Quão livre se pode ser?

Mírian Pinheiro
postado em 02/02/2014 00:00
 (foto: Reprodução)
(foto: Reprodução)



Quando o Talibã tomou o controle do vale do Swat, uma menina levantou a voz. Malala Yousafzai se recusou a permanecer em silêncio e lutou pelo seu direito à educação. Mas em 9 de outubro de 2012, uma terça-feira, ela quase pagou o preço com a vida. Malala foi atingida na cabeça por um tiro à queima-roupa dentro do ônibus no qual voltava da escola. Poucos acreditaram que ela sobreviveria. Mas a recuperação milagrosa de Malala a levou em uma viagem extraordinária de um vale remoto no Norte do Paquistão para as salas das Nações Unidas, em Nova York.


Aos 16 anos, ela se tornou um símbolo global de protesto pacífico e a candidata mais jovem da história a receber o Prêmio Nobel da Paz. Eu sou Malala é a história de uma família exilada pelo terrorismo global, da luta pelo direito à educação feminina e dos obstáculos à valorização da mulher em uma sociedade que valoriza filhos homens. O livro acompanha a infância da garota no Paquistão, os primeiros anos de vida escolar, as asperezas da vida numa região marcada pela desigualdade social, as belezas do deserto e as trevas da vida sob o Talibã.


Escrito em parceria com a jornalista britânica Christina Lamb (correspondente no Paquistão e no Afeganistão desde 1987), este livro é uma janela para a singularidade poderosa de uma menina cheia de brio e talento, mas também para um universo religioso e cultural cheio de interdições e particularidades, muitas vezes incompreendido pelo Ocidente.;Sentar numa cadeira, ler meus livros rodeada pelos meus amigos é um direito meu;, ela diz numa das últimas passagens do livro. A história de Malala renova a crença na capacidade de uma pessoa de inspirar e modificar o mundo.

Uma segunda vida Dividido em partes, Eu sou Malala começa com a protagonista contanto sobre a vida antes do Talibã. E, de cara, já revela que as coisas não seriam fáceis para essa menina paquistanesa. Ela relata: ;No dia em que nasci, as pessoas da nossa aldeia tiveram pena de minha mãe, e ninguém deu os parabéns a meu pai. Vim ao mundo durante a madrugada, quando a última estrela se apaga. Nós, pachtuns, consideramos esse um sinal auspicioso. Meu pai não tinha dinheiro para o hospital ou para uma parteira. Então, uma vizinha ajudou minha mãe. O primeiro bebê de meus pais foi natimorto, mas eu vim ao mundo chorando e dando pontapés. Nasci menina num lugar onde rifles são disparados em comemoração a um filho, ao passo que as filhas são escondidas atrás de cortinas, sendo seu papel na vida apenas fazer comida e procriar. Para a maioria dos pachtuns, o dia em que nasce uma menina é considerado sombrio;.


Mesmo com um destino sob véus, havia algo diferente naquela mocinha. Que o diga o primo de seu pai Jehan Sher Khan Yousafzai. Ela conta no livro que ele foi um dos poucos a visitar a família para celebrar seu nascimento, dando a eles até mesmo uma boa soma em dinheiro. No livro, ela relembra essa visita: ;Levou uma grande árvore genealógica que remontava até meu trisavô, e que mostrava apenas as linhas de descendência masculina. Meu pai, Ziauddin, é diferente da maior parte dos homens pachtuns. Pegou a árvore e riscou uma linha a partir de seu nome, no formato de um pirulito. Ao fim da linha escreveu ;Malala;. O primo riu, atônito. Meu pai não se importou. Disse que olhou nos meus olhos assim que nasci e se apaixonou. Comentou com as pessoas: ;Sei que há algo diferente nessa criança;. Também pediu aos amigos para jogar frutas secas, doces e moedas em meu berço, algo reservado somente aos meninos;.


A menina cresceu, foi chamada de Malala, em homenagem a Malalai de Maiwand, a maior heroína do Afeganistão. E ela, assim como todas as crianças do lugar, também cresceu ouvindo a história de como Malalai inspirou o Exército afegão a derrotar o britânico na Segunda Guerra Anglo-Afegã, em 1880.


Muitas escolas de meninas no Afeganistão têm o nome dela. Mas seu avô, que era professor de teologia e imã da aldeia, não gostou que seu pai lhe desse esse nome. ;É um nome triste;, disse. ;Significa luto, sofrimento.; Malala rebate o avô ao contar que, quando era bebê, o pai cantava uma música escrita pelo famoso poeta Rahmat Shah Sayel, de Peshawar. A última estrofe é assim: ;Oh, Malala de Maiwand, Ergue-te mais uma vez para fazer os pachtuns entenderem o significado da honra, Tuas palavras poéticas movem mundos, Eu imploro, ergue-te mais uma vez;; E Malala nasceu de novo; para a surpresa do avô; o orgulho do pai; e a ira dos talibãs.

Eu sou Malala
Autores: Malala Yousafzai
e Christina Lamb
Tradução: Caroline Chang e George Schlesinger - Luciano Vieira Machado e Denise Bottmann
360 páginas
R$34,50

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