Bíblia na balada

Bíblia na balada

Jovens evangélicos ganham casa noturna em Belo Horizonte, a Santo Cristo Gospel Pub, onde dançam, paqueram e oram. Sem bebida alcoólica, lugar fica aberto até de madrugada

Tiago de Holanda
postado em 02/02/2014 00:00
 (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press
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(foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press )
À primeira vista, parece uma casa noturna convencional. A iluminação é baixa. No teto, um globo giratório lança bolinhas coloridas no salão. A um canto, um grupo de jazz toca versões instrumentais de músicas mundanas, incluindo o clássico Bananeira, de João Donato e Gilberto Gil. Em um intervalo da apresentação, o ambiente passa a ser animado pelo ritmo dançante da banda Funk Como Le Gusta, que tem um show exibido nos monitores de tela plana. De repente, o som cessa, um homem sobe no palco e, após cumprimentar os clientes, fala ao microfone. ;Quem trouxe a Bíblia levanta a mão. Quem não trouxe, eu profetizo o smartphone em sua vida;, diz Nito Landau, um dos donos do lugar.

Nito, de 37 anos, começa a ler versículos do capítulo 14 de Romanos. Em uma das mesas, uma mulher tira da bolsa uma espessa Bíblia e acompanha a leitura, em silêncio. Na mesa ao lado, um jovem se apressa para abrir uma versão digital do livro no smartphone. ;Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem fazer outras coisas em que teu irmão tropece, ou se escandalize, ou se enfraqueça;, prega um dos versículos lidos por Nito. Depois, um breve sermão. ;Deus é liberdade. Siga aquilo que Deus colocou em sua vida. Amém?;, pergunta. ;Amém;, exclamam os presentes. Ele faz uma ardente oração e reforça: ;Esta é uma noite que dedicamos a Deus;.

Era uma quinta-feira na unidade do Santo Cristo Gospel Pub, em Belo Horizonte. Aberta em 18 de dezembro, a casa funciona no número 135 da Rua Júlio Pereira da Silva, Bairro Cidade Nova, Região Nordeste da capital. O lugar se destina a receber frequentadores de igrejas evangélicas que, sem desrespeitar o que elas professam, queiram sair de casa para se divertir depois de o sol se pôr. No bar ao fundo do salão, as prateleiras ficam quase vazias, sem as habituais garrafas de uísque, vodca e cachaça. O cardápio não oferece bebidas alcoólicas. As opções são água mineral, sucos de frutas, tigela de açaí, refrigerantes e energético.

SEGUNDA UNIDADE
Sanduíches e porções de comida estão no outro lado do cardápio. O menu é quase idêntico ao da outra unidade do pub, inaugurada há quase três anos em Santa Luzia, na Região Metropolitana de BH. Na capital, a casa tem capacidade para cerca de 300 pessoas e dá desconto no ingresso para quem doar alimento não perecível, entregue depois a instituições de caridade. Ela abre de quinta-feira a sábado, das 21h30 até as 2h30 ou 3h, a depender do fôlego dos clientes. A partir de fevereiro, também abrirá em dois domingos por mês, à tarde. Os horários não são definidos com base em critérios puramente comerciais, segundo Nito Landau. ;Não queremos que interfiram nos horários dos cultos, para a pessoa não deixar de ir à igreja. Nossa intenção é ser uma extensão da igreja;, diz ele, que comanda o espaço junto com o sócio, Welbert Aquino. Na entrada, como não há idade mínima para ingressar, não é preciso mostrar a carteira de identidade ao porteiro.

No pub, as moças recebem pulseiras que indicam sua situação afetivo-amorosa. A verde significa que está solteira, enquanto a vermelha deixa claro que é compromissada. Tudo para que os rapazes não corram o risco de cobiçar a mulher alheia. As moças, claro, são vaidosas, usam saltos altos, calças justas, vestidos acima do joelho ; não muito. A paquera é permitida, mas há restrições. Devotada ao forró, a sexta-feira é o dia mais propício ao cuidadoso enlace de novos casais. ;Se o rapaz for dançar, tem que respeitar a moça. Não pode ter má intenção, sensualidade, esfrega-esfrega;, explica Nito.

Em uma sexta-feira, Nito teve de subir ao palco para chamar a atenção dos forrozeiros que estavam passando dos limites. Noutra vez, preferiu falar à parte com uma jovem. ;Querida, você é serva de Deus. A maneira como você está dançando não é legal, não condiz com o que você acredita;, disse. ;Ela reconheceu o erro e pediu desculpas. Estava dançando muito junto com um rapaz, muito perto;, lembra ele, adepto da Igreja Missão Céus Mundial, em Santa Luzia.

A estudante Lívia Lanna Madeira, de 18 anos, concorda com as restrições do pub, mas gostaria que os rapazes evangélicos tivessem mais iniciativa. ;A gente veio a um forró, mas os homens não chamavam pra dançar, só ficavam olhando. Tivemos que dançar entre nós mesmas;, disse ela, referindo-se às suas acompanhantes, Lorena Guimarães Freitas, de 21, e Lilyam Christine Guimarães Freitas, de 19. Lorena reforçou a queixa da prima. ;No pub, os homens nunca ;chegam;.;

Em uma quinta-feira, as três foram à casa noturna pela segunda vez. ;É muito difícil encontrar um lugar evangélico para jovens. Antes de conhecer o pub eu só dançava forró em festinha de amigos. Aqui há um respeito muito maior. As pessoas não evangélicas, quando vão dançar, pegam de um jeito mais forte;, descreveu a estudante de administração Lilyam, frequentadora da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ela aprova os breves sermões que Nito oferta aos clientes todas as noites. ;Acho legal para o povo ter consciência que aqui não é como qualquer balada;, ressaltou.

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