Cachaça para comer

Livro e festival gourmet pretendem resgatar a história e projetar a marvada para o mundo

Laura Valente
postado em 02/02/2014 00:00
 (foto: flávia charchar/divulgação)
(foto: flávia charchar/divulgação)



Patrimônio cultural imaterial de Minas Gerais, a cachaça vem ganhando destaque para além do balcão de bar pelas mãos de cozinheiros e chefs de cozinha. Tanto que até sexta-feira é possível conhecer a proposta em evento realizado na cidade, o 6; Festival Cultural Gastronômico Cachaça Gourmet. A partir da iniciativa, 20 restaurantes locais criaram receitas de pratos autorais usando a marvada entre os ingredientes: são 20 cachaças de alambiques distintos. A bebida também dá origem a 20 drinques. No final, um júri e o público visitante vão eleger os vencedores nas categorias Melhor apresentação, Melhor sabor e harmonização e Maior criatividade e originalidade.


Além de atrair o público para as casas noturnas em um mês de movimento fraco devido às férias, o festival revela um objetivo maior, mais nobre: mostrar que a cachaça mineira tem muito potencial e pode ser muito mais explorada, como afirma José Lúcio Mendes Ferreira, autor do livro Cachaça, o espírito mineiro (produção independente via Lei Rouanet, 200 páginas., R$ 75 nas livrarias Mineiriana, Scriptum e Ouvidor). Formado em turismo, ele também é o idealizador da Expocachaça, feira gigantesca do setor realizada em Belo Horizonte desde 1998, geralmente no mês de junho. Com vasta experiência em pesquisas e na promoção da bebida destilada, ele diz que o uso culinário é apenas uma das vertentes em que a cachaça pode crescer e aparecer. ;Em spray culinário, ela tem a função de aromatizar receitas. É também usada na produção de pratos salgados e doces como gelatinas e pudins, e ainda na composição de vinhos e licores;, exemplifica.

Copa do Mundo Às vésperas da Copa do Mundo, Ferreira se preocupa com a promoção da cachaça mineira. ;Todos os hotéis do país deveriam servir caipirinha de qualidade como drinque de boas-vindas. Na África do Sul, exploraram a Amarula;, lembra. Por falar no Mundial, uma certa ;rivalidade; com outros estados foi uma das motivações para que o empresário escrevesse o livro. ;Em um primeiro momento, a ausência de registros históricos sistematizados me causou incômodo. Daí, durante pesquisas, acabei descobrindo que muito do que foi feito aqui, em Minas, acabou creditado a outros lugares. Penso que não podemos deixar a história perder-se no tempo;, justifica.


Além de trazer registros da origem e desenvolvimento da cachaça nas Gerais, a obra versa sobre a história da bebida e do país, incluindo um linha do tempo que revela dados talvez não tão conhecidos, como o subsídio sobre a cachaça, baixado em 1756 com o objetivo de levantar fundos para a reconstrução de Lisboa, em Portugal, atingida por terremoto um ano antes. A cobrança seria feita durante 10 anos, mas durou 60. José Lúcio apresenta ainda uma coleção de antigos rótulos de garrafas de várias regiões do Brasil, além de curiosidades sobre o acervo dos 9 mil tipos de cachaça organizados em coleção do médico Paulo Diogo Monteiro de Barros. Há, ainda, uma mostra de drinques com a bebida, entre outros registros. ;O mais interessante na coleção de rótulos é que neles podemos reconhecer diferentes momentos da história do país;, observa.
O interesse pelo tema abriu o apetite? Nesse caso, vale experimentar as receitas criadas para o festival belo-horizontino. As opções incluem pratos à base de porco, como o lombo embriagado e baroas boladas (veja receita na página), peixe (ceviche mineiro com filé de tilápia e manga servidos com lambari da horta no fubá finalizado com melaço de cachaça) e carne vermelha (maçã de peito com batatas ao pesto de agrião), entre outras.

Lombo embriagado e baroas
boladas Agosto Butiquim


Ingredientes

Para uma porção: 500g de lombo suíno inteiro, 1 cebola picada em rodelas, 1 dente de alho, 50ml de cachaça Capim Cheiroso. Para a bolinha de baroa: 200g da baroa cozida e amassada, 1 colher (sopa) de manteiga, 1 colher (sopa) de farinha de trigo, 100g de queijo do serro picadinho, 1 colher (chá) de fermento, sal, salsa picada, 150g de farinha de rosca. Para o melado de cachaça: 60ml de cachaça Capim Cheiroso, 60ml de açúcar mascavo, 1 pedaço pequeno de gengibre, 60ml de catchup, 50ml de molho de soja.

Modo de fazer

O lombo: tempere o lombo com alho amassado e o sal. Esprema o suco do limão e junte a cachaça. Deixe marinar por, no mínimo, uma hora. Em uma frigideira, sele o lombo de todos os lados até dourar. Acrescente a cebola e refogue por alguns minutos. Vá pingando água até o lombo ficar cozido e macio, e a cebola derreter e formar um molho. Reserve. A bolinha de baroa: misture todos os ingredientes até que a massa fique homogênea. Faça bolinhas e passe na farinha de rosca. Frite por imersão. O melado de cachaça: misture todos os ingredientes e leve ao fogo baixo atá engrossar. Sirva o lombo fatiado, regado com o molho de cebolas do cozimento, guarnecido das bolinhas de baroa e o melado de cachaça

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