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ACESSIBILIDADE

Medicina humanizada: Plataforma cria receitas ilustradas para pacientes com baixa alfabetização

Desenvolvida por um médico e um engenheiro do Google, a ferramenta Cuidado para Todos usa o design da informação para garantir autonomia a pacientes não letrados

Cuidado para Todos. Esse é o lema e o nome da plataforma gratuita que disponibiliza recursos visuais — como artes, fotos e vídeos — para profissionais da saúde montarem receitas acessíveis. Em um país com mais de 11,7 milhões de analfabetos, prontuários médicos escritos podem gerar dúvidas e interpretações que comprometem o resultado do tratamento, como observou, na prática, o médico pernambucano Lucas Cardim, um dos criadores da ferramenta. 

Na Unidade Básica do Bebedouro, localizada na Área Rural de Petrolina, o uso da plataforma é uma realidade, e pacientes não letrados recebem uma receita com símbolos explicando o passo a passo para o uso da medicação. Como foi o caso Maria das Dores*, uma paciente idosa com diabetes, que, agora, consegue aplicar a caneta de insulina em casa, sem a necessidade de ir ao hospital.  
Além do sertão pernambucano, mais de 40 profissionais em 14 centros de saúde no Brasil adotaram nos atendimentos o uso do Cuidado para Todos, apesar de não ter relação direta e formal com o Sistema Único de Saúde. “A plataforma quer garantir dignidade e equidade aos milhões de não letrados”, afirma Cardim.  
Há seis anos, o projeto vem sendo desenvolvido, sem investimento externo, por uma equipe multidisciplinar, que inclui Davi Pires, engenheiro de software que trabalha na Google. Na prática, a ferramenta, disponível no site cuidadoparatodos.com.br, agiliza a montagem de um receituário ilustrado que simboliza o passo a passo do tratamento. Há, também, a opção off-line para profissionais que atuam em áreas de pouco acesso à internet, como em embarcações na Amazônia. 
Para além de não letrados, o Cuidado para Todos também pode auxiliar idosos com dificuldades de memória, pessoas com deficiência física ou mental e pacientes em uso de múltiplos medicamentos. 

A agonia do médico e do paciente 

O projeto Cuidado Para Todos nasceu da necessidade de simplificar a comunicação clínica. “Muitas vezes, explicava o tratamento, entregava o papel e o paciente olhava vazio. A gente não sabia se ele voltaria ou não tendo feito o tratamento correto”, relata o médico pernambucano. Embora o desenho manual seja um recurso comum entre médicos, a alta demanda e a escassez de tempo nas unidades de saúde tornam a prática insustentável. “Quem desenha acaba atrasando ou saindo do expediente mais tarde”, conta. 
Foi nesse cenário que, em 2020, Lucas se uniu a Davi, programador e amigo de infância, para desenvolver uma ferramenta que agilizasse o processo. O engenheiro, então, desenvolveu uma tecnologia simples e de fácil acesso, mas que garantisse rapidez e proteção de dados. 

Os símbolos 

Os desenhos são fundamentais para o Cuidado para Todos. “A gente entende a informação de várias maneiras, pelo texto, mas também por outras coisas como a imagem”, afirma a professora Renata Cadena, especialista em Design da Informação, que cuida dessa parte no projeto. 
O formato dos ícones não foi uma escolha ao acaso, mas fruto de uma imersão na realidade de Petrolina. Durante os testes, a equipe percebeu que os pacientes entendem melhor as ilustrações com feições humanas e detalhes realistas. Os ícones sintéticos, como o ‘boneco palito’, distanciaram o paciente. 
Assim nasceu a ‘Dona Maria’, personagem que personifica o paciente local e guia o tratamento através de uma dieta visualmente familiar. Ou seja: os elementos abraçam a rotina, como cuscuz, feijão e arroz, sem referências estrangeiras. 
Para garantir ainda mais clareza, Renata utiliza da redundância visual: se o remédio deve ser tomado pela manhã, a receita deve ter os ícones do sol, do galo cantando e da xícara de café. 

Como funciona o Cuidado para Todos 

A ferramenta gratuíta fica disponível em um site. Ao acessar o endereço, o profissional consegue montar prontuários no modelo padrão, sem layout de instituições. No centro, há um espaço que simula uma folha com um cabeçalho, com espaço para colocar o nome do estabelecimento de saúde, do médico e número de registros. Em seguida, uma parte branca, que é preenchida com os elementos que simbolizam os medicamentos e as orientações. 
Também há vídeos e fotos disponíveis para orientar o paciente. Os procedimentos mais comuns, como uso de Inaladores e aplicação de insulina, já tem uma receita pronta, que o médico pode personalizar, caso tenha necessidade, em uma aba especial.  

A sensibilidade no olhar 

Especializado em Medicina da Família e Comunidade, o pernambucano deixou o jornalismo de lado e decidiu entrar na medicina, após uma experiência em Alagoas. Uma de suas grandes inspirações é o médico Patch Adams, precursor da medicina humanizada, cuja história é retratada no filme Patch Adams: o amor é contagioso, protagonizado por Robin Williams.  
Por uma coincidência, Lucas se encontrou com Adams em uma feira de frutas e verduras em Seattle, nos Estados Unidos. Durante a conversa, o médico brasileiro foi aconselhado a não comercializar o Cuidado para Todos. “Eu já tinha esse ideal... mas isso me ajudou muito para fixar os pés assim”, comentou.  
A ideia de monetizar o projeto nunca passou pela mente de Lucas e sua equipe. Ele definiu que sua meta é permitir que o “não letramento não seja uma barreira para o acesso à saúde”. O objetivo agora é doar a tecnologia para que ela seja integrada ao Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC) do Ministério da Saúde, tornando-se uma política nacional. “Queremos essa ferramenta na mão do maior número de pessoas possível”, reforça o programador Davi. 
*Estagiária sob a supervisão de Ana Sá