Must de verão

Must de verão

Desenvolvido por entidade do setor de curtumes, projeto Design na pele já rendeu frutos: além de estilistas especialistas na matéria-prima, surgem novos nomes no cenário fashion

Laura Valente
postado em 29/12/2013 00:00
 (foto: Patrícia Vieira/divulgação)
(foto: Patrícia Vieira/divulgação)



O Brasil está entre os maiores produtores de couro do mundo, mas surge o desejo de que seja também referência em artigos de design na matéria-prima: vestuário, calçados, objetos de decoração, utilitários e outros. Até agora, a produção dos mais de 700 curtumes nacionais que abastecem o mercado externo e interno é entregue para empresas dos setores automobilístico, moveleiro, calçadista e de confecção em ;estado de pele;, ou seja, apenas beneficiado. Principal órgão de entidade do setor, o Centro de Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB) quer mudar essa história.


O primeiro passo foi dado no início do ano, com o lançamento do Design na pele, projeto com apoio do Brazilian Leather em iniciativa do CICB e da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil). O objetivo é justamente levar criatividade e criadores aos curtumes. A primeira etapa conta com o estilista Ronaldo Fraga e a artista plástica Heloísa Crooco. Ambos visitaram e acompanharam a produção de 13 curtumes nacionais, ajudando na elaboração de artigos com alto valor agregado ; utilitários, bolsas, porta-retratos e roupas. Não por acaso, Fraga baseou a coleção desfilada na São Paulo Fashion Week (SPFW) na matéria-prima. ;Até então, era cru no assunto couro, só havia entrado no showroom de alguns curtumes. Justamente por esse desconhecimento decidi participar do projeto;, comenta.


Uma vez no olho do furacão, o estilista descobriu-se fascinado pela matéria-prima e suas possibilidades. ;O ofício do couro vai além da questão econômica, explica grande parte da cultura local. Seja a do sertanejo, no Nordeste, seja a da migração italiana e alemã no Sul;, enfatiza ele. A partir do projeto, Fraga usou couro vacum e pelica de carneiro para produzir acessórios e modelos da coleção outono-inverno 2014 inspirada no escritor Mário de Andrade. Como resultado, uma repercussão pra lá de positiva na mídia e a certeza de nunca mais deixar de explorar as possibilidades do couro. ;Optei por formas mais retas, volumes discretos, sutis, e muita riqueza em texturas: o couro vira renda, croché e por aí vai. Grande parte desenvolvi no projeto Design na pele. Conseguimos reproduzir até mesmo a pele do surubim, peixe típico do Rio São Francisco, em couro de boi e na pelica;. Ainda na opinião do estilista, já está na hora de os demais criadores brasileiros prestarem atenção no couro e em outras fontes de criação ainda pouco exploradas. ;


Creio ser um compromisso civil do designer criar uma ponte entre o Brasil feito a mão e a indústria. Não é simplesmente trabalhar com o couro, mas sair da posição cômoda do escritório e da confecção e embrenhar país afora procurando outras bases. Isso é acreditar na nossa moda;.

Raio x do
couro brasileiro

Número de empresas que trabalham com o beneficiamento
e comércio de couro: 700

Produção anual: 40 milhões de couros vacum, sete milhões de couros de cabra, além de alguns outros tipos chamados especiais ou exóticos, como couros de peixe, rã, cobra e jacaré

Valor exportado anualmente:
US$ 2,2 bilhões

Empregados do setor: 50 mil

Principais feiras nacionais:
Feira Internacional de Couros, Produtos Químicos, Componentes, Equipamentos e Máquinas para Calçados e Curtumes (Fimec),
em Novo Hamburgo RS); e a Inspira Mais, em São Paulo

Países consumidores: mais de 80, sendo China, Itália e Estados Unidos os maiores consumidores

Merece destaque: a produção sustentável, a partir de processos ecologicamente corretos

Divisão do consumo mundial em segmentos: 50% são dirigida para o setor de calçados; na sequência vem as indústrias automotiva (estofamento de carros), de decoração, de vestuário, de artefatos e produtos para segurança industrial. Já no mercado local, o consumo para calçados é de cerca de 20% uma vez que muitas empresas lamentavelmente
utilizam materiais sintéticos com o título de ;couro ecológico;, fraude que vem sendo veementemente combatida pelo CICB.

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