Eu, Estudante

ARTIGO

Fotojornalista cria exposição fotográfica a partir do próprio medo

Ensaio sobre mulheres ameaçadas de morte vence Prêmio Funarte Marc Ferrez. A autora é uma das vítimas

Por Cristina Ávila

Jornalista

A exposição Quem é pra ser já nasce, da fotojornalista Ana Mendes, segue até 20 de fevereiro em Belém do Pará, resultado do Prêmio Funarte Marc Ferrez, o maior da fotografia brasileira, em trabalho desenvolvido durante quase todo o ano de 2025, selecionado em edital do ano anterior. São 24 fotografias em preto e branco e entrevistas com 10 mulheres indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco babaçu e assentadas da reforma agrária do Maranhão. Todas são lideranças em seus territórios e enfrentam ou já enfrentaram ameaças de morte em lutas coletivas pela terra, pela natureza e pela sobrevivência física e cultural de seus povos. A obra inclui um autorretrato, pois a própria autora se tornou alvo de bandidos por se dedicar na fotografia à luta pelas florestas e pelas gentes que vivem na Amazônia.

Neste cenário de consagração profissional, eu reflito: a fotógrafa Ana Mendes, minha filha, me escondeu um segredo. Vou conhecendo detalhes que eu não sabia sobre sua trajetória por meio das palavras que ela diz em entrevistas publicadas sobre a obra que resultou de uma pergunta: “o que vem depois do medo?”, que passou a fazer a mulheres ameaçadas de morte. A Ana foi perseguida durante um mês, em 2019, por homens dentro de um carro, em São Luís do Maranhão, após cobrar publicamente uma postura do governo sobre ataques ao povo Akroá Gamella.

“Eu vou te parar agora, aqui e agora!”, foi o recado dos algozes, em resposta à cobrança que ela fez, em um programa de televisão, ao governo do Maranhão, para que se posicionasse em relação ao inquérito policial sobre ataques contra o povo Akroá Gamella, que ficou conhecido por terem sofrido golpes de facão desferidos por 200 fazendeiros a 30 indígenas, em 2017, quando vários deles foram feridos e alguns tiveram mãos decepadas, no município de Viana, no movimento de retomada do território tradicional indígena. O governador era Flávio Dino, mas iniciava também o governo de Jair Bolsonaro na Presidência da República, e já se antevia o que começava a acontecer no país. O pânico não demorou, e Ana se sentiu sozinha, sem algum apoio.

Foi a primeira mulher retratada que está na exposição fotográfica em Belém, que lhe acolheu — Pjih-cre Akroá Gamella — guardiã da casa-sede de uma fazenda situada na área retomada de seu povo na Baixada Maranhense. Nessa casa, ela vivia com três filhos pequenos, na mira furiosa dos fazendeiros. A residência é encostada na porteira da fazenda, na margem da MA-014, uma estrada que é a própria invasão ao território tradicional do povo originário. Foi ela quem ensinou a Ana as primeiras lições sobre a luta no medo. “Eu fui atrás dessas mulheres pra me aconselhar, tentar entender o que eu faria com todos os sentimentos que passaram a habitar em mim depois que eu mesma passei a sofrer as perseguições”, conta.

“Eu e a Ana Mendes temos uma história de luta, que não é uma luta territorial. É uma luta pra continuar vivas, uma luta contra a ameaça”, ressaltou Pjih-cre, explicando a relação das duas quando olhou pela primeira vez, no último sábado, as fotos penduradas no salão da Fotoativa, a associação cultural situada em Belém do Pará. Ela pegou um ônibus em Viana para estar ali. É desta liderança Akroá Gamella a frase que dá título ao trabalho, que para a fotojornalista sintetiza um traço comum a todas as mulheres retratadas e a muitas outras que vivem situação semelhante “na continuidade de saberes e das lutas transmitidas entre gerações, aprendidas com mães, avós e ancestrais”.

