Holofote

Atenção: post de deputada tem desinformação sobre pandemia da covid-19

Deputada federal Bia Kicis (PSL/DF) compartilhou relato que atribui às prefeituras gasto com sepultamento em casos de morte pelo coronavírus, o que geraria interesse econômico das famílias das vítimas para constatação da doença em atestado de óbito

Alan Rios
postado em 18/08/2020 17:38
 (foto: AFP/MICHAEL DANTAS)
(foto: AFP/MICHAEL DANTAS)

"Quando colocam covid (no atestado de óbito), a família não tem que providenciar o sepultamento, fica tudo por conta da prefeitura. Os próprios médicos oferecem que se coloque a causa da morte como covid, para a família economizar". Esse é o relato de um morador de Minas Gerais, compartilhado para mais de meio milhão de pessoas nas redes sociais da deputada federal Bia Kicis (PSL/DF). Veja a publicação da parlamentar:

Post publicado no Instagram
Post publicado no Instagram (foto: Reprodução/Instagram)


Segundo a postagem da deputada, "não tivemos 100 mil mortes por covid no Brasil. Nem a metade disso. Tivemos milhares de pessoas que economizaram no sepultamento". O depoimento é uma crítica aos números oficiais de óbitos em decorrência do novo coronavírus, dando a entender que, muitas pessoas que morrem por outras doenças, têm atestada a covid-19 como causa do falecimento devido a uma estratégia econômica.

Porém, o depoimento não é compatível com a realidade. Isso porque a prática descrita no relato, de custeio de sepultamento pelo Estado em todos os casos do novo coronavírus, não existe. O Ministério da Saúde informou ao Holofote que "não repassa verba para registro de morte e sepultamento".

A Secretaria de Saúde de Minas Gerais também esclareceu que "não existe nenhuma recomendação para que as prefeituras se responsabilizem pelos custos do sepultamento". A pasta correspondente no DF explica que a diferença de um enterro de pessoa morta em decorrência da covid-19 para outros sepultamentos é que, "nos casos em que o paciente vem a óbito apresentando um quadro de infecção pelo novo coronavírus, o enterro deve seguir os protocolos sanitários necessários a fim de se evitar novas infecções".

Existe, em Brasília, o programa de Sepultamento Social da Secretaria de Justiça e Cidadania (Sejus), que é destinado aos usuários da Assistência Social do DF desde antes da pandemia, sem ter qualquer relação direta com casos de covid-19.

Incoerências

O relato foi curtido por mais de 19 mil pessoas na página do Instagram da deputada, mas, até entre os apoiadores, há conflitos com a informação. Um internauta comentou: "Quando coloca covid-19 (no atestado de óbito), eles recebem (R$) 19 mil por cada morte. Estado, município e companhia". Essa outra versão para argumentar que os números oficiais de mortes são irreais mostra o Estado recebendo uma quantia — não se sabe de quem — para cada paciente morto pela doença.

Na versão compartilhada por Bia Kicis, o Estado teria um gasto para cada morte, o que não condiz com a realidade de dificuldades orçamentárias em uma pandemia. O último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde mostra que 108.536 pessoas morreram no Brasil por causa do vírus. O país tem ainda 3.359.570 casos confirmados da doença.

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