A crônica da morte de Maradona escrita por um dos súditos de D10S

Diego Maradona ostentou o que compatriotas lendários como Carlos Gardel, Eva Perón e Ernesto Che Guevara conquistaram só após a morte

Sebastián Roggero - De La Voz del Interior / Especial para o Correio
postado em 26/11/2020 11:49 / atualizado em 26/11/2020 11:51
Diego Maradona, em coletiva de imprensa, como técnico da seleção argentina em janeiro de 2009 -  (crédito: Juan MABROMATA / AFP)
Diego Maradona, em coletiva de imprensa, como técnico da seleção argentina em janeiro de 2009 - (crédito: Juan MABROMATA / AFP)

Córdoba (Argentina) — Diego não era D10S... era simplesmente Diego. Maradona havia conseguido na vida o que Carlos Gardel, Eva Perón e Ernesto Che Guevara só alcançaram depois de deixar este mundo: ser um mito argentino. Mas, o preço que pagou por isso foi, talvez, o mais alto de todos: não poder viver sua própria existência. Ou vivia muitas em uma. Uma dessas vidas, a última, foi escrita na quarta-feira (25/11).

Diego diz aos que estão com ele que se sente mal. Um psiquiatra, um psicólogo, uma enfermeira, sua empregada, um sobrinho e uma pessoa próxima de seu advogado o acompanham no local. Diego está cambaleando há vários dias. Deprimido e em má forma física, recuperando-se da cirurgia no cérebro e preocupando a todos com sua saúde debilitada.

Vulnerável, Diego vai para a cama às 10h de quarta-feira e não se levanta. São 12h quando, em repouso, deixa de respirar, em Buenos Aires. Nem mesmo os médicos, que cabem em nove ambulâncias, reavivam seu coração, órgão que capta emoções a que nenhum outro ser humano teria resistido. Funcionou para Diego por 60 anos. Batia com entusiasmo no menino da Vila Fiorito, onde nasceu. Ele se revolucionou como jogador de futebol rochoso, aquele que concebeu sua imortalidade em 10 segundos no estádio Azteca (na Cidade do México), tornando possível o gol impossível. E ele diminuiu a velocidade para um adulto lento e tagarela.

A informação é ampliada na quarta-feira. Não há como negar a notícia que circula nos grupos do WhatsApp. Não há milagre. As telas reproduzem aquelas imagens que, borradas ou nítidas, foram instaladas no disco rígido da memória coletiva. Os minutos de silêncio nos estádios. Os tweets de celebridades. Os portais do planeta aplicam todas os idiomas a um único: Maradona, futebol. E surgem as fotos do portentoso Diego, aquele de queixo erguido e olhar combativo.

“El Diego” com lábios apertados ansiando por vingança no México. E o Diego daqueles de boca aberta, em Roma, em 1990, vomitando nos italianos que são todos “fdp” por insultar o hino (antes do início da decisão contra a Alemanha). E aí o 10 branco nas costas da camiseta azul, aquela que os ingleses viram em primeiro plano em 22/6/1986 (na vitória da Argentina por 2 x 1 nas quartas de final da Copa do México), tem mais simbolismo do que nunca. É cultura.

Seus ex-companheiros do campeonato mundial se rendem. Eles o amam como um amigo. Eles viveram aquele “Maradona aliado” exatamente quando ele estava se tornando um mito. Os gritos de “Maradó, Maradó” são cantados em diferentes partes do país e em Nápoles. Choram por Diego. Os gritos são mais altos do que os de “você se lembra quando Maradona?” Não há divisão. Não há cobranças a Maradona, de quem esperava-se um exemplo.

Jorge Valdano, lírico e apaixonado, também companheiro do extraterrestre Maradona, uniu palavras em sua defesa: “Não encontrarão uma única censura (a Diego) porque o jogador de futebol não tinha defeitos e o homem foi uma vítima. De quem? De mim ou de você, por exemplo, que certamente, em algum momento, o louvamos impiedosamente”.

O outro Diego, o Diego que não é do povo, o Diego família, deixa para trás quem manterá o vínculo. Filhas e filhos: Diego Junior, Dalma, Gianinna, Jana e Diego Fernando. E haverá outras filhas e filhos que ainda lutam judicialmente para serem reconhecidos. O Diego da última vez sentiu saudades da mãe, Dona Tota. O Diego de sempre sentia falta do pai, Don Diego. O mais íntimo Diego faz falta aos irmãos: Ana, Rita, Elsa, Lalo, María Rosa, Claudia e Hugo.

Eles são aquele círculo íntimo que sofreu com as desgraças de Diego aos 20 anos, aquele que superou os excessos, aquele que começou a danificar aquele corpo e aquele coração que se desvaneceu numa serenidade sem precedentes para Diego. Existe um Maradona para cada pessoa. Essa multiplicação torna-o imenso. Para todo o sempre.

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