Eu, Estudante

Pretos no topo

Negros conquistam lugar de destaque nas Olimpíadas de Tóquio

Esporte não deve ser alienação e, sim, espaço de luta

A chegada de mais, e diversos, brasileiros ao pódio das Olimpíadas de Tóquio é, para Neilton Ferreira Júnior, reflexo de um movimento que soma a descentralização de políticas públicas de incentivo ao esporte e uma produção teórica e prática, principalmente nas escolas, que têm ampliado as perspectivas sobre as atividades esportivas. “Acho que passamos a entrar em um momento muito bom de experimentação. Já é um momento diferente do da esportivização, do militarismo, das ginásticas como base de estruturação da linguagem corporal”, avalia o integrante do Grupo de Estudos Olímpicos da Universidade de
São Paulo (USP).

Nesse contexto, o debate racial se torna imprescindível, defende o pesquisador. “O esporte não é um dado da natureza em que o racismo aparece. A forma como o esporte está instituído não só reproduz como é altamente tolerante à violência racial. É preciso que, ao falarmos sobre racismo, a gente também fale sobre o esporte.” Neiton investiga, em seu doutorado, as trajetórias olímpicas negras do Brasil, buscando identificar e interpretar como se configuram os processos de luta e resistência antirracista, o que chama de olimpismo negro. Ele falou à coluna sobre este momento especial. Confira os principais trechos da entrevista.

Ricardo Befolin//CB/D.A Press - Rebeca Andrade

Daniel Leal-Olivas/AFP - Paulinho

As Olimpíadas terminam com uma participação histórica do Brasil e atletas negros e negras se destacando em esportes individuais. Quais as razões e os possíveis desdobramentos?
Isso é desdobramento de um processo iniciado nos anos 2000. Temos a ascensão de um governo atrelado ao interesse da classe trabalhadora que contribuiu bastante para o investimento no esporte em aspectos muito mais relacionados a questões de reconhecimento do que só de distribuição. Embora a Constituição advogue o esporte como um direito para todos, isso não funciona sem uma política sensível às especificidades do Brasil. Este momento celebra a necessidade e uma prática política que permitiu que essas coisas acontecessem. O esporte se estruturou, saiu um pouco do eixo sudeste, foi um pouco para o nordeste e se ampliou nisso. Não temos referências de pesquisa que mostrem como é que isso afetou as gerações que estão ganhando medalhas, mas é um indicador importante. Podemos trabalhar com essa hipótese, uma vez que, sem as políticas públicas, não conseguiríamos atingir os campões, as periferias, onde está a maioria do nosso povo. O segundo elemento é uma ação protagonizada, no PT, pelo movimento negro, que pensou políticas públicas de forma que pudessem se espraiar para outros campos ou, estando nas metrópoles, pudessem se distribuir para periferias.

Pedro Pardo/AFP - Fernanda Garay

Javier soriano/AFPO - Alison dos Santos

E a repercussão disso para as próximas gerações?
A visibilidade dessas pessoas protagonizando um espetáculo internacional permite com que a relação estabelecida com eles também seja de pensar o nosso espaço, o nosso lugar, de nos pensarmos. O que tem acontecido com esses protagonistas negros e negras é um processo que sensibiliza o olhar, não só alimentando o desejo do fazer igual, influenciando nossas perspectivas, mas também levando a gente a olhar para o nosso território e a pensar a partir da necessidade de mais políticas públicas. Então, uma comunidade que tem o atleta que ganhou medalha passa a se sensibilizar para a necessidade de melhoria do que já tem e de uma política de presença, de infraestrutura, que permita com que as pessoas experimentem os esportes não só para virarem atleta profissional, mas pelo exercício do direito. Talvez, o maior crime da nossa sociedade seja racionar a riqueza, que também é imaterial, das práticas e vivências que permitem com que homens, mulheres, negros e negras possam falar sobre si a partir de outras perspectivas e linguagens.

