Tomada de consciência

Enxergar o próprio corpo é o primeiro passo para quem quer emagrecer. Perder peso exige um ajuste de mentalidade, uma motivação e uma intenção de se manter magro

Carolina Cotta
postado em 02/02/2014 00:00
 (foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press
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(foto: Paulo Filgueiras/EM/D.A Press )
"Sempre fui cheinho." "Na minha família todo mundo é obeso." "Estou bem com o meu corpo." "Não tenho tempo para atividade física." As famosas "desculpas de gordinhos" dizem mais do que parece. A fala conformada muitas vezes esconde algo de que nem eles têm consciência. As próprias justificativas para continuarem gordos seriam uma espécie de defesa do inconsciente. Sem uma real dimensão do corpo, é como se estivessem liberados dessa tarefa árdua que é emagrecer.

Para a psicóloga Halina Rezende, coordenadora do Programa de Apoio Psicocomportamental ao Emagrecimento (Proapce) do Instituto Mineiro de Endocrinologia, muitas vezes a comida está no lugar de outra coisa, sinalizando uma falta, portanto. "Muitos obesos têm um ganho secundário com essa condição. Eles ficam no princípio do prazer, só comendo, sem entrar em contato com o próprio corpo. Mas eles precisam perceber essa realidade, senão vão ficar burlando, deixando a dieta sempre para o mês que vem", explica a especialista, ela mesma ex-obesa.

Foi assim com Marcelo Camargo Alves, de 41 anos. "Quase sempre estive acima do peso, mas não tinha isso como problema, acredito que por causa da acomodação", lembra o engenheiro eletricista, que perdeu 33 quilos desde julho de 2013. Mesmo não percebendo a obesidade como um problema, ele se incomodava em alguns momentos, quando comprava roupas ou ia à praia, por exemplo. "As pessoas próximas faziam críticas para me alertar e eu dizia sempre a mesma coisa: ;Por que tenho que seguir esse padrão estético? Sou feliz gordo!’. Eu me enganava literalmente", reconhece.

Em meados do ano passado, no exame periódico exigido pela empresa onde trabalha, Marcelo constatou que estava com pré-diabetes e o colesterol nas alturas. No teste ergométrico a médica lhe disse que ele estava ótimo, mas para alguém com 65 anos. As palavras foram tão fortes que ele resolveu mudar o rumo de sua vida. O apoio da família é uma das fontes de motivação a que ele tem recorrido, além, é claro, da busca por mais anos de vida. "Acordo e olho para minha filha pensando que essa luta é por mais saúde para ficar ao lado dela", acredita.

CATALISADOR O peso deixou de ser um problema e sem essa preocupação ele tem pensado em outras coisas. Para Marcelo, até a troca de carro ou apartamento era deixada de lado: era mais cômodo deixar tudo como estava. "A sensação que tenho é que a perda de peso virou uma espécie de catalisador, um acelerador de decisões. Os 119,6 quilos funcionavam como âncora, o que me impedia de seguir em frente. Cortei a corrente da âncora e estou seguindo em frente e acelerado, realizando as mudanças na minha vida", acredita.

Marcelo conseguiu enxergar seu corpo. E conseguiu mudar sua relação com ele porque soube manter a motivação. Segundo a psicoterapeuta familiar Aline Rodrigues, é importante identificar o que leva a pessoa a comer, o que a desanima, mas também que atitudes podem fazer diferença em uma mudança de hábitos. E isso exige um ajuste de mentalidade, uma motivação e uma intenção. É preciso tomar consciência de que agir de forma diferente do que estamos acostumados não é fácil e requer esforço.

Depoimento
Ana Paula Vianna
44 anos, engenheira

;Sempre fui cheinha, mas depois da segunda gravidez descuidei da alimentação e da atividade física. Não acertava com as dietas: eram muito restritivas, podia comer alguns gramas disso ou daquilo. Eu ficava com fome. Com a restrição do carboidrato, minha dieta atual, meu organismo se adaptou melhor. Em uma segunda etapa, retomei o consumo do pão integral pela manhã. Comecei em março de 2013 e perdi 18 quilos. À medida que os resultados apareceram, fui me animando e tentando me reeducar para comer, mas o que me motivou a começar foi a necessidade de dar exemplo. Levei meu filho mais novo na nutricionista e ele perguntou a ela se eu também não estava gordinha. Foi como se questionasse sobre a necessidade de aprender a comer se a própria mãe não sabe.;

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