Finalmente unido, time bateu na trave

Campanha na França marcou pela primeira vez a presença brasileira numa semifinal

Renan Damasceno
postado em 02/02/2014 00:00
 (foto: ARQUIVO O CRUZEIRO/EM/D.A PRESS - 1938)
(foto: ARQUIVO O CRUZEIRO/EM/D.A PRESS - 1938)

Depois de duas campanhas inexpressivas, resultados de brigas políticas envolvendo as entidades que regiam o futebol brasileiro à época, a Seleção Brasileira, finalmente, chegou com um ;time de verdade; para a Copa do Mundo de 1938, na França. Em 1930, no Uruguai, o Brasil foi formado apenas por atletas que atuavam no Rio, por retaliação dos paulistas, preteridos pela comissão técnica. Quatro anos mais tarde, a disputa entre amadorismo e profissionalismo fez com que a Confederação Brasileira dos Desportos (CBD) levasse apenas atletas do Botafogo (que resistia amador) e alguns poucos que se desligaram de seus clubes para jogar o Mundial.

Em 1938, enfim, o cenário era diferente e favorável. Com os maiores clubes do país já profissionalizados, o futebol se tornava o esporte mais popular do país, propiciando a ascensão de ídolos. O técnico carioca Ademar Pimenta pôde usufruir do que a modalidade brasileira tinha de melhor e convocou 20 jogadores ; 16 que atuavam no Rio e quatro em São Paulo. A preparação, de 30 dias, foi em Caxambu, no Sul de Minas.

No grupo estavam nomes conhecidos, como o goleiro Batatais, o armador Romeu e o atacante Tim (Fluminense), o zagueiro Domingos da Guia e o atacante Leônidas da Silva (Flamengo), que já havia participado da Copa;1934, terminando como artilheiro da edição francesa, com sete gols.

Minas Gerais, que foi representada pela primeira vez no Mundial anterior, com o juiz-forano Heitor Canalli, teve cinco jogadores na França: o zagueiro Nariz, de Uberaba, que defendia o Botafogo, juntamente com o lateral-direito Zezé Procópio (Varginha) e o atacante Perácio (Nova Lima), tricampeões mineiros pelo Villa Nova (1933, 1934 e 1935). No Fluminense jogava o ponta-esquerda Hércules, de Guaxupé. Além deles, o atacante belo-horizontino Niginho, dono de sete títulos estaduais por Palestra Itália/Cruzeiro, foi relacionado, mas não entrou em campo por causa de uma polêmica: na semifinal contra a Itália ele seria provável substituto do lesionado Leônidas, mas os italianos alegaram que sua situação era irregular, informando à Fifa que ele não havia se desligado legalmente da Lazio e que era desertor do Exército italiano.

A guerra, aliás, já batia à porta. A competição em 1938 foi o último grande evento esportivo antes do início da Segunda Guerra Mundial, no ano seguinte. A Espanha sofria com a guerra civil e não pôde viajar até a vizinha França, enquanto a anexação da Áustria pela Alemanha reduziu o número de participantes de 16 para 15 ; vários jogadores austríacos apareceram na Seleção Alemã. A Argentina (que queria ter feito o torneio em casa) e o Uruguai resolveram não participar, e o Brasil partiu a bordo do transatlântico Alianza como o único representante sul-americano.

A competição era eliminatória. Logo na estreia, um jogo eletrizante. Debaixo de muito chuva, Brasil e Polônia fizeram um jogo de 11 gols, com triunfo brasileiro por 6 a 5 na prorrogação, depois de empate em 4 a 4 no tempo normal. Leônidas, que balançou a rede pela primeira vez aos 18min, fez os dois do tempo extra ; um deles, reza a lenda, foi descalço, já que havia perdido a chuteira em um lance anterior. O jogo seguinte, contra a Checoslováquia, foi uma batalha campal, com três expulsões ; duas do Brasil, entre eles o mineiro Zezé Procópio. Depois de pontapés, fraturas, clavículas deslocadas e um empate por 1 a 1, que permaneceu na prorrogação, as equipes voltaram para jogo extra, vencido pelos brasileiros por 2 a 1.

BATALHA NO VÉLODROME Na semifinal, o Brasil teria pela frente a então campeã mundial, a Itália, que jogava de preto a pedido do ditador Benito Mussolini. Além do técnico Vittorio Pozzo, somente quatro campeões mundiais em 1934 voltaram a defender a equipe na competição em solo francês. Dois deles, os meio-campistas Giuseppe Meazza e Giovanni Ferrari, tiveram participações decisivas ao lado do atacante Silvio Piola. Com Leônidas machucado, Niginho seria o substituto, mas a CBD achou prudente não escalá-lo, já que o atacante havia se desligado da Lazio, mas a Federação Italiana não o havia liberado ; portanto, irregular perante a Fifa.

Depois de empate por 0 a 0 na primeira etapa, os italianos chegaram ao triunfo. Aos 10min, Colaussi, em jogada individual, abriu o placar. Em seguida, Domingos da Guia fez pênalti em Piola, convertido por Meazza. No fim, Romeu diminuiu.

O terceiro lugar para o Brasil veio depois de 4 a 2 sobre a Suécia, mesmo placar aplicado pelos italianos sobre a Hungria na decisão. Com o resultado, a Itália foi a primeira seleção da história a conquistar um bicampeonato consecutivo ; feito que só viria a ser igualado pelo Brasil 28 anos depois.


França

; Campeão.............Itália

; Vice.....................Hungria

; Artilheiro..............Leônidas da Silva (Brasil) 7 gols

Personagem
Leônidas da Silva

A Copa do Mundo;1938 foi a segunda de Leônidas da Silva, que se consagrou como artilheiro, com sete gols. Um dos atletas mais populares dos primeiros anos de futebol profissional, o Diamante Negro teve papel importante na luta pela profissionalização e foi ídolo de Vasco, Flamengo e São Paulo, onde encerrou a carreira, em 1950. Ao apresentar aos europeus a bicicleta, Leônidas começou a mudar a imagem do futebol brasileiro. Ele morreu em 2004, aos 90 anos.

Campanha do Brasil

5/7 Brasil 6 x 5 Polônia
Gols: Leônidas 18, Skerfke 23, Romeu 25, Perácio 44 do 1;; Wilimowski 8 e 14, Perácio 26, Wilimowski 44 do 2;; Leônidas 3 e 14 da 1; prorrogação; Wilimowski 13 da 2; prorrogação

12/6 Brasil 1 x 1 Tchecoslováquia (quartas de final)

Gols: Leônidas 30 do 1;; Nejedly 20 do 2;

14/6 Brasil 2 x 1 Tchecoslováquia (jogo de desempate)
Gols: Kopecky 25 do 1;; Leônidas 12 e Roberto 18 do 2;

16/7 Brasil 1 x 2 Itália (semifinal)
Gols: Colaussi 6, Meazza 15 e Romeu 42 do 2;

19/7 Brasil 4 x 2 Suécia (disputa de terceiro lugar)
Gols: Jonasson 28, Nyberg 38, Romeu 44 do 1;; Leônidas 18 e 29 e Perácio 35 do 2;

Você sabia?

; Único W.O. da história

A Áustria havia sido anexada pela Alemanha de Adolf Hitler três meses antes da Copa. Como muitos jogadores foram defender a Alemanha, a Seleção Austríaca não foi à Copa. O que seria o jogo de estreia, contra a Suécia, se tornou o único W.O. da história dos mundiais.

; Rápido adeus

Duas seleções tiveram a sua primeira e única participação em Copas em 1938: Índ

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