Wander Roberto/COB - Hebert Conceição

Abelardo Mendes Jr/rededoesporte.gov - Ketleyn Quadros


Entram nessa discussão os discursos que associam determinado esporte a um tipo de atleta, considerando sua cor, seu gênero?
O esporte precisa se ampliar suficientemente para poder abarcar as diversidades. Quando ele vem até nós, no fim do século 19, chega como cultura superior, era, inclusive, sinônimo de modernização. Ele se distribuiu para uma classe burguesa, de pele branca, que já estava instalada nas metrópoles, com condições dentro dos clubes, das associações, para poder vivenciar isso. Ao mesmo tempo, o esporte se distribuiu a partir de uma noção de modernização do gestuário nacional. Nesse caso, veio como uma forma de imposição, das ginásticas, de práticas adotadas nas escolas para fazer com que os filhos da classe trabalhadora se higienizassem, se desenvolvessem para o mercado de trabalho. Ou seja, o esporte vem com negação, chega trazendo no ventre ideias racistas. Temos ainda um imaginário de que é um espaço de verificação de desempenho. Tudo isso traz interpretações baseadas em pressupostos racistas. Então, vou distribuir negros nas pistas e brancos nas piscinas. E, mais pra frente, vou desenvolver estudos para poder afirmar que brancos são melhores nas piscinas e negros, em esportes de velocidade e de potência.

Daniela Porcelli/CBF - Formiga

Philip Fong/AFP - Isaquias Queiroz

Esses filtros acabaram se institucionalizando, guiando a oferta de oportunidades...
Primeiro com esse processo de seleção do que é mais importante, e do qual a gente não participa. Se olharmos a série de políticas de esporte, destina-se muito mais recursos para os de alto rendimento. E as atividades de identidade nacional, como a capoeira, são colocadas em último plano. São reconhecidas, mas recebem um valor pífio. Existe uma hegemonia nas linguagens dos esportes, mas acho também que temos avanços importantes nas escolas. Pegamos a herança de uma teoria crítica da educação física, no fim do século 20, feita muito bem por professores brasileiros. Logo depois, pegamos a época da discussão sobre a necessidade do ensino da cultura e da história afro-brasileira e indígena. A gente passa a ter uma herança teórica e política que nos ajuda a pensar pedagogias e outras formas de abordar o esporte. Acho que passamos a entrar em um momento muito bom de experimentação. Já é um momento diferente do da esportivização, do militarismo, das ginásticas como base de estruturação da linguagem corporal.


E no esporte profissional? Como esses atletas têm lidado com as questões raciais?
Como olhamos para o fenômeno aqui é muito amparado pela forma como os meios de comunicação abordam a luta antirracista lá fora. Isso acaba atribuindo aos nossos atletas algum tipo de passividade. Na verdade, eles estão em uma relação em que a gramática da relação laboral praticamente não existe. Existe a gramática da ontologia empresarial, mas não a dos direitos. Essa falta de repertório impede com que os atletas construam ações mais coletivas, para poder despersonalizar o seu protesto. Uma coisa é certa, em toda a história do esporte brasileiro, não houve atleta que não resistiu ao racismo. Só que são manifestações inevitavelmente individuais, porque a forma como o esporte aqui se constituiu desprezou ou subtraiu das relações a gramática dos direitos, da possibilidade de formação de associações de atletas, de maneira que a gente só os percebe sozinhos ou como o “malandro” que não fala para não prejudicar a carreira. Toda vez que a gente só denuncia, excluímos o filé. O filé é o que é o esporte. O esporte não é um dado da natureza em que o racismo aparece. A forma como o esporte está instituído não só reproduz, como é altamente tolerante à violência racial. É preciso que, ao falarmos sobre racismo, a gente também fale sobre o esporte.

