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Marcia Barbosa: referência na física e na luta por direitos das mulheres

Reitora da Universidade Federal do Rio Grande Sul (UFRGS), que viralizou nas redes com explicações divertidas e didáticas sobre ciência, relata os desafios que enfrenta para abrir caminho a mais mulheres pesquisadoras

"O sistema não esperava que eu desse certo." Foi contra essa certeza posta que Marcia Barbosa, atual reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), lutou durante toda a trajetória acadêmica. Estudante de escola pública e mulher, tinha o destino delimitado entre as quatro paredes erguidas por um pacto social tácito. Mas as escolhas que fez não se encaixavam ali, e ela teve de demoli-las, uma a uma, para tornar-se uma das pesquisadoras mais influentes da física no país e alcançar reconhecimento mundial.

De família gaúcha, Marcia nasceu no Rio de Janeiro, onde o pai, Rui, hoje com 94 anos, atuava como sargento da Aeronáutica. Em 1964, pouco antes do golpe militar, ele conseguiu transferência e se mudou para Porto Alegre.

No município de Canoas, Região Metropolitana da capital, Marcia começou a vida escolar numa Brisoleta, como eram chamadas as escolas construídas em madeira pelo governador Leonel Brizola. Ela e os irmãos caminhavam longa distância até a escola, que ficava em uma região mais afastada, rodeada por vilas populares. Apesar das dificuldades, Marcia relata que os professores eram muito empenhados. "Eu tive uma infância muito livre nesse lugar isolado", completa.

Foi ali também que os primeiros momentos de contato com a ciência floresceram. As crianças tinham como um dos principais passatempos soltar pipa. A atividade acabou despertando rivalidades e virou competição. Em vez de lançar mão da disseminada — e perigosa — estratégia de fios com cerol, Marcia decidiu usar a ciência para fazer a pandorga imbatível.

"Meu pai era eletricista, mas uma pessoa com habilidade de fazer tudo. Tem só o ensino médio, que ele fez na própria Aeronáutica. Eu disse a ele: 'Vamos fazer uma pipa de plástico, para eu voar na chuva, que é quando tem mais vento'. Eu me encantei por esse processo de construir uma coisa nova", relata.

Já no ensino médio, matriculada na escola estadual, Marcia e o irmão, Alexandre Bernardes Barbosa, se destacavam em todas as disciplinas. Com o incentivo do diretor, começaram a dar aulas substituindo algum professor que faltasse. A irmã mais nova, Denise, é a descolada da família, criava figurinos e pedia à mãe, Paula, habilidosa na costura, que montasse looks de fazer inveja às colegas. "Eu e meu irmão éramos os nerds, só com os livros, sempre estudando. E ela era a descolada", diverte-se.

Quando viu, já estava levando a inovação mais longe e aceitou a proposta do diretor de montar o laboratório da escola, com algumas doações que ele havia conseguido de uma igreja protestante. "Ali eu soube que aquela experiência de montar uma coisa, que dá errado e dá certo, era o que eu queria para o resto da minha vida."

Destino nas exatas

Aluna destaque, ela poderia ter escolhido qualquer curso com a segurança de aprovação. Escrevia muito bem, era comunicativa e até no teatro se aventurou. Mas a magia dos erros e acertos nas experiências tornou evidente a escolha pela ciência exata.

O primeiro choque ao entrar na graduação de física da UFRGS foi ver que poucos estudantes de escola pública e ainda menos mulheres frequentavam aquele espaço. A maior parte dos alunos vinha de colégios particulares. Decidida a contribuir para a mudança dessa paisagem, ela se candidatou a todos os postos de liderança que pôde. Alcançar a reitoria da federal do Rio do Sul, portanto, não foi acaso, nem sorte. A recompensa é fruto de perseverança, muito estudo e talentos múltiplos. Para comunicar, articular, ensinar e, o que ela faz de melhor: pesquisar e analisar dados.

"Ao mesmo tempo eu me dava conta de que, para ganhar espaço nesse mundo, eu precisava estudar mais que eles. Porque eu não tinha o pedigree do nome, do sobrenome, da família. Não era esperado do sistema que eu desse certo. Não era isso que os professores esperavam, que as pessoas esperavam. Mesmo que eu tirasse notas altas", afirma a professora, que presidiu o diretório acadêmico nessa época.

Uma das viradas de chave veio quando começou a trabalhar com um casal de pesquisadores argentinos que quebravam a lógica de preconceito ainda impregnada no meio acadêmico brasileiro. Nessa época, completou mestrado e doutorado. "Não vou dizer que era fácil. Trabalhar com cientista é difícil. Mas me deu uma oportunidade de ter uma pessoa que não me julgava."

Experiência internacional

Em uma atitude considerada arriscada para a época, Marcia se mudou com o então marido, também pesquisador, para os Estados Unidos, com o objetivo de ganhar experiência internacional. Costurou a viagem e as oportunidades com a mesma destreza que a mãe cerzia os designs da irmã caçula.

Conseguiu fazer pós-doutorado com um pesquisador conhecido, que ampliou consideravelmente seu networking. Na Universidade de Maryland, percebeu que o problema de poucas mulheres na física é mundial, e que ser latina nesse meio representa um desafio ainda maior. "Até no lugar em que a gente morava era visível: na frente do condomínio ficavam os brancos; no meio, os negros; e no fundo, os latinos", relata. "Mas eu dei uma banana para aquilo, porque eu já estava acostumada."

