Príncipes e sapos

Zulmira Furbino
postado em 29/12/2013 00:00
Era uma vez uma mulher de 37 anos, separada e com duas filhas. Ela acaba de chegar do Egito, para onde havia se mudado com o objetivo de se casar com um homem que conheceu pela internet e com o qual ficou batendo papo, trocando confidências e carinhos por dois anos. Os dois atravessaram noites sem dormir por causa desse amor internáutico, alimentado pelo fogo da distância.

Mas o idílio durou pouco. A casa caiu quando a história virou olho no olho, família brasileira com família islamita.

Era uma vez uma mulher de 37 anos que acaba de chegar destroçada do Egito, onde foi roubada, ameaçada, dormiu com ratos e teve um derrame que paralisou a metade do seu rosto.

Era uma vez uma mulher que não sabia que um príncipe teoricamente encantado, aliás, que príncipe nenhum, é garantia para o ;e foram felizes para sempre;, tão recorrente nos contos de fadas.

Li essa história, com variações sobre o mesmo tema, no site do jornal El País no Brasil, e descobri que há um sem-número de casos atuais de brasileiras vítimas de roubo, fraudes e violência cometidos pelos maridos ou pelas famílias dos maridos que conheceram pela internet e pelas redes sociais mundo afora.

O que me pergunto é: por que, num mundo onde as mulheres ganharam tanto espaço e poder, e no qual há uma imensidade de maneiras de se manter um relacionamento amoroso feliz e saudável, elas continuam se derretendo tanto com um pedido de casamento a ponto de se mudar de mala e cuia para o outro lado do mundo, mergulhando numa cultura inteiramente diversa da sua?

Por que essas mulheres se metem nas camas de homens que só conhecem de modo virtual, que falam uma língua diferente da sua e com quem conversam graças ao tradutor do Google?

Quem me conhece, sabe: não sou partidária de relacionamentos virtuais, embora acredite que em alguns casos até que pode dar certo. O problema é que as chances de errar são imensas. E muitíssimo perigosas para as mulheres.

Somos mais crédulas que os homens e não é incomum sermos atacadas por cegueira romântica. Se esse já é um problema recorrente no tête-à-tête, imagina o que rola sob o véu da rede mundial.

O caso me leva a pensar na estória da Pequena Sereia, que fez de um tudo para arranjar casamento, inclusive mudar a forma do seu corpo (no lugar de um rabo de peixe ganhou pernas) e perder a capacidade de expressão: sua bela voz.

Para o casal de psicanalistas Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso, autores do livro Fadas no divã, o conto é um manifesto sobre a impossibilidade de rompimento de algumas barreiras culturais, raciais ou familiares.

Tenho uma amiga que há muitos anos perdeu um bebê dias depois de nascido. Desesperada e sem o apoio do pai da criança, ela mergulhou em salas de bate-papo na internet até encontrar um alemão mais velho que bancava o tipo homem-perfeito-procura.

E lá se foi minha amiga morar na Alemanha, onde bancou a empregada doméstica do sujeito por anos a fio até se cansar e ir cantar noutra freguesia. Detalhe: no Brasil, ela era uma feminista empedernida.

O que é inegável é que desde sempre um pedido de casamento mexe com as entranhas femininas porque no fundo, no fundo boa parte de nós ainda acredita que o príncipe encantado existe e que tudo será diferente do que foi um dia se estivermos longe o bastante. Com ele.

Já eu aprendi a ser como Adélia Prado no poema Casamento: prefiro o sapo certo. E aqui mesmo.

Enquanto algumas mulheres dizem que se o marido quiser pescar tudo bem, desde que limpe os peixes, Adélia faz questão de se levantar a qualquer hora, ajudar a escamar, abrir, retalhar e salgar. ;O silêncio de quando nos vimos a primeira vez/atravessa a cozinha como um rio profundo./Por fim, os peixes na travessa,/vamos dormir./Coisas prateadas espocam:/somos noivo e noiva.;

No amor, precisamos aprender a descamar rios de alimentos e de palavras.

E nem precisamos nos casar para isso.

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