COLUNA SABER

O culto ao empreendedorismo — fetiche e realidade

A taxa de mortalidade de negócios é alta: entre startups que receberam investimento, 78% vão à falência. É preciso fugir de idealizações sobre empreender

Ana Machado
colunista
postado em 06/09/2020 16:06 / atualizado em 06/09/2020 17:37
 (foto: Tobias Schreiner/Divulgação)
(foto: Tobias Schreiner/Divulgação)

Ana Machado é mestra em educação pela Universidade Stanford, especialista em psicossociologia da juventude e políticas públicas pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FEPSP) e bacharel em marketing pela Universidade de São Paulo (USP)

Na última década, a palavra empreendedorismo e seus derivados (empreendedor/empreendedora) foram elevados ao status do que há de mais satisfatório, reconhecido e recompensador no mundo do trabalho. Ter uma ideia inovadora para resolver um problema real, identificar potenciais clientes, formatar a solução em um modelo de negócio escalável e lucrativo, captar investimento, crescer de forma acelerada e tornar-se um unicórnio (empresas com valor de mercado superior a US$ 1 bilhão)...

O processo de começar uma empresa — startup, em inglês — pode até não ser tão linear assim, mas este é o sonho grande vendido para os aspirantes a fundadores de negócio. Os casos de sucesso são poucos, com altas taxas de mortalidade das empresas no Brasil e no mundo, mas a narrativa dos que dão certo é sedutora. Os melhores exemplos reais que temos trazem um objetivo, que está distante da maioria, para perto de nossa realidade.

Entre eles, o estudante que programou e lançou a principal rede social do mundo dentro do dormitório na universidade; os bilionários das empresas de tech que andam de jeans, tênis e camiseta; jovens com ideias brilhantes que criam e tocam negócios antes de obterem um diploma. Esses modelos dos que deram certo são apresentados constantemente como fonte de inspiração, aprendizado e evidência de que é possível.

Deste modo, nossa visão sobre empreendedorismo é obstruída por uma lente que distorce a realidade. Subestimamos indicadores de fracasso, como o dado de que 78% das startups brasileiras que receberam investimento inicial (capital semente /seed money) simplesmente morrem, de acordo com a ACE Startups, principal aceleradora do país.

Preferimos nos deixar levar pelo canto da sereia, acreditando que o empreendedorismo é a saída para os principais e mais complexos problemas coletivos e individuais. Ao fazer uma análise menos emocional e mais racional, percebemos que as chances de alguém fundar um negócio bilionário antes de terminar a universidade, ou até mesmo depois de obter um diploma, são mínimas.

Simplificações

Thiago Fagundes
Thiago Fagundes (foto: Thiago Fagundes)

Há uma tendência atual em diferentes setores de oferecer o empreendedorismo como principal resposta para resolver problemas complexos em sua área. Os estudantes não estão engajados com a escola? Empreendedorismo. O desemprego está alto? Empreendedorismo. A maioria dos brasileiros não tem condições básicas de viver com dignidade? Empreendedorismo! O termo ganhou um significado muito maior do que sua mera definição no dicionário. O principal fetiche contemporâneo é empreender.

Este movimento de culto ao empreendedorismo foi criado de forma não orquestrada, mas convergente, por diferentes atores. Dos gurus da inovação, passando pelos empreendedores de palco (aqueles que investem mais tempo palestrando sobre seu negócio do que de fato trabalhando nele) e culminando nos falsos profetas do empreendedorismo — figuras que se tornam famosas na web e nas mídias tradicionais transmitindo mensagens motivacionais e lições sobre como abrir uma empresa, mas são desmascarados por notícias controversas questionando a coerência entre aquilo que pregam e o que fazem.



Idealização

O cenário macroestrutural (político, social e econômico) também contribui para o fetiche do empreendedorismo. Em uma sociedade capitalista, a resposta para os desafios que enfrentamos passa pelo indivíduo e seu poder de transformar a realidade ao seu redor. É como se todos os problemas mais complexos da atualidade pudessem ser sanados por uma combinação de boas intenções, novas ideias para enfrentar questões estruturais e um modelo de negócios que traga sustentabilidade financeira. Essa é a receita mágica, e relativamente simples, dominante em nosso imaginário coletivo atual.

Eu já estive do outro lado do balcão dessa discussão, com o chapéu de empreendedora de um negócio de impacto social em educação bem-sucedido que co-fundei quando ainda estava na universidade. E, por isso mesmo, posso dizer com alguma experiência acumulada e propriedade: abrir uma empresa não irá solucionar os problemas da sua vida, nem do Brasil, quiçá do mundo. Aos que são jovens e estão começando a carreira, aos que têm experiência profissional acumulada em sua área de atuação e a qualquer pessoa que se interesse pelo tema empreendedorismo, fica a minha sugestão: supere o fetiche e busque a realidade.

Os empreendedores oferecem uma contribuição importante à sociedade, geram inovação e empregos, mas não são mais importantes ou necessários do que políticos, juízes, professores, médicos, ou até mesmo funcionários de empresas fundadas por eles e elas. Os principais problemas do nosso tempo não serão resolvidos apenas por meio do empreendedorismo, nem majoritariamente pelos empreendedores, mas por construções conjuntas e democráticas entre academia, setor público, iniciativa privada e organizações da sociedade civil, com participação cidadã em decisões coletivas.

Saiba mais: E-mail: anamach@stanford.edu — Instagram: @abouteducation


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A cada primeiro domingo do mês, a Coluna Saber, de Ana Machado, abordará temas relacionados à educação e ao mercado de trabalho, sempre com base em conhecimentos científicos. Acompanhe o próximo quadro em 4 de outubro!

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