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Como sair do desemprego? Especialistas dão dicas para conquistar uma vaga

Na última semana, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou dados recentes em relação ao desemprego. A taxa caiu, mas continua alta. Profissionais em recursos humanos dão dicas de como conquistar colocação no mercado de trabalho

Ana Luisa Araujo
postado em 06/09/2021 19:00 / atualizado em 06/09/2021 19:00
Desemprego tem queda tímida e ainda é problema para mais de 14 milhões de brasileiros. Confira dicas imperdíveis para conseguir uma vaga no mercado de trabalho -  (crédito: Minervino Junior/CB/D.A. Press)
Desemprego tem queda tímida e ainda é problema para mais de 14 milhões de brasileiros. Confira dicas imperdíveis para conseguir uma vaga no mercado de trabalho - (crédito: Minervino Junior/CB/D.A. Press)

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou, na última semana, a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), que a taxa de desemprego caiu 0,6 pontos no segundo trimestre de 2021.


A Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan) revelou que a desocupação na capital do Brasil passou de 19,6% para 18,2%. Somente o setor de serviços, aumentou em 2,1% o número de empregados. A notícia, apesar de boa, não anula o fato de que a desocupação ainda é um problema para 14,4 milhões de pessoas, ou 14,1% da população brasileira.

O índice de subutilização também é preocupante e está em 28,6%. Essa categoria engloba desocupados, subocupados por insuficiência de horas e pessoas que têm força de trabalho em potencial. Em outubro de 2019, essa taxa era de 23,3%. Ou seja, houve crescimento de mais de 5 pontos em menos de dois anos. O número de desalentados — brasileiros que desistiram de procurar vaga — permaneceu em 5,6 milhões.

Angelina Assis garante que as entrevistas estão mais dinâmicas
Angelina Assis garante que as entrevistas estão mais dinâmicas (foto: Arquivo Pessoal)

Angelina Assis, gerente de relacionamento com os clientes da empresa Grupo Soulan RH, explica que a tendência de queda no desemprego deve continuar nos próximos meses, devido ao aquecimento do mercado, que, geralmente, ocorre no fim do ano. Nesta época, segundo ela, a economia tem mais circulação de dinheiro por conta do décimo terceiro salário. “Podemos chamar de sazonalidade. O comércio, a indústria de bens de consumo e o setor de serviços, de forma geral, lucram bastante”, afirma.

A especialista explica que aquele que busca emprego precisa estar atento e conectado aos sites: vagas.com, Infojobs e LinkedIn. As buscas de recrutadores ocorrem por meio desses e de outros canais de divulgação. Angelina deixa conselhos valiosos para quem tenta colocação no mercado de trabalho. O primeiro deles é ser consciente das próprias limitações e fraquezas, porque, a partir disso, fica mais fácil filtrar e encontrar oportunidades que têm relação com o perfil do candidato.

Além disso, a executiva explica que, apesar de as entrevistas estarem ocorrendo de forma on-line, é preciso entender que esse é um ambiente profissional. Portanto, é essencial o cumprimento do horário. O indivíduo, na hora da entrevista, não pode deixar de destacar o que é mais relevante para aquela oportunidade e responder de forma objetiva e clara. “Hoje, o mercado sofre mudanças aceleradas. Quando você pensa que se preparou e está bem, é bombardeado por novas demandas de qualificação e tecnologia. O aprendizado é contínuo”, garante.

A gerente de relacionamento no Grupo Soulan RH afirma que as entrevistas não estão mais difíceis na pandemia, mas a dinâmica mudou. Muitas pessoas não estão familiarizadas com as ferramentas e plataformas, outras se sentem inibidas diante de uma câmera. “É nosso papel, como RH, acolher e deixar a pessoa à vontade para que ela possa se expressar e mostrar seu perfil”, diz.

