Pretos no topo

Índice mostra que negros são minoria em cargos de chefia

A coluna deste mês aborda dados do Índice de Inclusão Racial Empresarial, histórias inspiradoras e dicas de leitura e filmes sobre o universo negro

Ana Paula Lisboa
Isabela Oliveira*
Talita de Souza *
postado em 18/04/2021 15:48 / atualizado em 19/04/2021 15:18
Os negros conseguiram estudar mais, mas esse aumento não se refletiu nas ocupações. Eles são minorias em cargos de chefia e aparecem como maioria apenas entre aprendizes -  (crédito:  Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial/Divulgação)
Os negros conseguiram estudar mais, mas esse aumento não se refletiu nas ocupações. Eles são minorias em cargos de chefia e aparecem como maioria apenas entre aprendizes - (crédito: Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial/Divulgação)

O último Índice de Inclusão Racial Empresarial (IIRE) mostrou que os negros ocupam 4,7% dos quadros de executivos. Nos cargos de gerência, eles representam 6,3% do total. Os pretos e pardos são maioria entre os aprendizes: 57% do total. Na política, 75,6% dos deputados federais eleitos em 2018 são brancos e apenas 24,4% são pretos ou pardos.

O IIRE é um instrumento criado para mensurar dados e fomentar soluções efetivas de combate às desigualdades raciais no mercado de trabalho brasileiro, trazendo um retrato da desigualdade racial em aspectos como mercado, educação, violência e política. O índice é organizado pela Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial, que representa uma plataforma de articulação entre empresas comprometidas com o tema.

“O governo fez a parte dele garantindo o acesso de negros ao ensino superior (o número quadruplicou desde que começaram os programas de ações afirmativas). Temos mais de 2 milhões de jovens negros no ensino superior. A justificativa de muitas empresas para não contratar negros é que não tinha negros no ensino superior”, comenta Raphael Vicente, coordenador da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial em São Paulo (SP) e coordenador da Universidade Zumbi dos Palmares.

“Mudou-se o cenário, mas os negros continuam excluídos. A gente entende que um dos principais fatores é o racismo”, reflete. É para mudar essa realidade que a iniciativa recrutou mais de 70 entidades e organizações signatárias, que são estimuladas a cumprir 10 compromissos com a promoção da igualdade. Confira para saber se sua empresa já é inclusiva:


1) Comprometer-se (presidência e executivos) com o respeito à promoção da igualdade racial.

2) Promover igualdade de oportunidades e tratamento justo a todas as pessoas.

3) Promover ambiente respeitoso, seguro e saudável para todas as pessoas.

4) Sensibilizar e educar para o respeito e a promoção da diversidade racial.

5) Estimular e apoiar a criação de grupos de afinidade sobre diversidade racial.

6) Promover o respeito à diversidade racial na comunicação e marketing.

7) Promover o respeito a todas as pessoas no planejamento de produtos, serviços e atendimento aos clientes.

8) Promover ações de desenvolvimento profissional para se alcançar a igualdade racial no acesso a oportunidades de trabalho e renda.

9) Promover o desenvolvimento econômico e social na cadeia de valor dos segmentos étnico-raciais em situação de vulnerabilidade e exclusão na cadeia de valor.

10) Promover e apoiar ações em prol da igualdade racial no relacionamento com a comunidade


Três perguntas para / Raphael Vicente

Como surgiu o movimento Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial?
A iniciativa surgiu em 2015 justamente por causa de uma inquietação com a falta de inclusão empregatícia de negros. Então, como o mercado de trabalho é um grande agente de transformação, chamamos empresas para superar desafios. Começamos com oito empresas e chegamos a mais de 70. A iniciativa é formada por comissões e comitês para discutirmos, junto às empresas, a superação do racismo. Hoje, temos um instrumento para mensurar para onde estamos indo e como as empresas estão se comportando com o Índice de Inclusão Racial Empresarial (IIRE).

O que se destaca nos resultados do IIRE?
De fato, as empresas estão trabalhando muito na sensibilização interna e externa, se empenham nessa tarefa da diversidade. Ainda continua o grande desafio da ascensão do profissional negro. É o pilar com pior média. O trabalho começou, mas tem muita coisa pela frente.

Como os dados podem contribuir para o fomento da diversidade nas empresas?
O mais importante, além dos dados, é o resultado final. Você consegue ver os dados agrupados, mas cada empresa recebe um comparativo de seus resultados versus a média geral da iniciativa. Além disso, sem planejamento claro, objetivo, metas definidas e sem alocação de recursos financeiros, dificilmente a temática da inclusão racial caminha dentro das corporações.


Inspire-se!

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. (foto: Arquivo Pessoal)

Do assentamento para o direito

Nicolas do Nascimento Santos, 21 anos, representa a importância das políticas públicas. Estudante de direito da Universidade Federal de Goiás (UFG), com formatura prevista para 2022, conquistou a aprovação no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Como advogado, terá como meta defender a classe trabalhadora. O jovem passou a maior parte da vida em assentamentos do Movimento Sem Terra (MST) junto à família e, por meio das ações educacionais do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), conseguiu uma vaga na UFG. O Pronera promove o ensino básico em áreas de reforma agrária desde 1998.

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. (foto: Sim A Igualdade Racial/Divulgação)

Filósofa e ativista reconhecida

A filósofa e ativista do feminismo negro no Brasil Sueli Carneiro foi a ganhadora do prêmio Kalman Silvert Award 2021, promovido pela Associação Latinoamericana de Estudos (Lasa). A premiação reconhece pessoas que proporcionam contribuições significativas ao mundo por meio dos estudos feitos por elas. A entidade afirmou que Sueli foi premiada “por sua vasta produção acadêmica centrada nas relações raciais e de gênero, bem como pelo seu destacado compromisso no âmbito das políticas educativas”.

