Savassi para sempre

Savassi no sangue

Em meio a prédios e muito comércio, famílias que viram a charmosa região se transformar resistem em casarões construídos pelos seus antepassados e nem pensam em deixar o lugar

Flávia Ayer
postado em 02/02/2014 00:00
 (foto:  BETO MAGALHÃES/EM/D.A PRESS)
(foto: BETO MAGALHÃES/EM/D.A PRESS)

Alda Savassi nasceu numa casa na Praça Diogo de Vasconcelos, quando ali era o Bairro Funcionários. Filha de Hugo, um dos donos da famosa padaria, viu o sobrenome batizar a região. Aos 92 anos, se orgulha de nunca ter abandonado a Savassi, onde cresceu, casou e criou três filhos. Em volta da casa, na Rua Antônio de Albuquerque, quase tudo mudou. De um lado: uma loja. Do outro: um prédio. Em frente: um bar. Mas os olhos azuis continuam a brilhar. ;Adoro aqui. Gosto de ir para o portão ver o movimento. Quando os corretores chegam, falo que só mudo depois de morrer;, diz, com elegância.

Dona Alda faz parte de um grupo de moradores que não sonham em ter casa no campo. Eles querem apenas continuar a viver tranquilamente em suas casas na Savassi, uma das áreas mais charmosas da capital, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Nem que para isso seja preciso resistir a muitas pressões. Além de se despedirem dos antigos vizinhos, eles viram arranha-céus e centros comerciais se instalarem ao lado de suas residências e disseram (e continuam a dizer) não a propostas milionárias de construtoras.

É porque há prazeres que não se pagam. ;Meus netos vêm aqui, estacionam o carro. Eu dou uma voltinha, adoro esse movimento;, reforça dona Alda, que mora com o filho Cássio, de 60. Embora goste do presente, um doce passado continua nas lembranças. ;Aqui era só casa. Tinha o cine Pathé, era uma beleza!”, conta. Foi preciso algumas mudanças para acompanhar os novos tempos. ;A casa não tinha grades antes e, hoje, não podemos deixar nada no jardim porque roubam;, conta Cássio.

Falando em jardim, esse é o grande destaque da casa da família Cadar, na Rua Santa Rita Durão. No imóvel de 1927, situado numa área de 1,3 mil metros quadrados, funciona também o consulado da Síria, país do falecido patriarca, cônsul Antônio Cadar. As parreiras e o chafariz são típicos do Oriente Médio, mas quem rouba a cena são as orquídeas, em frente ao portão, e a mangueira no fundo do quintal. As plantas garantem que a casa tenha temperatura amena em meio ao concreto.

;Não temos interesse em vender. Os sete filhos de meus pais nasceram aqui e a casa continua sendo o lugar onde todos se encontram;, conta Lecy Cadar, de 70, que ainda mora na casa. Os vizinhos fazem falta, mas as facilidades chegaram junto com o comércio. ;Aqui não precisa de carro para nada. Os corretores de imóveis batiam muito na porta. Agora eles já sabem que não queremos vender;, diz Lecy, que tem apenas uma vizinha daqueles tempos saudosos.

PROPOSTA Na mesma rua, a moradora Leila Mashura, de 64, já negou R$ 7 milhões pela casa onde nasceu e mora até hoje com o marido. ;Pegamos amor à casa, aqui eu tenho muita liberdade. E passa gente o dia inteiro, por ser uma localização central. Toda hora meus netos e filhas estão aqui;, diz. O escritório da família funciona no segundo andar da casa e a irmã mora nos fundos do lote.

O pai delas, Wadi Mashura, construiu o imóvel há 95 anos, quando chegou do Líbano. Com o tempo, foi necessário fazer adaptações e, para melhorar a renda, o jardim da frente foi substituído por lojas. Há cinco meses, a mãe de Leila faleceu e os corretores voltaram a aparecer. ;Dinheiro nenhum paga a minha tranquilidade e não me incomodo com os prédios;, afirma Leila.

Dono do Restaurante Buona Távola, na Rua Alagoas, Edmundo Lanna assiste silenciosamente às despedidas e conta nos dedos os vizinhos que restaram. ;Tínhamos grandes vínculos com os vizinhos, mas estão espremendo a Savassi de prédios e quem ficou não terá escapatória;, professa.


Palavra de especialista
BH descobre sua vocação

JOãO DE PAULA
MESTRE EM ARQUITETURA E URBANISMO
;As cidades se renovam e Belo Horizonte, ainda adolescente, com 116 anos, está em um período de descobrir sua vocação. A Savassi era um bairro de casas de funcionários do governo e, aos poucos, foi se transformando numa região de caráter comercial. O importante é ter normas mais criteriosas do que deve ser preservado e o que não tem interesse de preservação. Nesse processo, a população precisa ser mais ouvida.;

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