Nosso eterno vira-latismo

Em meio a tantos absurdos - recheados de moralismo, preconceito e xenofobia -, o que mais assusta é a concordância da maioria dos leitores com a lista

Baptista Chagas de Almeida *
postado em 29/12/2013 00:00

O vira-latismo que assola parte da população brasileira é assustador. Circula nas redes sociais um texto supostamente escrito por um estadunindense, casado com uma brasileira e que morou três anos em São Paulo, desancando o Brasil. O texto lista 20 motivos pelos quais o suposto rapaz não gostou de morar aqui. Entre os motivos de ter odiado o Brasil está o fato de, segundo ele, as ;pessoas que realizam serviços serem geralmente malandras, preguiçosas e quase sempre atrasadas;. Será uma referência aos trabalhadores domésticos? Os daqui trabalham muito. Diz ainda que as ;mulheres brasileiras são excessivamente obcecadas com seus corpos e são muito críticas e competitivas com as outras;. O culto ao corpo é mundial e essa história de que mulher disputa com as outras é muito sexista e ultrapassada para ser usada como argumento contra o Brasil.

Reclama também da falta de comida congelada, do trânsito, da polícia, da internet, da eletricidade, da corrupção, da burocracia, da sociabilidade da população, dos impostos e da qualidade da água, que ;os brasileiros bebem, mas não morrem;. Diz ainda que os brasileiros são agressivos, oportunistas e não têm consideração com pessoas estranhas. E, segundo ele, a cerveja daqui não presta. É aguada. Afirma também que os brasileiros ;são altamente propensos a casos extraconjugais;. Vida sexual é assunto de foro íntimo e não vale discussão.

Em meio a tantos absurdos ; recheados de moralismo, preconceito e xenofobia ;, o que mais assusta é a concordância da maioria dos leitores com a lista. Mas é que ainda não superamos o "complexo de vira-latas" ou, nas palavras de Nelson Rodrigues, ;a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo, em todos os setores; . Um dia, quem sabe ;

Nota dissonante
Causou constrangimento anteontem em reunião em Governador Valadares com a presença da presidente Dilma Rousseff e do governador Antonio Anastasia a fala da prefeita de Ipatinga, a petista Cecília Ferramenta, durante encontro com gestores das cidades atingidas pelas chuvas. A prefeita usou a palavra para enaltecer as ações do deputado federal Gabriel Guimarães (PT), apoiador do seu governo, e reclamar do governo estadual na presença de Anastasia. Para quem presenciou a cena, a prefeita errou a mão ao usar a ocasião para fazer propaganda eleitoral, fora de época e de tom e em dissonância com o sofrimento das vítimas das enchentes.

Engavetador geral
O Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) abriu uma investigação para apurar os motivos do engavetamento de uma investigação sobre denúncias de caixa dois do DEM, no Rio Grande do Norte, que envolve a governadora do estado, Rosalba Ciarlini, e o presidente da legenda, senador José Agripino. As apurações eram de responsabilidade do ex-procurador-geral Roberto Gurgel, acusador na Ação Penal 470, conhecida como processo do mensalão.

Verba emergencial
O senador Clésio Andrade (PMDB-MG) encaminhou na sexta-feira pedido ao ministro da Integração Nacional, Francisco Teixeira, para a liberação de verba emergencial de R$ 100 mil para os municípios mineiros em situação de emergência por causa das fortes chuvas. O recurso, segundo ele, servirá para atender as famílias desabrigadas com, principalmente, alimentação, primeiros socorros e medicamentos. A situação é caótica, com quedas de pontes, barreiras, fechamento de estradas, casas destruídas e grande número de desabrigados. De acordo com o senador Clésio, assim que os relatórios da situação das cidades estiverem prontos, ele intercederá junto ao ministro para a liberação imediata de recursos.

Autorização para trabalhar
O ex-todo poderoso diretor-geral da Assembleia Legislativa, Dalmir de Jesus, é um dos advogados do ex-deputado Romeu Queiroz (PTB), um dos condenados na ação do mensalão. Amigos de longa data, Dalmir esteve na Papuda, visitando Queiroz antes de sua transferência para a Penitenciária José Maria Alkimin, em Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde cumprirá pena de seis anos por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Queiroz aguarda autorização da Vara de Execuções Penais de Ribeirão das Neves para poder trabalhar em uma de suas empresas.

Tome partido
A bancada feminina no Congresso Nacional quer mais mulheres na política. E não é sem motivo. As deputadas e senadoras realizaram um levantamento, que faz parte da cartilha ;Mulher, tome partido;, em que o Brasil aparece em um ranking de 188 países na 156; posição quando o assunto é a presença do sexo feminino no Poder Legislativo. O país está atrás dos Emirados Árabes, que aparecem na 100; posição, e quase na lanterninha na América Latina. De 34 países, o Brasil é o 30;.

PINGA FOGO

A polícia de Dubai, Emirados Árabes, ganhou modelos novos para sua frota de segurança já formada por Ferrari, Lamborghini, Aston, Camaro e Bugatti. A mais nova aquisição são veículos McLaren com motor 3.8 , avaliados no Brasil em R$ 2,2 milhões.

Sutilezas semânticas: a destruição de um Shopping nos EUA por um bando de adolescentes foi classificada como um ;flash mob selvagem;. A ocupação dos shoppings em São Paulo por jovens da periferia em protesto contra a proibição de bailes funks é vandalismo.

Terra sem lei é a melhor definição da situação do Complexo Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís, no Maranhão, o único do estado, descrita por um relatório do Conselho Nacional de Justiça. O documento relata tortura, visita íntima dentro das celas, violência sexual contra parentes dos detentos e outros horrores. E como se não bastasse a conclusão de que o estado, comandado pela governadora Roseana Sarney (PMDB), tem sido "incapaz" de coibir a violência.

Quem batizou de ;desastre; o cartão que facilita o repasse de recursos federais a municípios em emergência foi a própria presidente Dilma Rousseff, em visita a Minas Gerais. Mas ele existe desde o ano passado e atende pelo pomposo nome de Cartão de Pagamento de Defesa Civil.

* Alessandra Mello - interina

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