Eu, Estudante

Inclusão

Diagnosticado com autismo, juiz é nomeado desembargador do TJSC

Alexandre Morais Rosa acumula um currículo extenso no direito. Recebeu o diagnóstico de autismo em 2021 e se tornou símbolo de resiliência no meio jurídico

Diagnosticado com autismo em 2021, o juiz e professor Alexandre Morais da Rosa, 52 anos, foi nomeado desembargador do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) em novembro de 2025. Natural de Florianópolis e egresso de escola pública, formou-se em direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 1997 e, desde então, construiu uma longa trajetória na área, tendo sido juiz auxiliar do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), entre 2022 e 2023.

Leia também:

Sua dedicação aos estudos sempre foi traço de sua personalidade. Aos 24 anos, passou em 1º lugar no concurso de juiz rstadual do TJSC. Nos anos seguintes, trabalhou, também, como juiz da Vara da Infância e Juventude, em Joinville (SC). Na área acadêmica, escreveu livros e lecionou direito na UFSC de 2008 a 2012. 

Dedicação aos estudos 

Cristiano Estrela/NCI TJSC - Solenidade de posse no cargo de desembargador do TJ de Santa Catarina
Na adolescência, o desembargador se descreveu como um jovem recluso e ligado aos estudos, o que o tornava alvo de perseguição por parte dos colegas. Apresentou dificuldade para entender piadas e conversas em tom de ironia, levando tudo “ao pé da letra”, o que dificultava a sua inserção social. “A gente tende a levar na versão literal tudo que ouvimos, e só depois tentamos fazer uma conotação. É um desafio nosso do dia a dia, que acabamos aprendendo”, explica. 
“Eu sempre fui aquele adolescente que gostava de estudar. Tinha poucos amigos, não interagia tanto, não era famoso. Na minha época, essas questões não eram discutidas, então, eu não tinha suspeita em relação ao meu autismo”, lembra. Para não ser hostilizado, ele evitava gabaritar a prova. “Eu procurava nunca acertar tudo, para não chamar a atenção”, afirma.  
Alexandre desaprova a metodologia de ensino da sua época, sentindo falta de um maior apoio a estudantes que compartilham de condições similares. “Eu nunca gostei de ir às aulas. Se eu não precisasse ir, seria melhor para todo mundo. Era só me dar os livros que eu me virava”, diz. 

Acompanhamento 

Cristiano Estrela/NCI TJSC - Alexandre Morais ao lado da esposa
Segundo a psicóloga Roberta Nicole Cordeiro, o acompanhamento psicológico desde a infância pode ajudar pessoas com autismo a terem uma maior capacidade de socialização. “A criança que se isola não está com medo à toa. Ela, provavelmente, já aprendeu que o diferente é rejeitado. Então, a primeira orientação para pais e escola é escutar com empatia e validar as dores e medos do estudante que está em sofrimento. Piadas e exclusão social não podem ser normalizadas ou tratadas como ‘coisa de criança’. A terapia ajuda a melhorar as habilidades sociais, a entender os próprios sentimentos e a se comunicar com as demais pessoas. Mas um erro comum é focar apenas na mudança da criança, e não no contexto em que ela está inserida”, explica. 
“A memória de longo prazo da pessoa autista costuma ser muito boa, especialmente para assuntos de interesse. Já a memória de trabalho, aquela que seguramos informações do presente para executar uma tarefa, como seguir uma receita enquanto prepara a comida, pode ser abaixo da média, criando um possível quadro de disfunção executiva”, enfatiza a profissional. 

Diagnóstico 

Arquivo Pessoal - Infância e adolescência marcadas pela reclusão e por estudos
O diagnóstico de autismo nível 1 de suporte veio tardiamente, em 2021, aos 47 anos, após 13 semanas de acompanhamento psicológico. Além do autismo, ele também foi diagnosticado com altas habilidades. Segundo Alexandre, o diagnóstico o ajudou a compreender a si mesmo e a lidar melhor com alguns comportamentos. “Eu consegui entender melhor as minhas limitações em relação à minha atividade profissional e nos meus relacionamentos. Houve uma mudança significativa para poder me reposicionar e agora eu entendo porque muitas vezes eu ficava de saco cheio, por exemplo”, diz. 
Segundo o jurista, o interesse em cursar direito surgiu devido ao seu gosto por regras e pela vontade de compreender o comportamento humano, traços que ele próprio vincula à sua condição. Autor de livros jurídicos, ele também enfatiza a influência do pai, que é advogado, e da mãe, professora. Como inspirações na área, ele cita nomes como o americano Frederick Schauer e o brasileiro Jacinto Nelson de Miranda Coutinho, do qual foi aluno. 
Apesar das dificuldades, Alexandre destaca que a condição de autismo oferece algumas vantagens em relação a pessoas neurotípicas. Segundo ele, essas habilidades influenciam, inclusive, no seu cotidiano de trabalho. “De fato, nosso cérebro não funciona da mesma maneira que o dos neurotípicos, então, precisamos de alguma estratégia para sobreviver. Fora isso, a nossa forma de raciocínio não inveja ninguém. Prestamos atenção em alguns detalhes que muitas vezes passam batido para os neurotípicos. Também temos uma memória acima da média”, argumenta. 

