresenta excelência pontual, mas não sistêmica. Há bons pesquisadores, bons grupos e boas iniciativas, mas falta um projeto nacional de ciência e ensino superior. Falta financiamento estável, metas claras de desempenho, governança orientada a resultados e, sobretudo, integração efetiva com o desenvolvimento econômico.
Esse último ponto é particularmente crítico. Em um mundo cada vez mais orientado por tecnologia, dados e inteligência artificial, a desconexão entre universidade e setor produtivo representa não apenas uma ineficiência, mas uma perda estratégica de futuro.
O Brasil não precisa reinventar soluções, pois elas já existem dentro de casa. O desafio está em transformar casos de sucesso em modelo replicável. Isso passa, inevitavelmente, por algumas decisões estruturais.
É preciso instituir mecanismos de financiamento vinculados à receita, garantindo previsibilidade real e estabilidade institucional. É necessário expandir e fortalecer as Fundações de Amparo à Pesquisa em todos os estados, assegurando fluxo contínuo de recursos. Também é fundamental criar polos regionais de excelência, com escala e continuidade, capazes de competir globalmente.
Além disso, a avaliação do sistema precisa evoluir. É indispensável adotar métricas rigorosas, baseadas em dados, desempenho e impacto e não apenas em critérios formais. E, sobretudo, é urgente integrar universidades ao desenvolvimento econômico e tecnológico, com foco claro em inovação, produtividade e novas fronteiras como a inteligência artificial.
O diagnóstico, portanto, é conhecido. O Brasil não carece de talentos. Não carece de universidades. E tampouco carece de exemplos bem-sucedidos. O que falta é decisão política para transformar exceções em regra, descontinuidade em estratégia e potencial em resultado.
Sem isso, continuaremos presos a um paradoxo incômodo, o de ser país capaz de produzir conhecimento relevante, mas incapaz de sustentar, ampliar e transformar esse conhecimento em desenvolvimento consistente.
