ESTRANGEIRISMO

Vantagens e desvantagens do uso da língua inglesa no ambiente da trabalho

O uso da língua da Terra de Tio Sam no ambiente corporativo é garantia de sucesso profissional ou desvalorização do português?

*Laura Jovchelovitch Noleto
postado em 07/11/2021 06:00 / atualizado em 07/11/2021 06:00
Budget,mailing, job, feedback, networking são palavras usadas nas conversas e reuniões de trabalho. Mas será que esse uso exagerado não traz prejuízos para a língua portuguesa? -  (crédito: Maurenilson Freire)
Budget,mailing, job, feedback, networking são palavras usadas nas conversas e reuniões de trabalho. Mas será que esse uso exagerado não traz prejuízos para a língua portuguesa? - (crédito: Maurenilson Freire)

Feedback, mailing, budget, brainstorming, startup, briefing, networking, background, branding, coffee break, media partner — e por aí vai. No mercado de trabalho, muitos termos em inglês são usados durante conversas em português. É comum que as pessoas se acostumem a ouvi-los, mas será que sabem o que significam e o porquê de não serem traduzidos? Em um mundo globalizado, a maioria das empresas ressalta a importância do domínio do idioma inglês para o sucesso profissional. Mas será que a presença de tantas palavras estrangeiras também não traz prejuízos à língua portuguesa?

Segundo Camila Zamberlan Magalhães, 25 anos, coordenadora pedagógica da escola de idiomas Wizard em Sorriso, Mato Grosso, as palavras da língua inglesa no contexto do trabalho transmitem conceitos. "A gente poderia escolher uma palavra em português, mas não é igual, não resume tão bem quanto o conceito que já vem enraizado", afirma. O exemplo que ela dá é a palavra brainstorming, cuja tradução literal é tempestade de ideias, o ato de listar ideias.

Camila Zamberlan diz que as palavras da língua inglesa no contexto do trabalho transmitem conceitos
Camila Zamberlan diz que as palavras da língua inglesa no contexto do trabalho transmitem conceitos (foto: Maiara Fredrich)

Camila diz que é mais simples usar uma palavra só, porque otimiza tempo, "acho que, por isso, a moda pegou". Camila também explica que esses termos em inglês se popularizaram no ramo de negócios e no meio publicitário, mas o significado deles é o mesmo, independentemente da área em que se trabalha.

Ela comenta que, quando alguém não fala inglês, mas ouve palavras inglesas no trabalho, fica simples aprendê-las. "Desde a primeira vez que a pessoa ouve, vira natural", avalia. Esse aprendizado também é facilitado pela internet e pelo companheirismo dos colegas: "Sempre tem alguém no trabalho que pode explicar". No entanto, Camila reforça a importância de aprender outros idiomas, já que as empresas valorizam o domínio de línguas estrangeiras no momento da contratação. "Todo mundo sabe que o inglês é importante, só que, infelizmente, a gente tem a tendência de só procurar quando é extremamente necessário", observa.

A percepção de quem usa o idioma

"A gente sempre fala briefing, deadline na nossa rotina"
"A gente sempre fala briefing, deadline na nossa rotina" (foto: Arquivo Pessoal)

Luís Moacir Mayer, 18 anos, é estudante de Comunicação Organizacional na Universidade de Brasília (UnB) e faz atendimento de social media na Mentha, agência brasiliense. Sobre o uso de palavras em inglês no trabalho, ele afirma: “Isso é um fato. A gente sempre fala briefing, deadline, budget na nossa rotina. Os nomes do trabalho são em inglês: media partner, mailing, marketing. A gente usa esses termos sem pensar. É uma coisa que se enraizou no discurso”.


Para ele, isso está relacionado com a busca por referências. “Acho que deriva muito do fato de a gente sempre olhar para fora, acompanhar as novas tendências, as trends, ver no Tik Tok qual a música hit, para aplicar isso no Brasil”, avalia.


Ele acrescenta que, antes de trabalhar na Mentha, conhecia algumas palavras porque tinha aprendido no curso de inglês, mas não sabia o que elas significavam no setor de comunicação.


Luís opina que vivemos em um mundo globalizado, mas nem todos têm as mesmas oportunidades. “Às vezes, esses termos em inglês dificultam a compreensão e, dependendo de como você usa, soa elitista”, completa.


