Eu, Estudante

Exemplo

Mãe de santo e doutora aos 81 anos

Mais velha estudante a obter o título de doutora na UFPR, Dalzira Aparecida cursou o extinto Mobral e o EJA e enfrentou muitos desafios e preconceito durante toda a sua trajetória acadêmcia. Hoje, é disputada em todo o país para proferir palestras

Aos 81 anos, a mineira Dalzira Maria Aparecida, é a mais velha estudante a conquistar o título de doutora pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Conhecida no candomblé como Yalorixá Iyagunã Dalzira, a mãe de santo defendeu sua tese com o tema Professoras negras: gênero, raça, religiões de matriz africana e neopentecostais na educação pública.

Nascida em uma família pobre de agricultores em Guaxupé, Sul de Minas e sem ter tido acesso à escola, ainda criança Dalzira se mudou com a família para São Paulo e, ao 7 anos, para Santa Maria do Oeste, no Paraná, onde, em meados dos anos 1970, cursou o extinto Mobral — Movimento Brasileiro de Alfabetização. "Não ensinava nada praticamente, a gente acreditava que aprendia", lembra.

No final dos anos 1980, ingressou no programa Educação de Jovens e Adultos (EJA), modalidade de ensino destinada ao público que não completou, abandonou ou não teve acesso à educação formal na idade apropriada, depois de adotar e criar, como mãe solo, 7 filhos, seis formados em curso superior. Por acreditar que os professores não estavam preparados para lidar com crianças pretas, pobres e marginalizadas, decidiu alfabetizá-los por conta própria.

"Passei muitos anos sem estudar por não ter condição nenhuma. Foi minha filha, Rosilda, que coloquei na escola aos 6 nos, que me estimulou a prosseguir. Fez minha inscrição no vestibular, me levava e buscava nas provas", conta, recordando seu ingresso na Unibrasil, em 2003, quando foi aprovada e, graduada, cinco anos depois, no curso de relações internacionais.

Em 2011, veio a decisão de retomar os estudos e Dalzira partiu para uma nova etapa em sua vida acadêmica, ingressando no mestrado de tecnologia e Trabalho, na UFPR, por insistência de uma amiga. "Nem sabia que havia essa possibilidade. Estava muito cansada. Tudo foi muito difícil até então", diz.

Para manter a família e custear os estudos, ainda nos anos 1960, Dalzira recorreu a um curso por correspondência de corte e costura no Instituto Universal Brasileiro. "Aprendi a fazer de roupas de bebês a vestidos de noiva. Usei muito papel manilha para fazer os moldes", recorda, pontuando que o mais importante nesse processo foi dominar melhor a língua portuguesa, sempre estudando à luz de lamparina.

Na faculdade Dalzira enfrentou as maiores dificuldades e barreiras sociais. Única negra em sala de aula, foi cruelmente discriminada por professores e colegas não só por sua cor, mas também pela idade. "Pensei em abandonar tudo. Tinha um professor que me olhava nitidamente com ódio. Dizia que menor infrator tinha que ser morto. Uma outra ignorava minhas provas e sempre me dava zero. Foi tudo muito sofrido. Chorei muito, mas enxuguei as lágrimas e segui em frente."

Dalzira lembra, ainda, que os colegas a procuravam para trabalho em grupo apenas quando o tema era racismo. Com a idade avançada e a visão comprometida e ainda com dificuldade em se adaptar a equipamentos modernos, como computadores, ela sempre imprimia as lições em letras maiores ou utilizava um retroprojetor para ler as matérias na parede.

A pandemia e o isolamento agravaram os desafios. "Enfrentava dificuldade para enxergar e até mesmo para subir e descer escadas. Achava que não iria fechar o doutorado, mas a vontade de enxergar e aprender era maior", relembra.

Aos 72 anos, se tornou mestra pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná, com dissertação sobre os saberes do candomblé na contemporaneidade. Com a dissertação de doutorado defendida na UFPR, Dalzira alimenta a esperança de dar a sua parcela de contribuição para a construção de um mundo melhor, com menos ódio, violência e mais amor. "Sempre seremos negros, mas luto par que não sejamos odiados por isso", apregoa.

Dalzira considera que o sistema de cotas foi uma conquista histórica. "Para mim e para todos garantiu oportunidades, não só na educação, como também no trabalho e na política. Essa conquista veio muito chorada, pingada, ms os pingos que caíram refletiram na vida de todos. Há ainda muitas dificuldades, barreiras, sobretudo na religião, ainda mais quando se fala em ancestralidade. Os que são contra, até mesmo os negros, não entenderam nada", afirma.

Dalzira é hoje referência em tradições africanas no Brasil por meio da religiosidade de matriz africana. Ela revela que são tantos os convites para palestras que se viu obrigada a selecioná-los.

Ensinamento e cumplicidade

Orientador de Dalzira em sua tese de doutorado, o professor Paulo Vinicius Batista lembra que teve o primeiro contato com a aluna ilustre ocorreu quando ela tinha 70 anos. "Sempre foi uma pessoa super dedicada em tudo que se propôs a fazer. Mesmo enfrentando problemas de saúde, esbanjava senso de responsabilidade e muita organização do tempo para se dedicar totalmente ao período do doutorado", conta.

"Além disso, demonstrou em toda a sua trajetória acadêmica disposição e uma incrível dedicação aos estudos, fatores refletidos em sua tese, de excelente qualidade e que muito agrega ao conhecimento. Não por menos, mereceu altos elogios da banca no resultado final."

O professor destaca, ainda, a referência e liderança religiosa e no movimento negro empreendida por Dalzira, segundo ele, fatores que facilitaram sua expressão durante o curso. "Trabalhar com ela foi uma experiência mais que gratificante. Foi um período tranquilo, de muito diálogo. Aprendemos mutuamente", diz.

"Ela não se preocupa com o depois, após ter conquistado o título de doutora, mas, sim, com todo o processo vivido, com o resultado alcançado. Foi um encontro entre o conhecimento de trajetória de vida e o conhecimento acadêmico, da vivência e do ativismo no movimento negro."

Ainda segundo Batista, o fato de a UFPR ter aberto suas portas ao conhecimento dos saberes populares em programas de pós-graduação foi decisivo no processo de Dalzira, considerada, hoje, a mais perfeita tradução dessa meta. "É uma pessoa que tem grandes méritos em sua trajetória, a exemplo da filósofa Sueli Carneiro. Dalzira reúne todos os predicados para receber o título de doutora honoris causa."

Dalzira ingressou na UFPR na primeira turma de Ação Afirmativa para Pessoas Negras da instituição, em 2018. O quadriênio de realização do doutorado da yalorixá, de 2018 a 2021, com defesa em 2022, teve o prazo ampliado para todos discentes, em função da pandemia, coincidindo com o quadriênio de avaliação da Capes.

O programa foi nota 6 no quadriênio anterior, o que já era uma distinção, atingindo a nota 7 entre 2018 e 2021, na avaliação recém-divulgada, conjugando inclusão social com excelência acadêmica de nível internacional. "A trajetória da doutoranda coincide e sintetiza esta trajetória de inclusão social de pessoas negras e de outros grupos de pouca representatividade na pós-graduação com excelência acadêmica", conclui o mestre.