Leia!

Felipe Möller é escritor,
influenciador digital e idealizador do perfil no Instagram @fabricadementes

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. (foto: Victor Stelutto/Divulgação)



Fábrica de motivação e positividade

Fazer com que as pessoas, antes sem norte, possam continuar caminhando na vida. Essa é a proposta que o influenciador digital Felipe Möller deseja transmitir com o Instagram @fabricadementes. Felipe sempre gostou de postar mensagens motivacionais nas redes sociais, até que deixou de ser o “chato motivacional” entre os amigos e resolveu criar um perfil para levar positividade e conhecimento para as pessoas.

Antes de alcançar mais de 1 milhão de seguidores, o influenciador se escondeu por quase três anos, interagindo com os seguidores apenas por textos e áudios com receio do que pensariam sobre ele: um homem preto, de tatuagens e piercing. “Fiquei com muito medo durante muito tempo, mas o público começou a perguntar quem eu era e fui surpreendido”, conta o influenciador.

Depois de postar uma foto com a esposa pela primeira vez, ele foi ainda mais bem recepcionado pelo público. “Eu entendi que tenho que tomar posse da minha vida e isso gerou muita conexão”, conta.

Após fazer mais de 5 mil postagens, ele recebeu um convite para publicar um livro pela editora Gente. A obra reúne histórias e contos de sete personagens fictícios para gerar empatia e identificação pelos leitores. Os textos giram em torno do tema: as escolhas que precisamos fazer para conquistar nossos sonhos.

Leia!

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. (foto: Editora Gente/Reprodução)

O óbvio que você deixa passar: A resposta que sempre buscou pode estar mais perto do que imagina
Autor: Felipe Möller
Editora: Gente
192 páginas
R$ 39,90


DIVERSIDADE

Leia!

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. (foto: Editora Leader/Reprodução)

Revolução 50+: a diversidade, a inclusão e a ampliação do empreendedorismo com propósito através de histórias
Coordenação: Betty
Dabkiewicz e Andréia Roma
Editora: Leader
R$ 74,90

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. (foto: Benvirá/Reprodução)


Inclusifique: como a inclusão e a diversidade podem trazer mais inovação à sua empresa
Autora: Stefanie K. Johnson
Editora: Benvirá
264 páginas
R$49,90

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. (foto: Companhia das Letras/Reprodução)


Por um feminismo afrolatinoamericano
Autora: Lélia Gonzalez / Organização: Flávia Rios e Márcia Lima
Editora: Companhia das letras
376 páginas
R$ 59,90


BIOGRAFIAS

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. (foto: Expressão Popular/Reprodução)

Luiz Gama: o libertador de escravos e sua mãe libertária, Luíza Mahin
Autor: Mouzar Benedito
Editora: Expressão popular
PDF gratuito em bit.ly/LuizGamaPDF

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. (foto: Companhia das Letras/Reprodução)


Sonhos do meu pai: uma históriasobre raça e legado
Autor: Barack Obama
Editora: Companhia das letras
520 páginas
R$ 84,90/R$ 39,90 (versão Kindle)

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. (foto: Objetiva/Reprodução)

Minha história
Autora: Michelle Obama
Editora: Objetiva
464 páginas
R$ 31,90

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. (foto: Record/Reprodução)

Muhammad Ali: uma vida
Autor: Jonathan Eig
Editora: Record
770 páginas
R$ 109,90/R$ 85,40 (versão Kindle)


NÃO FICÇÃO

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. (foto: Boitempo/Reprodução)

Minha carne: diário de uma prisão
Autora: Preta Ferreira
Editora: Boitempo
224 páginas
R$ 49


FICÇÃO

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. (foto: Editora Arqueiro/Reprodução)

Na corda bamba
Autora: Kiley Reid
Editora: Arqueiro
320 páginas
R$ 32,40/R$ 16,11 (versão Kindle)


Assista!

Cinco diretoras negras para seguir

Que tal apoiar jovens diretoras negras que tem atuado na cena cinematográfica brasileira? O projeto Verberenas, iniciativa que promove diálogos sobre cinema e cultura audiovisual, indicou cinco diretoras negras para quem ama cinema seguir, no Instagram, e acompanhar os lançamentos. Confira:

1) Larissa Fulana de Tal (@olhosabertosaudiovisual)

2) Everlane Moraes @everlane.moraes Dirigiu Caixa D’a´gua: quilombo e´ esse? (2013) e Pattaki (2018).

3) Viviane Ferreira (@aquatuny)

4) Sabrina Fidalgo@sabrinafidalgoo

5) Yasmin Thayna @yasminthayna


Acesse!

Você conhece a Alma Preta? A agência de jornalismo especializado na temática racial foi criada em 2015 por um grupo de jovens comunicadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e tem ganhado espaço no cenário midiático brasileiro. Acesse: almapreta.com

Aguarde!

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. (foto: Audalio Dantas/O Cruzeiro/EM)

Mostra sobre Carolina Maria de Jesus
A escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977), autora de Quarto de despejo: diário de uma favelada, ganhará uma exposição no Instituto Moreira Salles (IMS) da Avenida Paulista, em São Paulo, entre 12 de junho e 7 de novembro de 2021. A mostra apresentará a vida e a obra da autora como mulher negra e artista emancipada.

 

*Estagiárias sob supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa

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