Cadê a nova política?

Tereza Cruvinel
postado em 02/02/2014 00:00
Durante a trovoada dos protestos do ano passado, os mais importantes atores dos principais partidos, como se acendessem velas para Santa Bárbara, a Iansã dos terreiros, passaram a defender uma nova forma de fazer política. As manifestações deflagradas por aumentos nos preços de passagens e capturadas pelos black blocs tiveram sua hora de negação do sistema e da política, vetando a presença dos partidos e jogando todos os políticos com mandato no balaio da ilegitimidade. Veio o refluxo, algumas medidas práticas foram tomadas, em diferentes esferas, mas a política seguiu no batido de sempre. Os protestos estão de volta, com o fermento da Copa. Depois, vem o da campanha.

Entre todos, só Marina Silva levantava antes essa bandeira, tentando criar a Rede como instrumento da tal nova política, embora um partido supostamente mais puro em seus objetivos e práticas nada possa dentro de um sistema marcado por vícios culturais e estruturais. Mas o discurso e a trajetória da ex-senadora deram-lhe maior aceitação no universo rebelde. Os que apoiavam sua candidatura presidencial passaram de 18% para 26% no período, na média dos institutos. Inviabilizada a Rede, ela juntou-se a Eduardo Campos, que encampou o discurso.

Começando pela presidente Dilma. Na época, ela respondeu com mais recursos para mobilidade urbana e outros serviços públicos criticados e, relativamente à política, com a proposta de um plebiscito para acelerar e legitimar a reforma política. Ainda havia tempo, mas tanto a base aliada como a oposição a rechaçaram. Feito o gesto, Dilma e o PT, que no passado encarnou a ruptura com as velhas práticas, seguiram na mesma trilha. Aí está a reforma ministerial, focada na ampliação e consolidação da coligação eleitoral para garantir à candidata Dilma mais tempo de tevê e a melhor teia de alianças nos estados. Dilma empossa amanhã só uma parte dos novos ministros, exatamente para que, na Casa Civil, Aloizio Mercadante possa negociar com os partidos, e, especialmente com o amuado PMDB, o resto da reforma. Ele não será um ministro administrativo, como Gleisi Hoffmann, na pasta, mas a eminência política da presidente, sintonizando ação governamental com movimentação eleitoral. O Congresso reabre na segunda-feira e tudo o que ali será votado passará pelo velho método. Dilma deve manter Ideli Salvatti em Relações Institucionais, mas agora sob a supervisão política de Mercadante. Tudo isso é velha política, e ninguém estaria fazendo muito diferente se estivesse lá. É o sistema.

Eduardo Campos acolheu Marina e seu discurso da nova política, mas logo teve expostas contradições significativas. Em Pernambuco, o governo é apoiado por vastíssima coligação de partidos heterogêneos, entre os quais dividiu as secretarias. Aécio Neves fustiga a presidente cada vez que ela exercita os velhos métodos e se vale do Estado conquistado. Nada de diferente fazem, porém, governos estaduais tucanos.

Agora os protestos estão de volta, inicialmente focados na Copa. Depois dela vem a campanha, a gastança eleitoral, as coligações com suas contradições e o radicalismo raivoso, que abafará o debate sobre propostas e ideias. Campos, aliás, postou recentemente em sua página que fará a campanha lastreada nas ideias, buscando o melhor do PT e o melhor do PSDB. Ele sabe que, na prática, as coisas não funcionam assim. Que na velha política os arranjos falam mais alto que as ideias.

De tudo isso sabemos, mas há algo que precisa ser reiterado. O Congresso não pode mais mudar nenhuma regra para as eleições deste ano. O Supremo, que, provocado pela OAB, deu sinais de que poderia proibir as doações de empresas a partir deste 2014 dá sinais de recuo. E seria mesmo um desatino impor mudança tão radical agora, quando o jogo está em curso, inclusive no que diz respeito ao financiamento das campanhas. Mas algo o Congresso pode fazer, com vistas ao futuro. Algo que seria compreendido e bem recebido: aprovar, neste primeiro semestre, a reforma política elaborada pelo grupo interpartidário criado pelo presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), após a rejeição do plebiscito de Dilma, com vigência para o pleito de 2018. Não é revolucionária, mas é viável e progressiva. O relator dos projetos derivados dela agora é o experimentado Esperidião Amin (PP-SC). Ninguém poderia reclamar de casuísmos e atropelos. Pois quem não quiser mudar a velha política, nem com tanta antecipação, estará rasgando a máscara.

Sucesso das vaquinhas
O deputado tucano Jutahy Júnior (BA) defende uma investigação sobre as doações na internet aos petistas condenados para o pagamento das multas. Acha suspeita a generosidade que garantiu recursos de sobra a José Genoino e Delúbio Soares, e agora serão repassados a José Dirceu e João Paulo Cunha. Não se sabe o que o Supremo pensa da generosidadade que pode, também, expressar a discordância de uma parte da sociedade com o julgamento e sua severidade seletiva. Outros condenados seguem soltos, outros processos, sendo adiados.

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