Unanimidade entre especialistas

Jefferson Vendrametto é diretor de relações internacionais no Cebrac
Jefferson Vendrametto é diretor de relações internacionais no Cebrac (foto: Arquivo Pessoal)

Inteligência emocional e habilidades comportamentais ganha, cada vez mais, relevância nos recrutamentos, e há explicação para isso. Com o avanço das tecnologias digitais, que permeiam o cotidiano do trabalho, empresas requerem, com mais frequência, profissionais dispostos a mudanças. Por isso, muitas vezes, um empregador vai preferir pessoas com menos habilidades técnicas, porém mais flexíveis.

Para Angelina Assis, gerente de relacionamento com os clientes da empresa Grupo Soulan RH, o que move um indivíduo a ter postura de desenvolvimento são aspectos comportamentais. “Hoje, há empresas em que o valor principal está ligado a ter habilidades de comportamento. A parte técnica já será desenvolvida, mas é fundamental que o profissional proponha e aceite a mudança como algo natural. Além disso, é preciso sugerir soluções para esse ambiente de mudança e ter atitude positiva”, afirma.

Jefferson Vendrametto, diretor de relações internacionais do Centro Brasileiro de Cursos Profissionalizantes (Cebrac), concorda com a visão de Angelina. O paulista acredita que, principalmente depois da pandemia, qualidades como empatia serão mais bem-vistas pelos recrutadores.

“O processo e a inteligência emocional foram e continuarão sendo cada vez mais importantes", arremata. Exercitar o autodesenvolvimento, se conhecer cada vez mais e saber apurar os acontecimentos é essencial, mesmo dentro do sistema de home office. Para Jefferson, saber se desenvolver individualmente e conseguir se relacionar com as pessoas de forma tranquila precisam ser habilidades em destaque na hora da entrevista.

As chamadas soft skills, ou habilidades interpessoais, são as que mais pesam na hora da contratação, de acordo com Sérgio Garcia, gerente executivo de gestão de pessoas da Bancorbrás. “Competências comportamentais são as mais relevantes na entrevista, como flexibilidade, capacidade relacional, comunicação, autoconhecimento, atitude positiva, inteligência emocional, trabalho em equipe, pensamento crítico, integridade e etc”, destaca.

O gerente da Bancorbrás ressalta que a experiência consolidada é observada posteriormente, e o que é avaliado por último são as hard skills, ou habilidades difíceis, como formação e qualificação.

13 anos de experiência

Marcio desde janeiro não foi chamado para nenhuma entrevista
Marcio desde janeiro não foi chamado para nenhuma entrevista (foto: Minervino Junior/CB/D.A. Press)

Marcio Pinheiro, 39 anos, está desempregado há oito meses. No início da pandemia, trabalhava como empreendedor: era dono de loja de maquiagem em Valparaíso (GO). Foi empregado da área de segurança por 13 anos, até que, em fevereiro de 2019, foi demitido.

O ex-vigilante, natural de Recife, trabalhou em diversas empresas, inclusive de Pernambuco, antes de vir para Brasília. Aqui, fez parte da Confederal e da Visan. Na última, esteve até o início de 2019.

O trabalhador conta que, assim que abriu a loja de maquiagem, teve grande aceitação do público. No entanto, com a chegada da pandemia, as vendas diminuíram, e o que ele ganhava passou a se equiparar ao salário de vigilante. A partir desse ponto, não conseguia vender o suficiente nem para passar o mês e teve que abrir mão do estabelecimento.

Atualmente, Marcio mora com a mulher, que é pedagoga, em Águas Claras. À época, vivia em Valparaíso. Além de ter de lidar com as contas do dia a dia, o trabalhador tem um filho de 15 anos, em Recife.

Marcio resolveu abrir a loja, dois meses depois de perder a vaga de
vigilante. Sua meta era fazer desse empreendimento fonte do sustento dele. Para alavancar o início do negócio, usou o dinheiro da indenização que havia recebido. Seus planos deram certo até a pandemia chegar.

“Eu fechei a loja em dezembro do ano passado. Fiquei totalmente sem recursos e tive que começar a correr atrás da minha área novamente”, relata o ex-segurança. Marcio, desde então, espera ser chamado para trabalhar, mas, até agora, não fez nem uma entrevista sequer.