Resiliência 

Arquivo Pessoal - Alexandre Morais da Rosa durante a infância
Um dos desafios enfrentados na trajetória de Alexandre ocorreu em 2023, quando deixou a primeira instância e passou a atuar no tribunal, como juiz substituto de segundo grau. Até então, suas decisões eram tomadas de forma individual, sem precisar consultar outros magistrados. Já no tribunal, passou a atuar em casos em que julgamentos eram feitos em coletivo, o que exigia diálogo e consenso com demais juízes. Essa virada de chave foi importante para a sua formação e serviu para prepará-lo para a nomeação como desembargador, posteriormente. “Quando a gente é juiz estadual, decidimos sozinho, sem coletivo. O tribunal é uma aprendizagem, porque é um colegiado, então, você tem que negociar com os demais. A negociação faz parte da vida em colegiado”, conta. 
Hoje superadas, uma das dificuldades do jurista consistia em entender e se inserir nas relações interpessoais com os demais magistrados em debates nas sessões, característica recorrente entre pessoas classificadas no espectro autista. Alexandre reconheceu o desafio como uma oportunidade de aperfeiçoamento profissional. “Hoje, estou acostumado a ter essa relação de ouvir e esperar, aguardar, não atravessa ninguém. Me acostumei a um espaço mais dialogal, o que não era costume nem na minha vida privada, nem na minha vida como juiz. Essa aprendizagem coletiva é muito significativa”, afirma. 
“Muitas vezes, a tolerância que eu preciso que tenham comigo, eu também tenho que ter com eles, no sentido de puder compreender as próprias limitações dos neurotípicos que, às vezes, do ponto de vista jurídico, dão bola para coisas que, a meu ver, não são relevantes”, opina. 

Cordão 

Após diagnóstico médico, Alexandre passou a usar o cordão de identificação para autismo, no trabalho. No seu entendimento, a presença de profissionais neurodivergentes no meio jurídico ainda é um tabu na área, fazendo com que alguns profissionais omitam sua condição por vergonha. Para ele, utilizar o cordão serve como um símbolo de resiliência. “Numa divisão binária de mundo entre normais e anormais, a gente ficaria nos anormais. Muita gente tem diagnóstico e evita o cordão, porque é um preconceito grande. Muitos colegas vêm falar comigo dizendo que não assumem a condição por receio da hostilidade que ainda prevalece em face do desconhecimento”, explica. 
“A gente tem que ser tolerante até o ponto que não cause dano para nós e nem para os outros. Trata-se do paradoxo da intolerância. Temos que enfrentar pessoas, lutar por direitos e não se acovardar, porque ninguém é melhor nem pior por ser neurotípico ou autista. Temos todos a mesma dignidade”, concluiu. 

Gilmar Mendes

"Sua trajetória evidencia sólida formação" 
Divulgação/STF - Gilmar Mendes
Tive a oportunidade de trabalhar com o desembargador Alexandre Morais da Rosa no meu gabinete, entre novembro de 2022 e outubro de 2023, período em que atuou como juiz auxiliar na área criminal. 
Alexandre prestou auxílio direto à prática de atos processuais em inquéritos e ações penais originárias, além de contribuir para a elaboração de votos e manifestações em casos criminais julgados no Plenário e na Segunda Turma. Sua experiência e versatilidade foram fundamentais não apenas na pesquisa doutrinária voltada à elaboração de votos — campo em que se destaca como profundo conhecedor do processo penal —, mas também nos debates internos da assessoria sobre temas relevantes julgados no período, como o juiz de garantias, a inconstitucionalidade da tese da “legítima defesa da honra” e os limites e o alcance da colaboração premiada. 
Para tanto, foram decisivos seus atributos intelectuais e a experiência acumulada ao longo de anos de docência na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), bem como seus estudos de mestrado e doutorado no campo do processo penal, com enfoque na intersecção entre a teoria dos jogos e as categorias clássicas da ciência criminal. 
Sua trajetória evidencia sólida formação, rigor técnico e compromisso com a jurisdição, qualidades que justificam plenamente sua ascensão ao Tribunal de Justiça de Santa Catarina.