Na volta, após dois anos fora, Marcia quebrou mais um paradigma. Em vez de trabalhar com o antigo orientador na UFRGS, tratou de embalar bem todas as ideias novas e conhecimentos que havia adquirido na temporada no exterior e criou o próprio grupo de pesquisa. "Quebrei uma tradição, e tudo na minha vida ficou mais difícil. Mas eu tinha um respaldo: nesses dois anos eu construí uma rede internacional robusta, e isso me segurou", avalia.

Da pipa de plástico à água

O momento em que encontrou o foco de sua pesquisa acadêmica se relaciona com aquele de anos atrás, quando montou a pipa de plástico para ganhar dos amigos do bairro. Ela estudava sistemas complexos, os polímeros, quando percebeu um comportamento estranho da água que "caminhava" por esse tipo de plástico. "Essa água está errada", pensava.

Dedicou-se, então, a estudar tudo sobre água, com o objetivo de debruçar-se sobre o tema durante um mês inteiro, para ajustar melhor a pesquisa sobre polímeros. "Isso faz 26 anos", diz, aos risos. "Eu descobri que aquela água era estranha, e que as pessoas usavam ferramentas computacionais a que eu não tinha acesso, muito sofisticadas, para estudá-la", descreve.

Era preciso desenvolver modelos mais simples e intuitivos. "Eu vou fazer uma coisa leve como aquela pipa de plástico", decidiu a cientista, que ganhou prêmio internacional pelo trabalho. Uma de suas missões na ciência passou a ser, então, usar as anomalias da água para fazer coisas legais. "Atualmente, usamos as anomalias na mobilidade para desenvolver filtros de dessalinização mais eficientes. Eu faço isso no computador, é teoria, mas, hoje, em Minas Gerais, já há um grupo trabalhando com a Petrobras construindo um filtro pequeno, para barco."

Aula divertida, sim!

Marcia não estudou pedagogia para começar a dar aulas, sempre fez isso de maneira instintiva, usando a organização e a facilidade de aprender como aliadas. "Dar aula sempre foi uma arte", resume. E também se tornou uma face diferente e necessária da realização profissional.

"No trabalho de pesquisa, às vezes, tu entras num gueto e não consegues sair. Quando tu vais para a sala de aula, voltas com alguma coisa que fez de concreto naquele dia. A grande ideia, essa casa final do ensino, às vezes, demora muito para mim. Mas a aula está lá. Realiza. Alguém deu atenção para aqueles alunos, deu matéria, dialogou com eles. Tem uma coisa de satisfação, mesmo quando tu não estás muito bem", reflete a reitora.

A derrubadora de portas

A vocação política foi outro lado que Marcia desenvolveu. Ao perceber o abismo enfrentado para que mulheres se tornassem cientistas e ocupassem mais cargos de liderança na área, passou a fazer desse cenário outro objeto de estudo. Foi, inclusive, premiada pela American Physical Society em reconhecimento aos serviços humanitários prestados.

Uma mulher na física que usa batom vermelho, minissaia, gesticula e diz aquilo que está na cabeça. A irreverência de Marcia sempre incomodou. Colegas reclamavam do tanto de piadas que faz em palestras e diziam que ela nunca seria levada a sério. Em resposta, as críticas são ignoradas e a pesquisadora comprova sua habilidade entregando ciência de qualidade, publicada em boas revistas. Em 2020, foi reconhecida pela Forbes como uma das mulheres mais influentes do mundo, além de colecionar títulos nacionais e internacionais. "Não tenho opinião: eu tenho dados. Você vai brigar com os meus dados, não comigo", decreta. 

"Eu tinha noção de que, para que outras mulheres, mais tímidas, menos seguras, pudessem chegar mais longe era importante eu quebrar algumas portas e chamar a atenção de que havia pouca mulher na sala, de que não havia nenhuma pessoa negra na sala. Era importante eu fazer isso porque a crítica que vinha, a perseguição, não me afetava. Era um ambiente fora de mim."

Quando se cansava — e esse peso se faz presente ainda — pedia conselhos à mãe, hoje com 91 anos. "Ela dizia assim: 'Marcia, se tu viestes com um talento para aguentar, para conseguir fazer tudo isso, e não sofres, tens que fazer. É tua obrigação", relembra a reitora. E assim ela fez. "Vamos ter que arrebentar algumas portas para que essas mulheres não sofram. E como não me afeta, eu nem tô aí com o que dizem, vamos embora!"

Essa decisão significou ter de transformar um pedaço da vida em uma vida profissional. "Claramente, para mim, ter filhos não estava na equação", relata. Marcia então se separou do marido — de quem é amiga até hoje —, para que ambos pudessem seguir os planos pessoais e profissionais sem pressões e arrependimentos. "Hoje em dia, eu sou casada de novo, mas com uma pessoa que já tem seus filhos do outro casamento, que entende que eu sou a estrela principal da minha vida."

Sobre as críticas que vêm até hoje, e que ainda virão, ela mantém o posicionamento firme. "Em ciências exatas não tem cancelamento. Porque se a ciência que tu fazes é boa, o que é que pode acontecer? Se não gostar de um curso vai deixar de usar a tabela periódica que eles inventaram? Não, né?", questiona a reitora. "Vão te sabotar. Mas, apesar desses ataques, continuarei sendo eu mesma. Sempre."