“Desde janeiro, eu tenho procurado emprego, e eu lhe falo: está difícil, viu”, desabafa. Ele diz que o currículo dele é bom e está em um nível aceitável para competir dentro do mercado. Ainda assim, a jornada em busca de colocação é árdua.

Marcio tem curso em transporte de valores, segurança pessoal, escolta armada, brigadista, vigilante e federação de tiro esportivo. O alto nível técnico do rapaz, contudo, não foi suficiente para lhe fazer conseguir emprego nos últimos meses. Pelo contrário, o ex-vigilante tem sobrevivido de pequenos trabalhos, como marido de aluguel.

O trabalhador reclama do cenário de Brasília, no qual afirma ser necessário haver indicação para conseguir emprego. “Em oito meses de busca por um emprego, não fui chamado para uma entrevista. É muito complicado”, diz. O rapaz sobrevive somente com o dinheiro que recebe como marido de aluguel, porque não conseguiu se classificar para receber o auxílio emergencial, e desistiu da ideia.

Para se dar bem na procura por emprego

Planejamento

O que eu quero, onde vou buscar, quais são os cargos e empresas que me interessam? Essas perguntas são importantes para definir a procura por trabalho. Outro ponto destacado é observar suas qualidades e ver se encaixam também em vagas além da sua área, para aproveitar melhor as oportunidades.

Rotina

Já que a busca pelo emprego é um trabalho, é preciso seguir um direcionamento. Defina horários para procurar, estudar, selecionar as vagas de interesse e enviar os currículos. Não esqueça de fazer pausas para descanso.

Disciplina

Fundamental para este período e também para o pós-pandemia, no qual o trabalho remoto será cada vez mais procurado. A disciplina é fundamental e uma das habilidades que estão e serão exigidas daqui pra frente.

Comprometimento

As habilidades podem ser desenvolvidas, mas se o candidato não tiver nítido o que ele quer, manter-se focado mesmo na pressão e comprometido com os resultados e processos da empresa, isso transparecerá durante a entrevista.

Autoconhecimento

Ser seguro do que você sabe fazer pode ajudar a ter uma postura profissional adequada. As dificuldades devem ser trabalhadas, sejam elas comportamentais, sejam técnicas. Criar mecanismos que ajudem a trabalhar em equipe, cumprir prazos e determinadas tarefas são muito úteis e podem fazer com que o gestor perceba o seu potencial.

Qualificação

Se puder fazer algum curso, que seja em uma área de ampla contratação, como está acontecendo com as empresas de TI e administração, faça. Pode ser uma oportunidade para você que perdeu o emprego e não sabe muito bem o que fazer ou em qual área investir na sua próxima qualificação.

Pesquise

Pesquisar a empresa e a área de atuação garantirá que, na entrevista, você se saia bem e fale com propriedade. Saiba quais áreas seu serviço pode ser útil, e pesquise sobre as empresas que você tem vontade de trabalhar. Cheque os valores da companhia, oportunidades de crescimento, treinamentos oferecidos e busque nas redes sociais, voltadas a contatos profissionais, que podem lhe direcionar a novas oportunidades.

Fonte: Grupo Soulan RH, Agência Catho e Centro Brasileiro de Cursos Profissionalizantes (Cebrac)

Ela sobrevive com R$ 170

Geissandy Souza tem dois filhos para sustentar e está sem emprego
Geissandy Souza tem dois filhos para sustentar e está sem emprego (foto: Arquivo Pessoal)

Geissandy Souza, 30 anos, atualmente sobrevive somente dos R$ 170 do Bolsa Família e das ajudas esporádicas do pai dela. As contas de água e luz estão atrasadas, bem como a parcela do financiamento de seu apartamento — que está com cinco prestações sem pagar.

A jovem está desempregada há um ano e meio. Seu último emprego foi em uma clínica de Taguatinga, em Brasília, como auxiliar de serviços gerais. No início da pandemia, em março de 2020, ela, assim como outros colegas, foi dispensada.