Foi assim que o tema passou a fazer parte da sua vida e acabou, também, integrando seu projeto de doutorado na pós-graduação em artes na Universidade Federal do Pará (UFPA). “Sem perceber, já estava debruçada nesse trabalho. Minha situação é infinitamente mais simples e banal diante das gerações de mulheres que lutam por suas terras, mas conversando com elas busco entender a mim mesma. Busco ressaltar a força feminina, delas e minha, de amanhecer todo dia e viver bem, criar os filhos, lutar pela natureza e pela terra, cultuar o sagrado e compartilhar os processos coletivos, cultivando a capacidade de ser feliz mesmo indignada”.

Ana Mendes chegou a pensar em abandonar a fotografia, e acabou passando longo período fora de São Luís. Antes disso, eu conheci Pjih-cre. Ela foi nos encontrar numa casa na Fonte do Ribeirão no histórico centro ludovicense. Eu e ela acabamos engatando uma conversa num local bem incomum pra quem estava se conhecendo naquela hora. A Ana nunca me contou sobre as ameaças no momento em que aconteceram, e talvez nem eu nem outras pessoas saibamos de outros detalhes desta longa história, mas não era difícil adivinhar os riscos. Eu e a indígena Akroá Gamella entramos juntas no banheiro, e ficamos longos minutos. Ao final, eu segurei o rosto dela com as duas mãos e num tom desesperado falei de meu próprio medo, olho no olho, os narizes quase se tocando, enfatizei as ameaças que sabia sofridas por ela e por todo o seu povo. A mulher, que a Ana sempre sublinha a sabedoria e a força, me respondeu: “Se acalma, sossega. A Ana tem proteção. Ninguém toca nela”, me garantiu. Meu coração se aquietou. Eu saí dali tocada por uma certeza que eu não conhecia antes.

A violência no campo bateu recorde da última década, e áreas de avanço do agronegócio concentram casos de assassinatos. Os dados do Relatório de Conflitos no Campo no Brasil, divulgado em abril de 2025, com dados de 2024 da Comissão Pastoral da Terra (CPT) mostram que, seguindo a tendência nacional, a região chamada Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) ocupa o topo deste pódio, com 415 conflitos por terra. O recorde anterior foi de 253, em 2016. Embora 2024 seja o ano com menor número de assassinatos da última década, 62% dos casos foram registrados nas áreas de expansão do agronegócio, onde os relatos de ameaças são constantes. Dos 13 assassinatos registrados no último ano, oito foram na Amazônia Legal, sendo três no Matopiba.

É a minha vez de ter respostas que ainda não tive a oportunidade de ter: Ao me esconder as ameaças e o medo que tanto a afligiram, ao preferir dispensar o meu colo, o que a minha filha pretendeu? Me poupar? Teria medido a incapacidade do meu coração em resistir? Ou temeu que eu tentasse interferir em suas decisões de mulher adulta, profissional afetuosa, ética e militante? No caos, era, sim, o que aconteceria.

Estou feliz pela qualidade da filha que pari. E não gostaria de vê-la reduzida pelo medo. No momento em que reflito sobre o trabalho dela, lembro de Pureza, a personagem da vida real da cidade de Bacabal, no Maranhão, que botou numa sacola toda a coragem que só as mães têm, e foi procurar seu filho desaparecido num canto desgraçado assegurado pelos capangas do capitalismo.

Não. Ninguém pode ser reduzido pelo medo. Precisamos é de bravura para cobrar do Poder, de esquerda e direita, o cumprimento do dever do Estado de assegurar a vida para todos. Justiça e políticas públicas para mudar números que nos envergonham como brasileiros e brasileiras.

 

Fique ligado!

EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA — “Quem é pra ser já nasce”

Período: 17 de janeiro a 20 de fevereiro de 2026
Onde: Associação Fotoativa – Praça das Mercês, 19, Campina, Belém (PA)
Funcionamento: terça a sábado, no período das 15h às 18h. Nos sábados das 9h às 13h Entrada gratuita