Na loja da QI 15 do Lago Sul, dois filhos brincavam de pique-esconde sobre os sacos de ração. Corriam pelos corredores, etiquetando produtos nas férias. Nenhum dos dois sabia, àquela altura, que um dia aquele chão seria deles. Priscila tinha três anos. Guilherme, cinco.
A Cia. da Terra nasceu em 1º de abril de 1992, — e foi uma ideia animada. O pai de Viviane Rocha estava se aposentando do Banco do Brasil; o marido trabalhava no setor privado; o irmão entraria na estrutura. Cada um tinha uma expertise. “Foi uma grande animação, ficou todo mundo muito empolgado”, conta Viviane.
Pet shop, em 1992, era novidade em Brasília. Viviane era formada em sociologia e trabalhava na Receita Federal quando, em 2002, o marido faleceu. Ela assumiu. “Foi um susto. Tive que me adaptar muito.”
Guilherme tinha 15 anos, Priscila, 13. A mãe sempre dissera que eles não precisariam trabalhar na empresa — na realidade, preferia que escolhessem outro caminho. “Era para a gente se formar, e ela ia vender”, lembra Priscila. Não foi o que aconteceu. Priscila fez psicologia, especializou-se em atendimento a crianças, tentou seguir caqrreira, mas a loja sempre esteve perto. Um dia, disse à mãe que queria fazer parte da empresa. Viviane cedeu. Para Guilherme se tornar sócio, os termos foram os mesmos: faculdade primeiro; depois empresa, com salário de mercado. Guilherme fez administração e logo se tornou sócio.
A divisão de função se revelou espontaneamente. “A gente tirou a sorte grande”, diz Priscila. “Aptidão é uma coisa que a gente não escolhe. Eu e Guilherme temos aptidões completamente distintas — e primordiais para a empresa.” Ela cuida de pessoas e marketing. Ele, das finanças, da TI, dos sistemas. Viviane trabalhava de forma intuitiva. Os filhos trouxeram o técnico — e isso ela reconhece, foi o que a empresa precisava. “As vezes, eu não entendia alguns termos, não conseguia fazer a parte do marketing direito. Foi muito bom eles chegarem.”
A sociedade entre irmãos tem desgaste próprio. “A gente tá normalmente em direções opostas”, admite Priscila. “Eu sou comercial, quero comprar. Ele é o financeiro, tem que me frear. Diariamente, a gente negocia.” Em 11 lojas e 90 funcionários, a negociação é constante. O maior desafio, porém, não é financeiro. “Tem fases em que toda hora que a gente está junto, quer falar da empresa”, diz Priscila. “E aí a gente vira só sócio. Eu preciso saber como minha mãe está na vida pessoal, como meu irmão tá no casamento. São minha família, antes de serem sócios.”
Viviane, quando perguntada o que foi mais difícil — ser empresária ou ser mãe —, respondeu sem vacilar: “Ser empresária.” E sorri. No Dia das Mães, os dois repetem a mesma palavra para descrevê-la: resiliência. “Empresa exige 24 por 7. Filho exige 24 por 7”, diz Guilherme. “Ela fez os dois ao mesmo tempo, do jeito dela, sem perder nenhum dos dois.” Viviane sorri. Não acrescenta. Do pet shop da QI 15 às 11 lojas de hoje, muita coisa mudou. O ponto de partida não: uma sócia chamada mãe.
Empresa exige24 por 7. Filhoexige 24 por 7”
Guilherme Davis,sócio da Cia da Terra