“Eu trabalhei lá sete meses, antes eu estava no Hospital de Brazlândia, por meio da empresa Ipanema, de pessoas terceirizadas da limpeza. Houve redução no quadro de funcionários, e fui demitida”, conta.

Apesar dessas experiências, o currículo de Geissandy tem referências. Trabalhou como babá, vendedora e atendente. Chegou a ficar um tempo no Giraffas, mas teve que sair, pois trabalhava no Sudoeste e morava em Águas Lindas. A trabalhadora chegava a casa mais de duas horas da manhã.

“Procuro emprego na área de serviços gerais, na qual tenho mais experiência. Mas tem sido difícil encontrar. A gente manda currículo, chega à entrevista, e são mais de 200 pessoas”, relata.

Além de todo esse cenário, a ex-auxiliar de serviços gerais ainda sustenta dois filhos, uma criança de seis anos e outra de 12. Segundo ela, não recebe ajuda alguma dos progenitores. O pai da menina, de vez em quando, deposita cinquenta ou cem reais, mas ela não conta com esse dinheiro.

Com boletos de luz e água atrasados e parcelas de seu apartamento sem pagar, o pai de Geissandy tenta ajudar a filha. O senhor José Pereira, 79 anos, busca empréstimo para quitar a dívida da casa com a Caixa Econômica. “Quando eu trabalhava na Ipanema, comprei o apartamento por intérmedio da Caixa, e foi um baque. Foi comprar (o imóvel) e ficar desempregada, agora, estou tentando negociar”, afirma.

Três perguntas para

Sérgio Garcia, gerente executivo de gestão de pessoas da Bancobrás

Sérgio afirma que os cursos profissionalizantes são essenciais enquanto o candidato estiver desempregado
Sérgio afirma que os cursos profissionalizantes são essenciais enquanto o candidato estiver desempregado (foto: Arquivo Pessoal)

Quais as dicas para um profissional conseguir passar em uma entrevista de emprego?
As dicas antecedem à entrevista, pois o profissional deve cuidar da sua carreira, relações profissionais e sair das empresas anteriores com as portas abertas. Durante a entrevista, deverá ser verdadeiro e consistente nas respostas às perguntas. Além disso, o candidato deve se ater ao que está sendo perguntado, não extrapolando esses limites. Por fim, responda com segurança, clareza, objetividade e tranquilidade. Nunca fale mal das empresas anteriores em que trabalhou, essa é uma questão de integridade, na qual o candidato já está sendo avaliado.

Como deve se portar o profissional que busca recolocação no mercado de trabalho?
A postura dos profissionais que buscam a recolocação deve ser a de iniciativa e preparação. Durante o período em que o candidato estiver desempregado, deve cuidar de dois aspectos muito relevantes: procurar emprego durante boa parte da jornada de trabalho que deveria estar, supostamente, trabalhando, e fazer cursos de atualização diversos, que podem ser encontrados em plataformas das mais variadas, sendo de instituições nacionais ou internacionais.

O que mudou no mercado de trabalho depois da pandemia? O que uma pessoa que busca emprego deve saber?
Vou anteceder ao que mudou no mercado de trabalho nos últimos seis ou sete anos. Estamos vivendo um momento que sempre existiu na história do trabalho, de extinção, surgimento e/ou transformação das profissões. Esse cenário é irreversível no mundo, mas a repercussão no Brasil se potencializa pela baixa escolaridade e qualificação profissional. Certamente, temos tido enormes impactos no período pandêmico e o teremos no pós-pandêmico, que já consolidaram o modelo de trabalho remoto. Nessa perspectiva, afunilamos cada vez mais, as chances de candidatos que não têm equipamentos apropriados, boa internet local, ambiente doméstico desfavorável e o mais importante: competências para se autogerenciar, capacidade de concentração, domínio de soluções tecnológicas virtuais e estabilidade emocional. Vimos nesses 18 meses de declaração da pandemia que muitos profissionais não se adaptaram ao modelo remoto ou adoeceram pela falta do contato humano. As empresas não podem tudo, e o empregado precisa, fazer sua parte, pois não vivemos mais uma tendência, agora, é realidade.

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