Como fazer diferente?
Não precisa ser um ambiente restrito a clubes, por exemplo. Temos clubes judeus, alemães, italianos, mas não temos um clube preto. O que aconteceu na nossa formação social que não permitiu com que a gente encontrasse associações de preservação da cultura negra, inclusive a esportiva, como aconteceu, por exemplo, na África do Sul? Aquela divisão racial não só produziu discriminação legalizada, produziu também uma luta que permitiu que as elites negras se constituíssem nos seus clubes, nas suas associações. Isso é importante. Se não pensarmos o esporte, vamos continuar defendendo a ideologia da não ideologia no esporte. Para sair da denúncia do racismo, vamos discutir a tecnologia, em que território o esporte está localizado, por que instituições ditas abertas para os mais pobres são instaladas em regiões em que é quase impossível chegar de ônibus, por que negros não estão velejando.


É uma mudança de base…
Sim, porque a forma como o esporte se constituiu no Brasil o tornou extremamente tolerante à violência racial. Então, falar de racismo no esporte é, antes de mais nada, falar de esporte, falar do significado do esporte, falar da sua função social e falar da necessidade da sua democratização radical. Fanon (Frantz Fanon, intelectual negro) diz que o esporte entrou para ser uma espécie de diversão para as burguesias, veio para ser um instrumento de exclusão. Segundo ele, o homem africano não deve se preocupar em fazer esportistas. O esporte deve permitir que a gente se sensibilize para perceber, a todo momento, o que se passa entre nós. Ele veio para ser a alienação, quando, na verdade, deve ser um instrumento de luta, uma arma contra o racismo.


Participe

Trainee e estágio no Grupo Boticário

Arquivo Pessoal - .

Há 65 vagas abertas em seleção de estágio e trainee do Grupo Boticário, que tem a expectativa de preencher ao menos a metade delas com candidatos autodeclarados pretos ou pardos. Também chamam a atenção do Programa Geração B a possibilidade de, em algumas áreas, fazer o estágio remotamente e a não exigência de proficiência em língua inglesa, como política para diminuir as barreiras de entrada na empresa. Candidatos a estágio precisam estar matriculados no ensino superior, cursando os últimos dois anos (formatura entre dezembro de 2022 e dezembro de 2023). Já os interessados nos postos de trainee devem ter se formado há até dois anos, entre dezembro de 2019 e dezembro de 2021. O grupo oferece salário de R$ 2.068 (estágio) e R$ 7.000 (trainee), além de benefícios como mentoria de carreira. Inscrições no site www.eufacobonito.com.br.


Inspire-se

Marielle Franco em HQ

Reprodução - .

Uma das principais missões do Instituto Marielle Franco, criado após o assassinato da então vereadora, em 2018, é fazer com sua história continue inspirando pessoas de todas a idades. Lançada no fim do mês passado, quando a carioca completaria 42 anos, a HQ Marielle Franco – Raízes tem tudo para impulsionar esse plano. A primeira edição traz as origens da família de Marielle e a trajetória percorrida por ela até se formar em ciências sociais. Novos volumes darão continuidade a outros momentos da vida dessa mulher que transbordou fronteiras. A HQ foi escrita, desenhada, colorida e diagramada por um time de profissionais 100% negros e pode ser baixada gratuitamente no site do instituto: https://www.institutomariellefranco.org/hq.

Luiz Gama no cinema

Expressão Popular/Reprodução - .

Desconhecido por boa parte dos brasileiros, Luiz Gama trilhou uma trajetória marcante para a história do país, contada, agora, no longa Doutor Gama. Filho de uma escrava liberta com um descendente de português, Gama nasceu livre, em Salvador, em 1830. Ainda criança, foi vendido pelo pai como escravo para pagar dívidas de jogos. Fugiu aos 18 anos, começou a estudar direito, de forma autodidata, e se transformou em defensor de escravos — estima-se que conseguiu alforriar mais de 500. Um dos principais nomes do movimento abolicionista só foi reconhecido advogado 133 anos depois de sua morte, em 1882. E segue fazendo história: em julho último, se tornou Doutor Honoris Causa da Universidade de São Paulo (USP) pelas contribuições para as áreas de direito, literatura e jornalismo. O baiano é o primeiro brasileiro negro a receber o título.