A vivência nas entrequadras e na Escola Parque moldou a paixão de João José Vianna pelo basquete. Quando não estava nas quadras da vizinhança, jogando por puro prazer, era na instituição modelo pensada por Anísio Teixeira que encontrava espaço para fazer o que mais gostava e aprender sobre a importância do esporte. Ali já era Pipoka, o apelido que o acompanha até hoje e que está marcado na memória do esporte nacional depois do feito histórico no Pan-Americano de Indianápolis, em 1987, e de uma carreira cravada de sucessos.
A aposentadoria do basquete veio aos 43 anos — bem acima da média para esportes de alto rendimento — e acompanhada de uma decisão sobre os novos rumos da carreira: seria professor. Depois de muitas idas e vindas, havia concluído o curso de educação física e acumulava um diploma de pós-graduação. As titulações, junto à experiência em quadra, o habilitaram para ser professor universitário.
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Hoje, celebra com orgulho o Dia do Profissional da Educação Física, comemorado todo 1º de setembro, e guarda histórias de conquistas também na sala de aula. A primeira delas é o próprio processo de saber transmitir o conhecimento para, em seguida, reunir relatos de momentos de descontração e de orgulho ao encontrar ex-alunos bem-sucedidos. A decisão pelo curso superior não foi simples. As viagens constantes para participar de campeonatos tornaram a tarefa desafiadora, já que as mudanças de universidade eram constantes.
Tentou outras duas graduações, em economia e em comércio exterior, antes de ser aconselhado a seguir aquela para a qual tinha toda a base dada pelo esporte.
Coleção de mestres
Foi justamente na educação que encontrou inspiração para o ofício. Pipoka se lembra ainda de sua primeira professora de educação física, Maria Emília Rondon, que dava aulas na Escola Parque da 308/307 Sul, no contraturno que ajudou a formar uma geração de alunos brilhantes, com destaque nas mais diversas áreas em Brasília.
Dos 8 aos 10 anos ele praticou todo o tipo de esporte: natação, atletismo, basquete e muito mais. “O esporte foi entrando na minha vida dessa maneira”, relata ele. Os pais, Flauzino Vianna e Alvaci da Rocha Vianna eram servidores públicos. A família morava ali perto da escola. Foi nesse período que participou das primeiras competições, como os Jogos Escolares do Distrito Federal.
No basquete, chegou até a enfrentar Joaquim Cruz, o craque do atletismo, antes de ele se dedicar exclusivamente às corridas. Mais tarde, fariam a dobradinha de ouro no Pan de 1987, Pipoka na Seleção Brasileira Masculina de Basquete e Joaquim nos 1.500 metros.
O primeiro contato com o basquete, portanto, foi no contexto escolar e, em seguida, no empírico — o esporte das praças. “Tinha um professor de basquetebol ali na entrequadra 106/107 Sul, onde há umas quadras esportivas. Ele estava dando aula para as crianças que queriam aprender basquete e, como meu prédio era do lado, ficamos sabendo e a turma toda foi para lá”, relata.
Quando as aulas na quadra acabaram, ele logo descobriu outro ponto perto de casa para treinar, o Centro de Ensino Elefante Branco. Ali o professor Pedro Rodrigues ajudou a aprimorar os fundamentos do basquete. “Então, eu passei pelos três tipos de esporte: escolar, de praças e profissional. Eu comecei a treinar com o professor Pedro no Minas Brasília, e passei a participar dos campeonatos aqui.”
Profissional em formação
Num dos jogos, foi descoberto pelo clube de São José dos Campos, e aos 17 anos, deixou Brasília para se tornar profissional. Passou ainda por Monte Líbano, Flamengo e foi o segundo brasileiro da história a jogar na NBA, a liga norte-americana do esporte, que tem por padrão selecionar atletas do país que tenham passado por universidades nos Estados Unidos.
“Fiquei feliz, porque o caminho natural para chegar à NBA naquela época era passar pelas universidades americanas, e aí tem um draft e você é selecionado pelas equipes. Eu quebrei isso. Fui direto da equipe daqui, o Monte Líbano, para o Dallas”, destaca Pipoka. “Para mim, foi uma uma satisfação imensa poder trabalhar com os caras lá. Foi pouco tempo, mas muito intenso. E me serviu para ser professor também, ver que você tem de tentar sempre chegar à excelência, ser a vitrine, ser o exemplo daquilo que você faz.”
O fim da carreira foi no Universo, de volta à terra natal, Brasília. Pipoka conta que só carrega dois arrependimentos na vida. O primeiro é não ter aceitado o convite que recebeu para estudar nos EUA quando houve o convite. A migração teria permitido treinar com as melhores condições, e não no improviso, como ocorria no Brasil. Em vez de poucos meses de atuação, ele acredita que teria feito carreira da NBA. O segundo arrependimento é uma cirurgia mal-sucedida para correção da miopia, que comprometeu ainda mais a visão.
Mesmo nas condições pouco ideais concedidas pelo esporte brasileiro, a Seleção Masculina de Basquete da qual ele fez parte, conseguiu o feito até hoje imbatível: ganhar dos norte-americanos em casa. O que ocorreu foi uma conjunção perfeita de fatores, como narra Pipoka: dois grandes gênios do esporte, jogando com um time igualmente talentoso e bem treinado; uma mudança de regra recente; e a arrogância dos donos da casa.
