CARTEIRA DE ESTAGIÁRIO

Daniella Veyga, primeira transexual na OAB de Mato Grosso

Estudante do 8º semestre de direito tirou a carteira de estagiário da Ordem dos Advogados do Brasil e celebra a conquista, que não é só dela, mas de toda comunidade trans

Isabela Oliveira*
postado em 09/10/2020 21:07 / atualizado em 13/10/2020 13:14
Daniella Veyga é a primeira mulher trans no quadro da OAB do Mato Grosso  -  (crédito: Arquivo Pessoal)
Daniella Veyga é a primeira mulher trans no quadro da OAB do Mato Grosso - (crédito: Arquivo Pessoal)

De acordo com pesquisa divulgada pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), a quantidade de pessoas transgênero assassinadas no primeiro semestre de 2020 aumentou em 39% em relação ao mesmo período no ano passado.


O preconceito, a violência e a falta de igualdade de oportunidades no mercado de trabalho, por exemplo, são barreiras que essas pessoas enfrentam diariamente. Contudo, as dificuldades não fizeram com que a estudante e transexual Daniella Veyga desistisse: ela é a primeira trans a se inscrever no quadro da Ordem de Advogados do Brasil (OAB) de Mato Grosso.

A estudante universitária de 26 anos se inscreveu para tirar a carteira de estagiário da OAB, um documento que dá todas as prerrogativas que os advogados têm aos estagiários para que comecem a exercer a profissão. O processo ocorreu há dois meses, com a entrega da documentação necessária e averiguação se ela estava apta. Na última terça-feira (6/10), Daniella recebeu a carteira e dedica a conquista a todas as transexuais que enfrentem preconceito. “Essa inscrição é de todas as mulheres trans. Aquelas que estão no caminho, e futuramente vão ter essa oportunidade, ou até mesmo aquelas que morreram, tiveram suas vidas tiradas por conta da violência”, explica a estagiária.

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. (foto: Arquivo Pessoal)


Agora, ela também pretende usar a inscrição na OAB como forma de fomentar as lutas sociais nas quais é envolvida, como membro da União da Juventude Social, na frente LGBT, e voluntária na Organização das Nações Unidas no Brasil. “Eu sempre utilizei das instituições do movimento social, de ONGs, da União Nacional dos Estudantes, e a partir de hoje eu vou começar a utilizar das instituições que são muito mais renomadas, como a OAB, para fomentar essa política da diversidade, da inclusão, para que cada dia mais pessoas LGBTs possam entrar na universidade”, afirma.


A carteira de estagiário da OAB permite que o estagiário possa exercer algumas atividades de advogado, como assinar petições, levantar alvarás, emitir guias e obter certidões. Além de oferecer todas as prerrogativas, para Daniella a carteira vem com um sentido: “Mostrar que as pessoas trans estão presentes”.

Leonardo Campos, presidente da OAB-MT, afirma que a Ordem é a casa das minorias
Leonardo Campos, presidente da OAB-MT, afirma que a Ordem é a casa das minorias (foto: OAB-MT/Divulgação)


Para o presidente da OAB-MT, Leonardo Campos, a conquista da Daniella espelha a horizontalidade e diversidade da instituição. “Aqui, nós trabalhamos com a pluralidade e com o respeito da pessoa ser o que ela realmente quer ser”, assegura o presidente da Ordem. “Nós, efetivamente, cumprimos esse pilar e acolhemos.”


“Eu abri a porta”


Por ser a primeira a estar inscrita no quadro da OAB-MT, Daniella conta que abriu uma porta, mas quer que ela seja ampliada cada vez mais. Após receber a carteira, fez uma postagem nas redes sociais que teve grande repercussão. “Isso é para que outras meninas possam ver em meu rosto a esperança que elas estavam precisando para que possam voltar a estudar ou que não desistam dos estudos”, explica Daniella. “Quando a gente falar de pessoa trans que é para remeter somente à narrativa da violência, mas que possa vir à mente das pessoas as histórias de superação.”


O presidente da OAB-MT também reforça que a Ordem acolheu e abraçou a Daniella, e querem que outros estudantes e profissionais do direito trans se sintam confortáveis e livres para fazer o mesmo. “A Daniella vai incentivar outras pessoas que, muitas vezes, têm constrangimento por receio de se inscrever na OAB com base na sua identidade”, afirma Campos.


A Ordem tem uma Comissão de Diversidade responsável por cuidar e promover a questão, como a inclusão do nome social no sistema da OAB e organização de conselhos para discussão da pauta. “É aqui que elas encontram guarita, proteção e encontram o respaldo condicional para equilibrarmos qualquer eventual preconceito ou desigualdade. A Ordem é a voz das minorias e a caixa da ressonância daqueles que não podem falar”, conclui o presidente, Leonardo Campos.


Superação

Durante a adolescência, momento que Daniella começou a transição de gênero, ela passou por diversas dificuldades, desde condição financeira da família até preconceito dentro da escola. Escolheu o curso de direito por ser uma profissão que defende o que é justo. A família não tinha como pagar uma universidade particular, por isso, ela se esforçou para garantir uma bolsa do Prouni. Inclusive, teve muitas portas fechadas no mercado de trabalho.Mas, atualmente, trabalha em um ambiente acolhedor e diverso.


Daniella Veyga é estagiária de um escritório de advocacia em Cuiabá, que é referência em diversidade. Para o futuro, ela espera concluir o curso, ter registro definitivo na Ordem para advogar ou fazer algum concurso público, para defender as pessoas que precisam. “Quero que seja uma profissão que eu possa utilizar dela para fazer o bem de quem tanto necessita”, finaliza a estudante.


*Estagiária sob supervisão da editora Ana Sá

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