Apesar disso, ele conclui que estudar inglês é importante: “O inglês faz diferença no meu processo de criação, me ajuda a compreender o mundo”.

Aculturação e desvalorização do português

Professor Carlos André é contra o uso desnecessário do inglês
Professor Carlos André é contra o uso desnecessário do inglês (foto: Arquivo pessoal)

Carlos André, 41 anos, fundador do Instituto Carlos André e professor de língua portuguesa e redação, critica o uso excessivo de palavras em inglês no mercado de trabalho brasileiro. “Existe uma imposição de determinada cultura sobre outra. Essa imposição é velada, sofisticada, as pessoas não percebem. Embora seja comum, eu vejo com maus olhos”, declara.

Ele dá exemplos em que as traduções são claras e o uso do inglês é desnecessário: job é trabalho, meeting é reunião, call é ligação. Carlos André ressalta que não é contra o idioma inglês, mas que as palavras estrangeiras devem ser utilizadas quando houver necessidade, em contextos tecnológicos ou científicos. Os exemplos que ele endossa são: podcast, webinar (que foi aportuguesada para webinário), compliance e lockdown.

Quando as palavras em inglês são utilizadas sem necessidade, Carlos André afirma que ocorre o fenômeno da aculturação: “Língua nada mais é do que manifestação de poder; demonstra como as pessoas pensam em termos de poder”. Segundo ele, entre as causas do uso desnecessário de palavras em inglês está a má formação da elite brasileira, que tem dificuldade de entender o seu papel no auxílio ao desenvolvimento do país. Ele complementa que a elite é “pouco escolarizada, pouco consciente da história do país e sofre de analfabetismo político”. Por esses motivos, tende a copiar o que é de fora, pela percepção de que o que vem do exterior é melhor. Para ele, isso é uma forma de aculturação. “Quer ter proficiência em inglês, quando deveria ter em português e em inglês”, observa.

Carlos André afirma que, ao estudar uma língua, se estuda uma cultura: “É importante estudar outras culturas, mas estudar a sua primeiro”. No Brasil, existe a tendência do bilinguismo. As escolas bilíngues têm crescido muito, e, por isso, ele alerta que os pais e educadores precisam ficar atentos para não gerarem crianças que não dominem nenhuma das duas línguas.


Como esse fenômeno é cultural, Carlos André percebe a desvalorização da cultura brasileira em aspectos além da linguagem. Para ilustrar, ele conta que há crianças e pré-adolescentes que comemoram fortemente o Halloween, mais importante para eles do que o São João. “Estamos desvalorizando o nosso país, a nossa história. Não se trata de nacionalismo. Quem não tem história não existe”, declara.

Para melhorar esse cenário, Carlos André defende a existência de aulas de linguística e análise do discurso no ensino básico brasileiro em que se discuta essa questão com os alunos: “Aulas de língua portuguesa mais críticas, em vez de aulas decoreba, focadas apenas em cognição”. Também, acrescenta, é preciso provocar essa discussão nas empresas. Carlos André diz que, ao perguntar por que alguém falou deadline em vez de prazo, as respostas costumam ser parecidas com “é porque todo mundo usa”.

Ele conta que o Instituto Carlos André desenvolve um projeto que provoca essa reflexão. “Nós vamos a várias empresas, construtoras, empresas de marketing digital, órgãos do poder judiciário, em que mostramos para esses profissionais como escrever de forma concisa, clara e usar as palavras inglesas apenas quando necessário”.

As experiências do projeto deixam claro que existe um problema muito sério com coesão textual no Brasil. Carlos André avalia que há dificuldade na organização do texto, falta clareza e correção gramatical e há muitos desvios e estrangeirismos: “O texto corporativo hoje no Brasil é um Frankenstein, não é claro, não é conciso, mas cheio de firulas em inglês”. Ele conclui que é preciso alertar a classe média brasileira para que preste atenção a esse fenômeno: “Ter consciência de que nós somos brasileiros e temos que ter orgulho disso para a sobrevivência cultural. Precisamos nos orgulhar da nossa língua para usá-la com respeito”.

 

Estagiária sob a supervisão de Ana Sá

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