“Quando nós começamos a jogar, a coisa ia saindo muito fácil. Tínhamos os melhores arremessadores do mundo, Oscar e Marcel, um pivô de muita força, o Israel (Machado), e o restante muito versátil” avalia. A partir do momento que Oscar e Marcel conseguiram encaixar as cestas de três pontos (recém-implementadas no esporte), ninguém mais segurou a Seleção.
Na avaliação de Pipoka, inclusive, esse nem foi o jogo mais difícil da competição. A partida anterior, contra o México, que imprimiu um ritmo muito parecido ao brasileiro, havia sido muito mais complexa. E, para ele, se o técnico da seleção All Star tivesse assistido a esse jogo, teria evitado o triunfo brasileiro.
Mas a história recompensou o talento dos nossos ícones, que voltaram para casa ovacionados. Pipoka, que jogava como pivô, lembra que demorou a entender a dimensão do feito. Nem a ligação para casa, quando ouviu do pai que a rua do Beirute, na 109 Sul, havia parado para celebrar, foi suficiente. A ficha caiu quando entrou no avião de volta para o Brasil e no bolso da poltrona à frente a capa do The New York Times estampava a foto dos jogadores brasileiros.
O grupo mantém contato até hoje, por meio do WhatsApp, e compartilha lembranças. No próximo ano, planejam um reencontro para celebrar os 40 anos da conquista histórica, com o amargor e as saudades eternas deixadas pela partida do líder Oscar Schmidt.
O primeiro encontro de Pipoka com Oscar não foi presencial. É do Mão Santa o primeiro tênis de basquete que ele usou. “Meu pai não tinha grana para comprar. Naquela época só tinha importado”, conta o craque, que calça 47/48. “O Oscar, que já viajava, já era da Seleção Brasileira, doou um tênis usado ao professor Pedro e ele me deu”, relembra, com carinho.
“Eu vivenciava o basquetebol de forma bastante profunda. Saía de um campeonato para o outro — paulista, brasileiro, Seleção —, e era um prazer também. Jogava muito, muito”, orgulha-se.
Estudos sempre em dia
Depois da dificuldade em terminar o curso de economia, Pipoka partiu para o de comércio exterior, mas outro problema interrompeu a jornada: o programa humorístico da TV Globo Casseta&Planeta. Uma das esquetes mais famosas fazia piadas com produtos muito ruins da empresa fictícia Organizações Tabajara.
Acontece que Pipoka cursava graduação na Faculdade Tabajara, e logo viu que poderia ter problemas no mercado com o diploma. Hoje, ele leva a situação com bom-humor e conta que a faculdade trocou de nome para evitar mal-entendidos.
Uma amiga educadora física, então, deu o conselho que o ajudou a decidir os novos rumos. À época, jogava no Flamengo, e conseguiu se matricular e concluir a graduação em educação física na Universidade Gama Filho.
O convite para assumir uma cadeira no curso de graduação da Unieuro, em Brasília, veio anos mais tarde, perto da aposentadoria das quadras. Mas aí outro dilema se impôs, o que ele chama de “pegadinha da vida”.
Pipoka percebeu que, apesar de todos os estudos e treinos, não sabia ensinar. Chegou o momento de pedir apoio a mais um dos mestres da sua trajetória. Ele recorreu ao professor Ronaldo Pacheco, treinador de diversos clubes e que dava aulas na Universidade de Brasília (UnB). “Vem aqui para casa tomar um café que a gente conversa sobre isso”, chamou Ronaldo ao atender à ligação.
Pipoka fez um intensivão de algumas horas e saiu de lá com recomendações de leitura que seguiu à risca. “Um dia antes de eu começar a dar a minha primeira aula não dormi, de nervosismo. E assim fui. Quando terminou a aula e botei o pé em casa, dormi até o outro dia”, conta, aliviado. E assim tem sido desde 2007.
Hoje, o local de trabalho é a Universidade Projeção. O objetivo da carreira, agora, é fazer o doutorado, por uma questão de excelência, mas também de representatividade. “Aí voltamos ao início da carreira, à excelência, à busca de ser referência. E ainda tem o fato de eu ser negro. Poucos negros têm doutorado ou um diploma de graduação.”
Pipoka também é um defensor da qualidade dos cursos de educação física. Na avaliação dele, uma graduação a distância não forma profissionais preparados. “Precisa de investimento, gestão, tudo. A começar pela coragem de proibir, porque o nível dos professores que estão sendo formados é baixíssimo”, alerta. “Você vai entregar seu filho numa piscina a um professor que aprendeu a nadar vendo o vídeo?”, questiona.
Apesar das mudanças que ele acredita serem necessárias, Pipoka assegura que se encontrou na nova carreira. “Eu sou feliz demais nessa nova profissão, e fico muito feliz de dar e receber dos meus alunos esse desejo de continuar buscando excelência. Porque, se eu não visualizar mais isso, não vibrar com cada dia de aula, eu iria encerrar e começar outra atividade.
E o apelido?
Já na infância João José virou Pipoka. Ele conta que no intervalo das aulas sempre comprava um saquinho de pipoca doce para comer. Uma amiga, Milena, inventou, então, o apelido. Quando começou a treinar no Minas, o técnico Pedro perguntou como poderia chamá-lo, pois João José era um nome muito grande. Ele só conseguiu pensar no apelido da escola, e assim virou Pipoka Vianna.
